Sobriedade, eis algo que não associamos propriamente a Guy Ritchie, cineasta inglês que na última fase especializou-se numa mistura de thrillers com imagem de marca e a reconversão do conceito de blockbuster americano. Quer numa quer na outra faceta, sobriedade não é mesmo uma das suas tónicas, antes pelo contrário: tudo muito ruidoso e sublinhado, em especial em empreitadas como a versão em imagem real de Alladin e o desengonçado Rei Artur, geringonça pesadona que tentava dar vida nova à lenda de Camelot. Curiosamente, nos últimos filmes sem a estampa de encomenda parece que levou a um ponto de depuração a sua própria estilização: como se um "filme à Guy Ritchie" pudesse ser discurso artístico a partir dessa própria convenção. Vai daí que The Gentlemen - Senhores do Crime, de 2019, acabasse por ser um dos seus melhores divertimentos e que o recente Operação Fortune: Missão Mortífera estivesse repleto de códigos de autoparódia francamente aceitáveis. Porém, este novo "filme de guerra" é outra coisa, um objeto de género que quer acercar-se de um discurso político sobre os traumas da presença militar norte-americana no Afeganistão. Baptizado com o nome do realizador, Guy Ritchie's The Covenant é mais complexo do que se pode pensar. Para além das convenções daquilo que se entende como "filme de guerra", é também uma sóbria reflexão sobre o absurdo de uma situação geopolítica que marcou duas gerações de militares americanos e transformou a identidade do Afeganistão..E neste Guy Ritchie "sério" está uma ideia de "bromance" entre um oficial americano e o seu intérprete afegão. Depois de uma missão militar arriscada, John Kinley (Jake Gyllenhaal) vê-se sozinho com o seu intérprete em território hostil. Para piorar as coisas, os talibãs atingem-no e Ahmed ( Dar Salim), o intérprete que frisa não ser um tradutor, é a sua única esperança para o transportar entre as montanhas e levá-lo até à base. Uma façanha que se torna num marco "impossível", não só pela dificuldade de transporte, mas sobretudo pelo elevado número de inimigos..Enxuto e sem muitas distrações, Guy Ritchie's The Covenant segue à risca as regras clássicas do "filme de guerra", cruzando-as com o subgénero do resgate de soldados, conseguindo sublinhar uma ideia de inferno de uma guerra com regras mercantilistas. A título meramente formal, não deixa de ser notável a forma como se vê um cineasta a ter prazer em construir momentos de puro suspense. Uma espécie de tecnicista habilidoso a experimentar os modos mais puros de criação de tensão em ambiente de guerra, algo que nestes dias é quase uma raridade e um gesto de resistência. E é precisamente nessa contenção que está a surpresa de um filme em que poucos acreditavam. Uma teimosia de um cineasta que quis fazer uma obra contra a corrente sobre uma guerra que a América quer esquecer. Ou a herança do filme liberal sobre a guerra do Vietname a gerar um filho bastardo....Importa ainda referir que a tal sobriedade também é alavancada pelo registo minimal de Jake Gyllenhaal, ator que quando quer é exemplar....dnot@dn.pt