Chega hoje ao fim a carreira política de Cavaco Silva. Foram quase 40 anos, 36 para ser preciso, desde que em 1980 assumiu como ministro a pasta das Finanças e do Plano no governo de Francisco Sá Carneiro. Por isso, e porque sei que a memória é sempre curta, o juízo a fazer sobre Cavaco Silva não pode, honestamente, reduzir-se aos últimos dez anos que passou em Belém. Importa reconhecer que Cavaco foi melhor primeiro-ministro do que Presidente da República, apesar da constante imagem de homem providencial que tem de si mesmo. A primeira década de cavaquismo chegou ao fim com o desgaste próprio de dez anos de governação, oito dos quais em maioria absoluta. Nesse lapso de tempo o país mudou radicalmente. Aderimos, com Cavaco ao leme, à então CEE e, com a ajuda dos fundos europeus, Portugal modernizou-se e, apesar de vários exageros - quem nunca pecou que atire a primeira pedra -, entrou na idade do betão e diminuíram-se distâncias entre o Norte e o Sul, o Litoral e o Interior. Desse tempo sobram também memórias de um Estado gordo e clientelar - vem do cavaquismo o retrato do Estado laranja que haveria de servir de mote ao slogan de António Guterres em 1995 "no jobs for the boys" - e, de certo modo, autoritário - quem se esquece das cargas policiais sobre estudantes em manifestações contra as propinas, dos secos e molhados de polícias contra polícias ou da investida violenta na revolta da Ponte 25 de Abril. Mas, tudo somado, o saldo é francamente positivo. Seguiram-se dez anos de pousio, depois de derrotado por Jorge Sampaio numa primeira tentativa para chegar ao Palácio de Belém em 1996, em que preparou meticulosamente o regresso à política. Escreveu memórias hagiográficas e artigos de jornal em que descrevia o monstro orçamental socialista de António Guterres e ajudou a expulsar a má moeda - assim se referiu implicitamente ao então primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, num texto publicado no Expresso em novembro de 2004 - sempre com o mesmo propósito que haveria de o iluminar até hoje, o de, mais adiante, poder dizer "eu bem avisei". Em 2006, depois de abjurar a sua condição de político profissional - logo ele que é o ator com mais anos no exercício do poder -, chegou finalmente a Belém. Dez anos depois, parte sem deixar saudades. Não por acaso é o Presidente da República reeleito com o menor número de votos da nossa democracia e aquele que sai de funções com os mais baixos índices de popularidade. Reconhecido pela habilidade a gerir silêncios, foi no uso da palavra - poder maior de um presidente - que se descapitalizou e mais se expôs. Foi assim quando sobressaltou o país em pleno verão de 2009 para falar do estatuto político-administrativo dos Açores ou da inventona das escutas em Belém que havia de se lhe seguir. Voltou a sê-lo no discurso de vitória em 2011 quando, ressentido, quis humilhar os adversários numa manifestação inusitada de mau ganhar. E reincidiu inúmeras vezes ao longo do tempo: as pensões que mal davam para pagar as despesas, os discursos de fação que o atiraram para os braços do anterior governo associando-se a sucessivos incumprimentos da Constituição, ou o sectarismo serôdio de quem não ultrapassou o PREC com que procurou condenar ao degredo eleitoral o PCP e o Bloco de Esquerda no pós 4 de outubro de 2015, só para dar alguns exemplos. Sim, Cavaco também evitou uma crise política em 2013, bem a meio do programa de ajustamento, que teria sido trágica para o país inteiro. E, honra lhe seja, devemos-lhe essa. Mas aceitou sem pestanejar a tese da inevitabilidade e assistiu impávido aos sacrifícios impostos, depois de no passado ter dito que havia limites para o que se podia exigir ao português comum. Cavaco reforma-se e com isso acaba o cavaquismo. Felizmente, temos Marcelo. É que depois destes dez anos bem precisamos de um político a sério no Palácio de Belém.