O homem que ultrapassou os limites

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Será a primeira Páscoa sem Arnaud Beltrame, o tenente-coronel francês que se ofereceu para trocar com um refém num supermercado, alvo de um jihadista. O oficial da polícia entrou na história, mas por um preço muito alto. Alto demais... Já a tomada de decisão, valente e invulgar, fez dele um herói: poderia sair da operação policial como um herói, iniciador de uma fuga espetacular, ou como um herói martirizado... Permanecerá um herói, que decidiu atravessar uma fronteira fina entre a vida e a morte. Voluntariamente. Poucos podiam agir com um tal heroísmo, que nos faz lembrar apenas alguns casos da história contemporânea. Agora vamos esperar alguns dias, talvez até semanas, para saber todos os pormenores desta atuação corajosa, procurando respostas para a questão sobre se realmente era necessário arriscar a vida deste homem de 45 anos. Será que podia ter sido evitada a tragédia do Sul da França? Até agora uma coisa é certa - Arnaud recuperou para muitos a fé no ser humano.

Será também a primeira Páscoa sem Kazimierz Piechowski, apelido Kazik. Um escuteiro do Norte da Polónia, que tinha uma outra identificação no braço: "918". O número que recebeu em junho de 1940 em Auschwitz, para onde nos primeiros meses foram apenas presos polacos, especialmente membros do movimento de resistência antinazi e intelectuais. Piechowski, que morreu em dezembro passado, foi desconhecido durante muitos anos, mesmo no seu país natal, onde, após a guerra, trabalhou como engenheiro nos estaleiros de Gdansk, que foram o berço do Solidariedade, o primeiro sindicato do Bloco de Leste, que ajudou a acelerar mudanças democráticas na Polónia na década de 80. Com o passar do tempo, os pormenores da sua vida durante a II Guerra Mundial e logo depois (preso sete anos pelos comunistas) começaram a sair à luz de dia. Contribuíram para isto filmes como Duas Coroas, apresentado na última edição do Festival de Cannes, bem como o documentário da BBC sobre uma das fugas mais loucas de Auschwitz.

Na primavera de 1942, Kazik, com os seus três companheiros de cativeiro, preparou um plano de fuga do campo. Finalizaram-na em 20 de junho roubando um armazém de uniformes e armas de soldados alemães, bem como um carro de funcionários das SS. O fluente alemão de Piechowski, disfarçado de oficial nazi, permitiu passar o posto de controlo. Kazik desempenhou o seu papel tão bem que nenhum dos guardas pediu documentos. Nem os tinham.

Junto com uma série de experiências traumáticas, Piechowski levou de Auschwitz uma história inacreditável que ocorreu no seu bloco. Assistiu a ela pessoalmente a 29 de julho de 1941. Naquele dia fugiu um dos companheiros de Kazik e como era costume nestes casos a pena ia ser severa, rigorosa e coletiva. E foi assim. Por um fugitivo dez outros tiveram de morrer de fome numa cela subterrânea. Entre os selecionados estava Franciszek Gajowniczek, um ex-soldado de subúrbios de Varsóvia, que na hora da escolha lamentou em voz alta por seus filhos. Mas a sua vida foi salva pelo frade franciscano Maximiliano Kolbe, que, saindo da fila, iniciou um diálogo com o vice-chefe de Auschwitz, subcomandante Karl Fritzsch. O sádico alemão não tinha o hábito de negociar com os prisioneiros. Respondia com um tiro na cabeça. Mas desta vez fez a cedência. A situação foi invulgar, pois um homem quis morrer por outro. Fritzsch aceitou. Anos depois, Gajowniczek vai admitir que nos seus curtos minutos de limiar entre a vida e a morte não agradeceu ao seu inesperado salvador. "Nós olhámos um para o outro por um momento breve. Depois ele foi para o bunker", disse numa das suas últimas entrevistas. Kolbe, um doente de 47 anos, com um pulmão, sobreviveu sem pão e água durante duas semanas e meia. Ainda estava vivo quando "o médico" nazi lhe deu uma injeção letal de ácido carbólico.

Embora a morte heroica de Kolbe seja relativamente conhecida, a sua vida, essa, por mais impressionante que seja, permanece um mistério para muitas pessoas. Filho de operários da indústria têxtil de Zdunska Wola, já com 24 anos tinha dois títulos de doutor (Filosofia e Teologia), recebidos nas prestigiadas universidades de Roma. Sem dinheiro e praticamente sem nenhum apoio das autoridades de sua ordem, excedeu os limites da possibilidade. Precisaria apenas de uma dezena de anos para fundar um jornal mensal (cuja tiragem ultrapassava mais de um milhão de exemplares), desenvolver a segunda emissora católica no mundo, depois da Rádio Vaticano, e, finalmente, o maior mosteiro do mundo - Niepokalanów. Construído nos arredores de Varsóvia, apenas com as esmolas dos crentes, tinha antes da guerra quase 800 monges. A sua pequena cidade era autossuficiente, com editora própria, padaria e central elétrica (a sua réplica foi fundada por Kolbe no Japão na década de 1930). Em 1941, Kolbe foi preso e chegou a uma outra cidade, mas esta tão autossuficiente quanto assassina - Auschwitz. Uma das acusações de que tinha sido alvo era de esconder fugitivos políticos e judeus em Niepokalanów, entre eles o que viria a ser o famoso caçador dos nazis Simon Wiesenthal.

Embora o corpo de Kolbe tenha sido queimado num forno de crematório de Auschwitz, o seu túmulo no cemitério do convento em Niepokalanów não ficou vazio. Em 1995, quase 54 anos depois de oferecer a vida em troca de outra vida, foi sepultado no lugar fundado pelo frade o homem que foi salvo por ele. As testemunhas que sobreviveram ao campo da morte confessaram que o momento da troca foi para elas uma experiência tão forte que restaurou a "fé em outro ser humano", tirando das suas mentes "a convicção de serem apenas números".

Jornalista e investigador polaco

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