Falecido em 2014, o general Wojciech Jaruzelski deixará brevemente de ser general. A desgraduação do general post mortem será possível com a aprovação na terça--feira pela câmara baixa do Parlamento polaco (e não apenas com os votos do partido conservador no poder Lei e Justiça) do diploma que rebaixa soldados que "entre 1943 e 1990 comprometeram a razão de Estado polaco". .A remoção da lista dos generais do político que usava uns óculos escuros muito característicos, parece uma tarefa complicada, embora seja formalmente possível. De facto, Jaruzelski afirmou-se na história como um general, e apagá-lo da consciência dos polacos e da opinião pública internacional como chefe da junta militar no poder durante a lei marcial, estabelecida na Polónia entre 1981 e 1983, será tão difícil como as tentativas de branquear o seu passado. Mas há quem tente fintar a história. .Há quase quatro anos Bronislaw Komorowski, na altura presidente da Polónia, organizou a Jaruzelski uma cerimónia fúnebre digna de um grande chefe de Estado. Houve protocolo de honra, salva de tiros e discursos sobre o seu papel fundamental para a democratização do país, bem como um lugar num local nobre do cemitério. Paradoxalmente foi sepultado perto das vítimas do Estado comunista, para o qual o próprio Jaruzelski foi um dirigente muito leal. O regime, dominante no país após a II Guerra Mundial, matou dezenas de milhares de pessoas..Nos arquivos deixados pelo regime comunista, ainda não totalmente abertos, é difícil procurar informações sobre os motivos da atuação de Jaruzelski, nascido numa família aristocrata e das suas antagónicas escolhas durante vida. O jovem que no tempo da guerra se tornou comunista e em nome da "luta de classes" combateu aristocratas, capitalistas e tudo o que "ameaçava" a República Popular da Polónia não deixa de ser um homem-mistério. Os motivos que levaram Jaruzelski na brusca mudança de atitude para democratizar a Polónia também ainda não são totalmente claros. Provêm de uma combinação de vários fatores, incluindo o crescente número de protestos sociais na década de 1980, a degradação da economia e as tendências liberais cada vez mais fortes no seio do próprio Partido Comunista Polaco. Também a União Soviética, dirigida na altura por Mikhail Gorbachev, já se interessava menos pelos seus satélites, criando condições favoráveis para o avanço das eleições na Polónia em 1989, as primeiras eleições semilivres no Bloco de Leste. O primeiro governo polaco democrático de Tadeusz Mazowiecki adotou o princípio da "linha grossa" que se baseava em evitar a penalização de dirigentes e funcionários do regime. A decisão surpreendeu muitos. As novas regras abrangeram Jaruzelski, que em 1990 se retirou da política. Desde então aparecia raramente nos meios de comunicação social e na imprensa estrangeira a sua imagem tornava-se mais humana, apresentada com a face do homem que evitou uma revolução sangrenta. Foi praticamente esquecido o seu envolvimento direto no massacre de operários mortos pelas forças policiais e militares, que protestavam contra os aumentos de preços de comida em dezembro de 1970. Mais conhecida é a sua decisão de proclamar a lei marcial 11 anos mais tarde (o número total de vítimas mortais nestes dois acontecimentos é superior a 80). O sistema judicial polaco nunca condenou o general pelos crimes do regime, embora tenham havido vários processos contra ele que duraram anos. As famílias das vítimas do regime acusaram o sistema judicial, que ainda tendo nas suas fileiras os juízes que no período comunista enviavam os opositores para as prisões, de proteger o seu ex-líder..Na Polónia, ao contrário do que aconteceu na República Checa, a descomunização praticamente não foi posta em marcha nem houve lugar à penalização dos membros do regime que se impôs à força. Apesar das diferenças na abordagem do passado em ambos os países, assemelha-se na aversão das populações em relação ao sistema comunista e aos seus antigos funcionários. No Parlamento polaco os pós-comunistas não têm um único representante e na República Checa a sociedade rejeita cargos públicos para membros do aparato policial da ditadura. Prova disso é a demissão do deputado Zdenek Ondracek, que após a onda de protestos em 11 cidades checas, renunciou na terça-feira passada à sua função de presidente da comissão parlamentar responsável pelas inspeções policiais. Antes da queda da Cortina de Ferro como jovem polícia fiel ao regime batia nos manifestantes anticomunistas..A questão de descomunização na Europa Central parece ser ainda pouco percebida na Europa Ocidental, livre de regimes comunistas, onde os partidos comunistas nalguns casos gozam de uma popularidade significativa. Mas também no lado ocidental da Europa, na história recente houve casos de remoção de colaboradores de funções públicas. Em França a penalização de funcionários-ajudantes dos nazis decorreu num processo bastante demorado. Ainda no início da década de 1960, o primeiro-ministro Michel Debré, autor da atual Constituição francesa, afastava do sistema judicial os juízes que serviram ao Estado de Vichy, fundado e controlado pela Alemanha hitleriana..No caso da Polónia e da Checoslováquia a ocupante foi a União Soviética, e em Moscovo tomavam-se as principais decisões sobre ambos os países. As tentativas de estabelecer a sua própria versão do "comunismo com um rosto humano" terminaram exatamente há 50 anos em Praga. Os esforços das autoridades checoslovacas para democratizar o seu país, apoiados pela sociedade, foram esmagados pelas tropas do Pacto de Varsóvia. Quem desempenhou um papel muito importante na pacificação da revolta democrática, brutalmente esmagada pelas cinco forças unidas dos regimes comunistas, foi o próprio general Jaruzelski..Marcin Zatyka é jornalista e investigador polaco