O impacto do movimento de Alegre na esquerda

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Pela primeira vez Manuel Alegre admitiu o que até aqui não passava de uma ameaça: a criação de uma nova força política à esquerda, onde possam convergir o milhão de cidadãos que lhe deram o voto nas últimas eleições presidenciais, os comunistas expulsos ou descontentes com o isolamento do PCP, e ainda os apoiantes do Bloco de Esquerda. Ao passar da utopia para algo de mais concreto, ainda que muito longe de estar definido, o histórico deputado do PS criou o até agora maior obstáculo político para que o seu actual partido renove a maioria absoluta nas próximas legislativas.

É verdade que Alegre disse apenas estar a fazer as bases programáticas daquilo a que chamou uma alternativa de poder, à esquerda, que possa ser sufragada pelos votos, ao mesmo tempo que afirmou que se manterá ligado aos socialistas. Mas as intenções são agora claras e o facto de não ser ele a querer cortar o cordão umbilical ao PS pode até jogar a seu favor: se acabar por ser expulso, ganhará a aura de mártir.

Olhando em pormenor para este movimento, ficam, contudo, muitas questões para responder. Sócrates é, hoje, a única opção para o cargo de primeiro-ministro para a maioria dos portugueses, reunindo as preferências do "centrão" por falta de alternativas credíveis. E este movimento de Alegre, que cavalga as ondas de descontentamento da rua, das manifestações (função pública e professores, sobretudo), além de não ter um rosto forte para chefiar o Governo (além de Alegre, só Carvalho da Silva), não pode contar com os votos do PCP - com esses, sim, formaria uma força de enorme poder.

Seja como for, Alegre percebeu que uma candidatura presidencial, a sua maior ambição, ganhará mais força se retirar a maioria absoluta ao PS do que se tiver o apoio socialista.

Quando em Abril de 2003 os americanos entraram em Bagdad, apressaram-se a derrubar uma estátua gigante de Saddam. Livres do ditador, alguns iraquianos atreveram-se a bater com os sapatos na cabeça caída no chão. Era um momento de triunfo para Bush, o Presidente americano que fez da queda do regime iraquiano um dos seus dois grandes desafios (o outro, a captura de Ben Laden, continua por realizar). Passados mais de cinco anos, Bush esteve uma vez mais em Bagdad. E agora foi o alvo dos sapatos. Um jornalista iraquiano chamou-lhe "cão" e tentou atingi-lo. Bush desviou-se, mas o duplo insulto fica. Na cultura árabe, o cão é impuro e tocar em alguém com as solas a pior ofensa.

Eleito numas polémicas eleições, Bush reagiu aos atentados do 11 de Setembro de 2001 de uma forma que lhe valeu o apoio dos americanos. Confiante no inesperado prestígio, avançou para o Iraque, onde obteve vitória fácil e por acréscimo a vaga patriótica que lhe valeu a reeleição em 2004. Depois seguiu-se a realidade. O caos no Iraque manteve-se, as baixas americanas ultrapassaram os quatro mil, a Al-Qaeda instalou-se na antiga Mesopotâmia. Ao mesmo tempo, mergulhado no atoleiro iraquiano, Bush facilitou no Afeganistão.

A crise financeira e a recessão deram o golpe de misericórdia na Administração Bush, mas o Iraque foi a sua grande desgraça. Salvou--se agora do sapato, mas não do descrédito.

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