O longo alcance da brevidade numa poesia de ácida lucidez

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Eduardo Pitta trouxe à poesia dos anos 70 uma força nova, quando surgiu com o primeiro livro Sílaba a Sílaba (1974). Somaram-se poemas desafiantes e de igual intensidade nos dois grandes territórios do poeta o do corpo, que assume na plenitude os signos homoeróticos - "E só agora / tu e eu sabemos / da urgência do / amor."; e o de apátrida ou de exilado, no sentido de ser um homem de duas pátrias apartadas: Moçambique, onde nasceu na então Lourenço Marques, e Portugal para onde veio em 1975. "Eu diria dos apátridas que somos / daquela pátria que nos sobra." São versos que integram Poesia Escolhida, de Eduardo Pitta, edição do Círculo de Leitores, em que o poeta alinhou poemas feitos entre 1971 e 1996.

Se já na antologia pessoal Marcas de Água (1999) podemos ter uma noção ampla do trabalho poético de Eduardo Pitta, agora que passam mais de três décadas de uma criatividade repartida (partilhada será melhor dizê-lo) pela poesia, ficção, ensaio e crítica literária, o volume Poesia Escolhida alarga não apenas esse conhecimento como permite uma avaliação porventura mais atenta do conteúdo, da imagística, da estrutura e dos ritmos físico e psicológico do autor. Ao coligir poemas de 25 anos de escrita e de obras há muito esgotadas, e mesmo sabendo-se que a escolha está longe de abarcar toda a produção do escritor nesse período, Eduardo Pitta voltou a propor "a linguagem da desordem", expressão que deu título ao seu livro de 1983, dedicado a Jorge de Sena. Livro no qual há "alguns mortos de intervalo", mas a dizer-nos, igualmente, que "As cidades fazem-se todos os dias."

Poeta conciso, poeta da síntese que sabe a pulsão eficaz da metáfora e o longo alcance da brevidade, do instante, é na comunicação dos contrastes, no "grito gritado ao contrário", no discurso tenso da memória, da errância, do amor e do desejo que Eduardo Pitta demanda o jogo de espelhos. Um jogo cruento pela energia do olhar e da palavra, por uma ácida lucidez que se cumpre no domínio absoluto da transfiguração "Temos que baste: a pátria à janela / e a vontade na cama."; ou ainda: " Quando te encontro, / girassol do meio-dia, / baloiça-te na voz / um desejo de tâmaras / Inclino-me e soergo-te, / transpiras e dás fruto."

Eduardo Pitta, esquivo à retórica, tem uma oficina poética sólida, com o poder sugestivo e cáustico de um Baudelaire, com a depuração de Yeats. Sempre contida, na poesia do autor de obras como Um Cão de Angústia Progride plasma-se, ao mesmo tempo, e num estilo elíptico, o fulgor e o silêncio, a lâmina e a alma, a sedução e a ironia. Um ritmo que encontramos, também, na sua arte de crítico e de ensaísta (artigos reunidos em Comenda de Fogo - do Círculo de Leitores). Uma economia discursiva que lhe fortalece, do mesmo modo, os contos. E volta a sobressair na crónica de viagem Os Dias de Veneza, acabada de lançar pelas Edições Quasi.

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