O eterno Erdogan?

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Percebe-se agora as hesitações de Orhan Pamuk, Nobel da Literatura e insuspeito de simpatia por Recep Erdogan, em fazer previsões sobre os resultados das eleições turcas, em especial as presidenciais. Depois de durante meses as sondagens atribuírem constantemente o favoritismo a Kemal Kilicdaroglu, do velho partido ataturkista CHP, os resultados saídos da ida às urnas no domingo deram a vitória ao presidente Erdogan, ainda que sem atingir os necessários 50% para a reeleição, o que significa uma segunda volta no dia 28 e o conhecimento do vencedor definitivo dia 29, cinco meses exatos antes de se celebrar o centenário da moderna República da Turquia, nascida das cinzas do Império Otomano.

No poder desde há duas décadas, como primeiro-ministro e depois presidente com poderes executivos, Erdogan mostra assim uma capacidade de sobrevivência política enorme, resistindo não só a um rival apoiado por seis partidos, como mantendo a sua base eleitoral apesar da forte inflação e da destruição causada em várias cidades pelos sismos de fevereiro no sul do país. Aliás, o seu AKP, um partido islamo-conservador, conseguiu também ser domingo o mais votado para o parlamento, mantendo a maioria absoluta juntamente com o seu aliado nacionalista MHP.

A grande conclusão a tirar dos resultados eleitorais é a confirmação da divisão que existe entre uma Turquia profunda, grosso modo a península da Anatólia, e uma Turquia ocidental, constituída pela Grande Istambul e pela região do Egeu, reforçada no caso da candidatura de Kilicdaroglu pelo leste curdo. Uma divisão que é também muito entre uma Turquia mais religiosa e uma Turquia mais laica, como ficou evidente mesmo no final simbólico da campanha, quando Erdogan participou numa oração na Hagia Sophia, reconvertida por ele em mesquita, enquanto Kilicdaroglu foi prestar homenagem a Mustafa Kemal Ataturk no seu mausoléu em Ancara.

Para dia 28, a vantagem parece ser agora Leonídio Paulo Ferreiraclaramente de Erdogan. E não apenas pelos 49% contra 45% do adversário, números quase finais. A favor dele joga o facto de o AKP ter maioria no parlamento, e assim o eleitorado poder ver como mais natural o AKP também controlar a presidência; também importante é o terceiro candidato mais votado ser um ultranacionalista que apesar de não abrir ainda o jogo sobre a eventual recomendação de voto tem eleitores mais propícios a votar Erdogan do que num Kilicdaroglu que conta com o apoio de um partido curdo; igualmente se pode prever uma diminuição da mobilização dos apoiantes de Kilicdaroglu, por o seu candidato ter ficado em segundo apesar das expectativas de mudança alimentadas pelas sondagens, que adivinhavam o fim de uma era de governação AKP que começou por ser aplaudida pelos resultados económicos e pelo reforço da democracia (militares fora da política), mas que tem-se tornado autoritária e incapaz de lidar com uma inflação que empobrece a classe média turca.

A esperança de Kilicdaroglu de inverter os resultados dia 28 só poderá vir da manutenção do entusiasmo dos seus eleitores e da mobilização de franjas de descontentes que se abstiveram, mesmo se a participação foi recorde. O sistema já mostrou que previsões falham. E Pamuk disse até que só tolos vão ao ponto de ter certezas.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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