O bilionário sem abrigo

Dono de uma fortuna de 1,6 mil milhões de dólares, o americano Nicolas Berggruen não tem casa. Nem precisa: corre o mundo a fazer negócios no seu avião privado. Muitas vezes desembarca em Portugal, onde é sócio e amigo de Pais do Amaral. Agora volta a ter a TVI no horizonte, graças à sua participação no fundo que vai comprar quarenta por cento da Prisa.<br />
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NICOLAS BERGGRUEN é americano, judeu, milionário, tem 48 anos, mas não tem casa, nem carro. Há dois anos, este maverick de capital de risco, solteiro e sem filhos vendeu todo o seu património, casas, apartamentos e até o próprio carro. Ficou apenas com o avião privado. Assim, sem amarras, percorre o mundo a fazer negócios, hospedado em hotéis de luxo e alugando carros do mesmo calibre. Por isso, para ele, estar em Portugal ou noutro lugar qualquer é igual. E, embora os portugueses não o conheçam, são muitas as vezes que Berggruen cá vem, assim como é grande a sua influência na vida portuguesa: ele é amigo e sócio americano de Miguel Pais do Amaral. Foi com ele, que conheceu quando trabalhava em Nova Iorque, no banco Goldman Sachs, que o gestor português levou a TVI da quase falência ao lucro.
Agora, o canal mais desejado português volta a cruzar-se com o seu destino: Nicolas tem uma forte participação no fundo de risco americano Liberty que irá comprar à família Polanco quarenta por cento da Prisa, um negócio no valor de pelo menos seiscentos milhões de euros. Preciosos milhões para os financeiramente frágeis Polanco. E mais um pozinho na engrenagem dos confusos negócios do braço português da Prisa, a Media Capital, dona da TVI que esteve para ser comprada pela PT, acabou por ser apalavrada pela Ongoing e agora está outra vez envolta em mistério – a oferta pública de aquisição (OPA) da Ongoing tem como prazo o fim do mês e ainda não foi registada a venda da sua participação na SIC, condição dada pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social para a compra.

SE O NEGÓCIO da TVI desse um filme, o amigo americano de Pais do Amaral seria uma das personagens principais: é um daqueles homens fascinantes e ao mesmo tempo arredios pelos quais os argumentistas se pelam. O jornalista Robert Frank, um dos raros que conseguiram uma entrevista a Nicolas Berggruen, contava assim no The Wall Street Journal, em Maio de 2008. «Quando o conheci, fui fulminado de duas maneiras. Primeiro, estava diante de um bilionário de que nunca ouvira falar – o género mais interessante. Segundo, este, além de rico não tinha casa. “Fico em hotéis”, disse-me. Um bilionário sem casa? Isto vale uma história, pensei.»
O artigo que o jornalista publicara meses antes sobre Berggruen no Today’s Journal destacava apenas a faceta do homem de negócios e os seus vastos investimentos, embora conscienciosos e filantrópicos. Depois de ter feito os seus biliões, Berggruen perdera o interesse nas posses e na mundanidade. Nenhum bem material o satisfazia. Aos 46 anos, o rei do capital de risco desfez-se de quase tudo: a penthouse em Nova Iorque, a mansão e a ilha privada na Florida e o seu único carro de longa data. Manteve apenas o guarda-roupa essencial, o avião privado, além das obras dos existencialistas franceses Jean-Paul Sartre e Albert Camus, e os pensamentos do filósofo e místico indiano Krishnamurti.

Os seus investimentos fundamentais passam pelo Camboja (campos de arroz) ou Alemanha (um museu de arte contemporânea do calibre de um Guggenheim). Nicolas fez planos para deixar a sua fortuna à caridade (o testamento está escrito pelo mesmo notário de Bill Gates) e doou a colecção de arte herdada do pai – e ampliada – a um museu de Berlim.

