O alargamento do TVI Direct, hoje baseado em Casa dos Segredos 5, à NOS e à Vodafone veio consagrar o canal como o segundo mais visto do cabo, atrás apenas do Hollywood. No momento em que escrevo, estão dois rapazes a fingir que lavam a loiça, enquanto uma rapariga loira anda à procura de água para atestar um garrafão e se passeia vestida apenas com um top e as cuecas de um biquíni amarelo, enlouquecendo--os. Vai encher uma banheira para tomar banho, enquanto, ao fundo, uma série de outros rapazes e raparigas se esparramam às camadas em duas ou três camas. O canal promete mostrar tudo e milhares de pessoas acompanhá-lo-ão em direto. .Ao todo, quase 1,5 milhões de portugueses - cerca de 15 % da população, note-se - seguem regularmente o programa, em particular as (mal) chamadas "galas", transmitidas pela TVI. O número parece preocupante, mas, como nos demonstrava a edição de ontem deste mesmo jornal, a sua decomposição é mais preocupante ainda. Para cima de 200 mil desses cidadãos são das ditas classes A (alta) e B (média--alta), das quais era de esperar outro tipo de preocupação com o bom gosto e o enriquecimento intelectual. E o número de jovens entre os 15 e os 24 anos a agonizar em frente a tal coisa continua a crescer. .Muitos dizem que nem sequer costumam ver televisão: simplesmente não resistem a um reality show. Aquilo de que Casa dos Segredos lhes serve, pois, não é como substituto para séries de qualidade, telejornais ou outra coisa qualquer. É para a vida. O triunfo dos reality shows não resulta de um defeito da televisão, mas de um defeito da família e da sociedade. É isso que o torna, não difícil, mas virtualmente impossível de debelar.