É muito provavelmente o primeiro dos relatórios trimestrais do FMI que não recupera a lengalenga habitual, ou que pelo menos arruma parte da velha narrativa no frigorífico. Os "técnicos" do fundo passaram nove dias em Portugal e saíram com um olhar diferente, para melhor, sobre o país..O problema é que este novo discurso anima tanto quanto o anterior desanimava. Afinal, nem o país não mudou assim tanto nem os homens de fato preto do FMI passaram a fazer análises e previsões certeiras assim de repente. Sabemos tudo isso e não precisamos de relatórios do FMI para nos esclarecer sobre o estado anímico da economia. O Ministério das Finanças fala em "desenvolvimentos" e em "progressos alcançados em áreas-chave na economia nacional", mas em boa verdade sabemos que sinais de retoma em áreas como a compra de automóveis ou eletrodomésticos (algum dia tinha de acontecer porque são equipamentos dados a desgaste), ou no turismo, arriscam-se a ter pouco ou nada de estrutural..O drama é que a resposta, a saída para este estado de coisas, não está nas nossas mãos. Nesta história, o diabo esconde-se à vista de todos e vem de fora. Mario Draghi, o homem que vai segurando com arames a zona euro, anunciou ontem o prolongamento do programa de compra de dívida pública e privada - mais 540 mil milhões, ao ritmo de 60 mil milhões por mês até dezembro de 2017. Já começa a soar a desespero..Ora, vamos lá fazer contas... Até ao final de novembro, o BCE gastou 1 476 790 milhões de euros - assim mesmo, com todos os sete dígitos - no programa de compra de dívida pública e privada (quantitative easing) e conseguiu que a inflação na zona euro subisse de 0,1% em dezembro de 2015 para, atenção, muita atenção agora..., 0,2%! Sim, 0,2% é a previsão do BCE para a inflação na zona euro em 2016. E nem vale a pena falar em previsões para a taxa de crescimento..Imaginando que chegamos a dezembro de 2017 com um valor pouco mais alto do que este, o que resta ao BCE? Sem uma mudança de rumo na Alemanha, com aposta no investimento público, em aumentos salariais e incentivos ao consumo pouco vai mudar. E, com eleições marcadas para o próximo ano, temos a garantia de que nada mudará em Berlim.