"O facto de nos copiarem estimula a nossa vontade de fazer melhor"

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Leia a primeira parte desta entrevista aqui:

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Em 1998 nasce na Nelo o barco Moskito. Esse é considerado um ponto de viragem na modalidade.

Sim. Pensei nisso durante muito tempo, quase de forma obsessiva, e encontrei a solução que passava por levar a zona mais larga do barco, que as regras impunham nunca ser inferior a 50 centímetros, da parte traseira para junto do atleta, sem afetar o seu movimento com a pagaia. Esse barco foi uma pedrada no charco, que nos deu visibilidade e acabou por ser copiado pelos outros construtores.

Não patenteou essa ideia?
Na altura não achávamos que fosse possível. Pensávamos que haveria sempre alguém que conseguiria dar a volta. A questão das patentes foi sempre discutida desta forma: não vale a pena patentear porque não queremos obrigar ninguém a não fazer aquilo que nós fazemos. Queremos dar oportunidade aos outros de copiarem, se quiserem, e nós queremos é, ao mesmo tempo, fazer sempre algo melhor. Obrigarmo-nos a isso. Ainda assim, no nosso último projeto patenteámos o modelo para, definitivamente, ter a certeza se era possível fazê-lo ou não. Conseguimos. Agora já podemos dizer que é possível, mas mesmo assim não reprovamos tanto a ideia de que nos copiem porque isso acaba por estimular a nossa vontade de fazer melhor. Se queremos estar no mercado, temos de estar sempre preparados para fazer algo novo e melhor. Por exemplo, fomos os primeiros a fazer conjuntos de barcos para todos os atletas (K1, K2, K4), assim como modelos que serviam competidores dos cinquenta ao cento e tal quilos.

Como é que vai tendo conta da visão e ideias que os atletas têm para a modalidade e para os barcos?
Nós não somos líderes mundiais por acaso. Temos uma grande proximidade com os atletas e também por isso somos uma empresa tão forte. Quando criámos o centro de treinos em Portugal [em Cinfães] a ideia era trazer para cá os atletas, desenvolver os barcos com eles e, muito importante, desenvolver esses barcos para eles. Esse primeiro centro era tão bom que acabou por ser utilizado para os treinos de inverno. O nosso grande trunfo é trabalhar durante todo o ano com os melhores atletas do mundo. Temos ferramentas que permitem avaliar os desempenhos e guardamos longos registos, de há vários anos, dos atletas. É isso que nos permite fazer um bom produto: saber exatamente o que eles precisam.
A construção do barco é assim apenas uma parte do trabalho que desenvolvem.
Os nossos projetos para alta competição passam exatamente por isso. Sempre que lançamos um projeto para um ciclo olímpico, começamos por fazer a avaliação do modelo anterior, ver o que podemos fazer melhor, sempre através do feedback dos atletas. Depois esse novo projeto é desenvolvido em base digital, desenhado e construído. Segue-se a fase de testes a esse modelo e é então que acontece o trabalho mais difícil.

Que é qual?
O barco é testado por todos os atletas que consideramos importantes trazer a Portugal. O modelo é avaliado e, depois, alterado. O modelo que levámos em 2016 aos Jogos do Rio levou três anos a ser desenvolvido. Portanto, a partir de uma base é feito muito trabalho e esse trabalho é executado pelos atletas. Eles não são máquinas. Têm comportamentos e técnicas diferenciadas, altura e peso distintos, culturas desportivas distintas, as distâncias em que competem também são diferentes... E a nós não nos compete fazer correções ao atleta, mas sim encontrar o melhor barco para as suas características. Portanto, é realizado um trabalho exaustivo até estarmos perto daquilo que é o barco ideal.
Sendo um trabalho tão amplo, a sua equipa também tem de ser multidisciplinar.
Sim. A única coisa que não temos é treinadores, porque nos ficava mal ter. De qualquer forma, existem na empresa pessoas que podem perfeitamente preparar uma equipa e ganhar medalhas. Não tenho dúvidas. E temos pessoas habilitadas a fazer esse trabalho porque não somos apenas uma fábrica de fazer canoas. Temos um conhecimento total sobre tudo o que é a canoagem, desde a organização de provas à preparação dos atletas, a fornecer a estes o barco mais indicado. Somos uma espécie de ilha dentro do próprio desporto. Fazemos tudo dentro da empresa, porque temos gente preparada e habilitada para tal. Sem isso não seríamos líderes.

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