O estilo é essencial numa herança política. O de Cavaco Silva revelou-se à transparência no discurso natalício perante o Conselho da Diáspora Portuguesa. O PR rendeu-se ao "pragmatismo" que reina na Europa. Ilustrou-o com o fracasso de Varoufakis, como se o holocausto do povo grego, reclamado pelos deuses da zona euro, se reduzisse a uma advertência para seguirmos de cabeça baixa. Concluiu com esta frase sibilina: "A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica." Como pode atrever-se a falar de "ideologia", este economista de formação, que em 1992, como PM de um governo de maioria absoluta, assumiu o quinhão maior de responsabilidade por empurrar Portugal, sem qualquer espécie de consulta ou autorização dos cidadãos, para o beco sem saída de uma letal "união económica e monetária", fundada numa ideológica alucinação neoliberal? Como não se submete a um exame de consciência alguém que viu uma parte dos seus colaboradores aproveitar a "liberalização do sistema financeiro", incentivada como condição de acesso à UEM, para a montagem de uma rede da mais vil e venal rapina de bens públicos? Quantos companheiros de estrada do PR não se encontravam à frente de BPN, BPP, BES, Banif, cuja desmesura um povo empobrecido e envelhecido carregará às costas por tempo indeterminado? O que terá ainda o PR a dizer a este país mergulhado numa crise existencial, que resultou também das suas escolhas ideológicas e dos erros grosseiros, a não ser um pedido de desculpas? Como pode quem levou para Belém o seu ressentimento e falta de isenção ensinar os portugueses acerca da realidade? Sobretudo quando esta se transformou, também pela sua ação e omissão, num pesadelo sem fim vista.