O meu Natal na Benard

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Nas manhãs de 24 de dezembro vou à Benard. Dá-se que vou lá muitas vezes. A esse café e a outros. Gosto de cafés. Gosto do café dos cafés, gosto de dar os bons dias ao senhor que me vai trazer o café. Tenho para mim que só se lê realmente bem um jornal sentado numa cadeira dum café barulhento ou duma esplanada movimentada. Acho que uma conversa corre sempre melhor numa mesa de café, muito melhor do que num restaurante em que há sempre um qualquer pedaço de comida ou uma bebida para meter à boca e atrapalhar o raciocínio.

Mas no dia 24 tem de ser mesmo a Benard. Aqui há uns anos disseram-me que a dona do café era de Vieira do Minho. Nunca quis saber se era mesmo verdade, e se não for agradeço que me mintam e me apresentem uma certidão falsa de nascimento da proprietária.

Vieira do Minho é uma vila minhota onde nasceram os meus pais e os meus avós.

Há muitos anos que lá não vou, mas até aos meus 20 e poucos anos era lá que ia consoar. Gostava de ir nas férias, até foi lá que tive o meu primeiro desfalecimento de amor, mas ir no Natal era um pesadelo. A minha via-sacra anual.

Menino, rapaz, adolescente e, já agora, adulto de pouca saúde, não me era difícil arranjar uma doença credível por volta de dia 22. Mas apesar de contar com a compreensão da minha mãe para as minhas engenhosas maleitas, o meu pai não ia na cantiga. Assim sendo, no dia 23 começava a épica viagem de oito ou nove horas, em que eu tinha de vomitar umas dez vezes por causa dos enjoos, a minha irmã que tinha de fazer chichi de dez em dez quilómetros e perguntava de cinco em cinco minutos quantos quilómetros faltavam, enquanto o meu bufava o suficiente para afastar os milhões de carros que também seguiam para norte. Tudo isto antecedido de choros e gritos contra os atrasos, contra a demasiada bagagem, contra o tamanho da bagageira, contra o maldito trânsito que íamos apanhar. Pronto, também cantávamos umas modinhas e dizíamos uns disparates.

Passados tormentos e perigos esforçados, em forma de ultrapassagens em estradas apinhadas, sem cintos de segurança, pelo meio de povoações, chegávamos a Vieira, melhor, a Loureiro, melhor ainda, à Casa da Cortinha, casa dos meus avós paternos.

Aquele mundo era antieu. Estava frio, estava sempre frio. O frio era tanto que nem os dez cobertores chegavam para temperar o gelo dos lençóis. Lá tinha de ir com o meu avô - homem muito amado e de quem me recordo todos os dias -, o meu pai, os meus tios e primos ver as leiras, as terras, aquele hiperbólico verde minhoto que sempre me asfixiou e de que nunca gostei, conviver com a natureza que sempre mostrou ter qualquer coisa contra mim e que eu retribuo com pouca consideração. Depois, os primos da minha idade. Era um convívio complicado, digamos assim. Eu era, e sou, um bicho de apartamento. Aquelas brincadeiras que consistiam em levar uns murros e umas caneladas, correr desenfreadamente por colinas abaixo, espancamento de animais, bichos suspeitos por todo o lado e atividades perigosíssimas como trepar às árvores ou saltar riachos eram coisas que eu até gostava de ver na televisão, mas armar-me em duplo de cinema era areia de mais para a minha camioneta.

E, claro, a consoada propriamente dita. Só mais tarde é que conheci consoadas com poucos minhotos. Também não sei se todos os minhotos são como nós, mas suspeito que sim. A coisa consistia em mais de quarenta pessoas todas a falar ao mesmo tempo, crianças, adolescentes, pais e mães, avós. Falar não é o termo apropriado, berrar a plenos pulmões será o retrato mais preciso. Como é evidente, "és o gajo mais burro que já nasceu", "ó pai, o João chamou-me estúpida", "Porra, Catarina, vai buscar a canalha que vamos já embora que não estou para aturar isto" eram acontecimentos banais. Nunca esquecendo os mais minhotos dos insultos, aqueles que se referem aos defeitos físicos das pessoas; um tipo baixo é sempre um anão, um cidadão levemente encurvado é um malota, um tipo de óculos é um ceguinho e quem se engasga numa palavra é certo e sabido que é um sacana dum gaguinho. Importantíssimas discussões repetidas durante umas seis horas até que o bacalhau acabasse - aquilo é uma terra civilizada, não entram perus e heresias do género - e o pior vinho do mundo, o nosso americano, ainda conseguisse azedar mais.

No dia seguinte, missinha. Não é o que os meu avós impusessem o que quer que fosse à sua enorme prole. Já se sabia que isso de não ser católico e não ter fé era muito bonito e até dizia que ficava bem lá nas terras dos modernos, em Lisboa ou no Porto, mas por lá podiam armar--se à vontade, ali ia-se à missa, cantava-se, rezava-se e depois convidava-se o padre para almoçar. E respeitinho que o prior gostava duns copos mas era homem santo e tinha ajudado muito a família - a parte do meu avô ter escondido uns cereais na altura da Segunda Guerra Mundial na Capela de Santa Ana não era para ser mencionado; aliás, já se tinha dado ouro à santa para esses e outros agradecimentos.

O suspiro de alívio que eu dava quando chegava a Lisboa era infinitamente mais pequeno do que o que eu agora dou quando me sento cada dia 24 de dezembro na Benard. Na Benard, o meu Natal lembrado.

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