O desejo vem do passado

Com o carimbo da Quinzaine de Cannes, <em>Os Cinco Diabos</em>, de Léa Mysius, filme de segredos sexuais e de bruxarias nos Alpes franceses. Adèle Exarchopoulos a nadar nas águas geladas numa história de redenção e desejo feminino.
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Uma fábula na montanha. Mete feitiçaria, karaoke, movimentos de infância e amores do passado. Trata-se da segunda longa-metragem da francesa Léa Mysius, mais conhecida por ser argumentista de Arnaud Desplechin, Jacques Audiard, Andre Téchiné e Claire Denis. Um filme rodado com mão firme feminina ambientado nos Alpes, onde uma instrutora de natação descobre um estranho dom olfativo da sua filha. A pequena Vicky, de oito anos, dedica-se a preparar perfumes com odores das pessoas da sua família.

Tudo parece mudar quando a tia com problemas de alcoolismo muda-se para sua casa. A dada altura, Vicky descobre um poder sobrenatural: consegue viajar até ao passado e revisitar o passado da sua mãe. Visitas mágicas que revelam pistas para um acontecimento traumático. Aos poucos, esta criança vítima de bullying apercebe-se do seu poder e do seu lugar no mundo...

Entre o drama de família e a desconstrução do conto de terror, a "makumba" desta história é gerida pela realizadora com um olhar hiperestilizado: cores fortes, movimentos de câmara amaneirados e muitos planos com grua. Tudo é intencional, bem entendido, mas essa declaração de princípios estéticos nem sempre nos faz focar no essencial: uma história de amor sobre remorsos polvilhada de um olhar sobre a infância. Uma ingerência nesse assumir de "filme de género".

O efeito digestivo com comentário sobre "novas famílias" e preconceito "queer" também não ajuda, o que é pena: este conto fantástico, a espaços, tem momentos que baralham e perturbam, em especial a explosão de sensualidade do corpo de Adèle Exarchopoulos, atriz sempre brilhante, talvez a merecer papéis em filmes de maior nomeada - de alguma forma, Les Cinq Diables, com todos os seus twists e reviravoltas falhadas, não deixa de estar na segunda divisão do cinema francês, mesmo tendo em conta a presença na Quinzena des Cineastes de Cannes 2022 (onde, em boa verdade, passou algo ao lado).

Curiosamente, não é Adéle quem comanda o filme, mas sim a jovem que compõe Vicky, Sally Dramé, corpo e atitude perfeita para dar alguma poesia negra a uma personagem que recusa todas as convenções da criança "peculiar". Numa altura em que o cinema de autor europeu (e não só...) parece fascinado pelas criancinhas "engraçadas", esse é um alívio a ter em conta. Sally parece ter uma força de olhar única, uma presença verdadeiramente desafiadora.

O balanço de Les Cinq Diables não pode ser totalmente negativo, em especial porque há uma dimensão humana na forma como se monta uma tese de que o passado é um local de possível redenção. Ou o fantástico a mostrar como o passado de cada um é uma marca que carrega o futuro...

As viagens da menina "diabólica" à juventude da mãe é uma ponte com a verdade íntima que não se partilha. Escusado, mesmo escusado, essa vontade de escarrapachar a questão da diversidade étnica: como se origem senegalesa das personagens fosse um item para preencher. Eis o caso de um filme que começa muito bem mas que não cumpre o seu potencial...

dnot@dn.pt

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