O bolsonarismo perdeu no dia 24 de janeiro aquilo que nunca teve: o cérebro. Olavo de Carvalho, autointitulado parteiro da nova extrema-direita brasileira e considerado guru do presidente da República, morreu aos 74 anos, uma semana depois de contrair covid-19, deixando um legado de cretinices..Visto como um colunista interessante e polemista inovador até ao fim do século passado, decidiu mudar-se para os Estados Unidos em 2003 e tornar-se membro destacado da tal legião de imbecis a que as redes sociais dão voz..Primeiro passo: intitular-se filósofo, embora não tivesse formação na área. Segundo passo: rentabilizar a nova profissão dando cursos. Terceiro passo: seduzir para esses cursos universitários ressentidos por não serem nem brilhantes nem populares..Como em qualquer seita, esses universitários ressentidos encontraram no olavismo, em vez do desdém dos colegas e dos professores oficiais, um sentimento de pertença que os levou a seguir devotamente os ensinamentos do mestre..Com o inveterado consumidor de cigarros e utilizador de palavrões de Richmond aprenderam que a esquerda, como determinou Gramsci, domina a cultura, a academia e a imprensa (o chamado marxismo cultural) com o objetivo de dissolver quem poderia resistir ao projeto, as famílias judaico-cristãs, e promover zoofilia, canibalismo e pedofilia..Via Olavo descobriram também que 200 grupos económicos controlam o mundo, uma ideia desenvolvida no século XIX por intelectuais contratados pela família Rockefeller que consiste na eliminação de automóveis com motoristas e de dinheiro em papel para gerir, de uma fonte central, os itinerários e as transações financeiras de toda a gente..Como bónus, ficaram a saber que a Pepsi usa células de fetos abortados como adoçante e que foi o filósofo Theodor Adorno e não Lennon e McCartney quem escreveu a maioria das letras dos The Beatles..Olavo, que foi astrólogo profissional, muçulmano e comunista ao longo da sua confusa existência, chamou ainda Isaac Newton de maior burro da história e lançou dúvidas sobre o formato da Terra e a letalidade da covid 19. "O medo de um suposto vírus mortífero não passa de historinha de terror para acovardar a população e fazê-la aceitar a escravidão", escreveu em maio de 2020 sobre aquela que viria a ser a causa da sua morte 20 meses depois..Olavo não teria, no entanto, passado de uma anedota de mau gosto se em 2018 os seus compatriotas não tivessem decidido embarcar no macabro reality show que elegeu o mais despreparado dos brasileiros para a presidência..E Bolsonaro, antes de cair na real e vender o governo ao centrão, o grupo de cerca de 200 deputados que sugam todos os presidentes até às entranhas a que jurou em campanha resistir, ofereceu uns quantos ministérios a discípulos do guru. Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, ganharam o prémio de piores ministros do mundo de revistas especializadas; Abraham Weintraub, titular da Educação, escrevia em média dois erros ortográficos por tweet; Roberto Alvim, secretário de Estado da Cultura, imitou na forma e no conteúdo comunicação do nazi Goebbels aos alemães..Em resumo, paz à alma de Olavo, um imbecil, segundo os filósofos, e um filósofo, segundo os imbecis..Jornalista, correspondente em São Paulo