O músico que deu outra voz a Amália

Fez música, foi editor livreiro, encenador e combateu o regime de Salazar. 'Com Que Voz', o documentário,  chega  às salas na próxima quinta-feira.
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T emos de ficar agradecidos ao Alain Oulman por ter dedicado o seu talento de forma tão decisiva à música portuguesa." Foi com estas palavras que o editor David Ferreira lembrou ao DN Alain Oulman e o seu papel fulcral como compositor de alguns dos fados mais marcantes na carreira de Amália Rodrigues. Mas o seu talento não se resumiu à música e esta quinta-feira chega às salas o documentário que o seu filho Nicholas Oulman realizou em torno da vida e obra do pai, intitulado Com Que Voz, com o qual recebeu o prémio de Melhor Primeira Obra no DocLisboa 2009.

"Eu sempre vi o Alain Oulman como a figura de pai e não como este homem pluridisciplinar, que fazia mil e uma coisas. Sempre o vi de uma maneira diferente. Aliás, eu só vim a descobrir profundamente todas essas facetas já depois de ele falecer (a 28 de Março de 1990), ti-nha eu 22 anos, e achei tudo isto fascinante", contou ao DN Nicholas Oulman.

Através do documentário Com Que Voz (referência à obra-prima de Amália Rodrigues com composições de Oulman), o realizador quis mostrar ao grande público não só o trabalho artístico do pai, mas também o seu lado humano: "Era uma pessoa como todos nós. São raras as pessoas que conseguem fazer tudo bem em todos os aspectos da vida, há sempre alguma coisa que sofre. Para se ter sucesso, seja na música seja na literatura, é necessário um grande empenho, um trabalho constante, e claro, depois há sempre o revés da moeda", referiu.

Além de ter levado Amália a cantar Luís de Camões, Alain Oulman dirigiu ainda actores como João Perry e Eunice Muñoz, foi editor livreiro de Mário Soares e Amos Oz na Calmann-Levy, em Paris, e contribuiu para a gestão dos negócios da família. "A visão que eu tenho do meu pai é de um workaholic (viciado em trabalho)", lembrou Nicholas Oulman. Desde cedo que despertou o seu gosto pelas artes, mas esse não era o destino que o seu pai, Albert, tinha traçado para Alain, depois de ter perdido o filho mais velho na Segunda Guerra Mundial.

O compositor nasceu em 1928 no seio de uma família judaica de origem francesa, em Dafundo. "O meu pai teve uma educação muito rígida e fez parte de um meio social onde quem educava as crianças não eram propriamente os pais, mas mais as amas. Fez parte de uma geração que não é muito demonstrativa a nível dos afectos e o meu pai, também por natureza, era uma pessoa pudica", contou o filho realizador.

Todavia, hoje é essencialmente reconhecido pela sua obra na música e na edição livreira. Muitos foram os artistas com que colaborou e boa parte deles está presente neste documentário sobre a sua vida. A emoção com que muitos dos intervenientes falaram com Nicholas Oulman foi uma das suas maiores surpresas enquanto realizava este Com Que Voz: "O meu pai morreu há 20 anos, e foi viver para Paris em 1970. Por isso há 40 anos que não tinha vivências com aquelas pessoas que entrevistei, que ao contarem-me todos aqueles episódios mostraram como os sentimentos ainda estavam à flor da pele. Isso não estava à espera de todo", referiu.

Quando viveu em Paris ainda chegou a compor para Yves Montand, mas foi em Portugal, e ao lado de Amália, que as suas músicas se tornaram célebres, mas também controversas entre os puristas do fado, que se referiam a estas composições como "as óperas". "Muito do que hoje em dia julgamos que é o fado foi sendo construído ao longo da carreira da Amália, mas se fôssemos à procura do maior salto a nível estético na sua carreira, isso acontece com a chegada do Alain Oulman no Busto (1962)", explicou David Ferreira.

Nesse álbum estava incluído o fado Abandono, com poema de David Mourão-Ferreira e música de Alain Oulman, e que na altura acabou por ser acolhido pelo opositores do regime. Aliás, paralelamente ao seu trabalho com Amália Rodrigues, foi-se revelando um resistente do regime ditatorial. Em 1965, a PIDE descobriu que cedera uma casa para reuniões clandestinas da Frente de Acção Popular. Depois da detenção, acabou por ser expulso do País, apesar de mais tarde a diplomacia francesa ter intercedido a seu favor, conseguindo um perdão. "Muitas das histórias que ia ouvindo falar só foram afinadas agora. Até falar com Mário Soares tinha na minha cabeça uma história de que eles se tinham conhecido na prisão e que tinham assistido juntos à tortura de um homem. Quando fui ter com Mário Soares, ele disse--me logo que isto era pura invenção", contou Nicholas Oulman.

Apesar do perdão, Alain acabou por se instalar definitivamente em Paris, trabalhando como editor na Calmann-Levy, onde publica, entre outros, o histórico Portugal Baillonné, de Mário Soares.

Apesar das visitas regulares a Lisboa, muitas das vezes para tratar de negócios da família, até ao dia do seu desaparecimento Alain Oulman foi uma figura algo ausente no seio familiar: "Já não existe aquela mágoa... O meu pai morreu há 20 anos, já tenho três filhos e tenho outras coisas que me preocupam. Daí que tenha feito este filme, não só para ele ter o reconhecimento que merece na praça público, mas também para mostrar aos meus filhos a importância clara que o avô teve", explicou Nicholas.

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