Segundo Robert Frank, autor do best-seller Richistan: A Journey Through the American Wealth Boom and the Lives of the New Rich (Riquistão: Viagem à Riqueza Americana e às Vidas dos Novos Ricos, em tradução livre), este americano não se importava de vir a ser até ao fim dos seus dias «um pobre confortável de três mil milhões de dólares». Na lista dos mais ricos deste ano, a Forbes avalia a fortuna de Berggruen em 2,2 mil milhões de dólares (1,6 mil milhões de euros, ver caixa).

NA MÍTICA ENTREVISTA ao Wall Street Journal, Nicolas deixara clara a sua filosofia de vida. «É evidente que vivemos num mundo material. Mas para mim não é tão importante possuir coisas. Viver rodeado de grandeza em que eu me mostre a mim mesmo e aos demais que sou rico tem um atractivo zero. Tudo o que tenho é temporário, porque só estarei aqui um período muito curto. Riqueza é deixar obra e produzir, não ter coisas. Fazer é o valor real. No final, são as nossas acções que contam e perduram.»

Depois de pressioná-lo sobre os seus desconsolos e desassossegos com a aquisição de «coisas», o jornalista acabou por ouvir um par de frases que se tornaram lendárias. «Primeiro, não preciso delas. Segundo, talvez de uma forma bizarra, não quero depender delas ou ser responsável pelo seu governo. Não tenho grande prazer em dizer que sou o dono.» Berggruen esclarecia que nada tinha contra a estirpe dos bilionários que se entretinham a gozar as suas fortunas comprando mansões, carros vistosos ou tudo o que dinheiro pudesse comprar. E advertia ser difícil para um bilionário, como ele, mostrar-se despojado. Simplesmente, esta era a sua verdade. 

Idêntica conversa ouviu-a da boca do próprio Nicolas Berggruen um homem da finança português quando o conheceu em circunstâncias profissionais. «Logo nas primeiras impressões pareceu-me um homem genial. Culto, discreto, sensível, com grande sentido de humor e genuinamente preocupado com as questões sociais, mais até do que as económicas ou políticas. O senhor Berggruen é uma personalidade marcante e com uma apetência extraordinária para os bons negócios. Tem aquilo a que se chama  faro», conta à NS’.

Nas visitas regulares de Berggruen a Portugal, este gestor, que prefere que não seja divulgada a sua identificação, cimentou a ideia de estar diante de alguém «raro e sem nenhuma espécie de vaidade». Por vezes, há vaidade na bondade. «No caso do senhor Berggruen a discrição é o seu traço mais marcante», diz. «Ele dá talvez um sinal de que a simplicidade voluntária pode tornar-se um paradigma, como é o caso de milionários ainda mais ricos como Warren Buffet, que não troca de casa há trinta anos.»
As singularidades espartanas do americano são conhecidas desde a juventude, passada em Nova Iorque. Algumas, lendárias, como a energia leonina que mantém imparável numa média de trabalho de 12 a 14 horas diárias, e quase sempre em trânsito intercontinental. De resto, Berggruen negoceia do Brasil à Austrália, da Turquia a Portugal, e faz questão de bater o terreno, conhecer a vida das pessoas comuns e ir a todas as reuniões decisivas. Embora tenha uma dezena de escritórios espalhados pelo mundo (Nova Iorque, Londres, Berlim, Istambul, Telavive e Bombaim) é raro visitá-los, preferindo trabalhar nos quartos de hotel e restaurantes.

Quando está em Nova Iorque faz a maior parte do expediente nos jardins do Central Park a partir do seu Blackberry e em passada rápida, o desporto alternativo ao jogging. De resto, o mais certo é trocar a limusina ou o jacto particular por uma jornada num táxi-camião paquistanês, uma corrida de tuc-tuc indiano ou a navegação de chalupa. Isto se for de todo impossível fazer o caminho a pé, como um modesto trotamundos livre dos espartilhos da classe social.

«É um perfeccionista nos negócios. Ocupa a maior parte da sua vida a trabalhar. Diria que é uma espécie de workaolic humanista», aponta o gestor financeiro português. Os êxitos «pouco convencionais» que lhe atribuem devem-se às suas teimosias olímpicas e a investir onde outros investidores não vêem oportunidades. Ocupa o número 437 da lista dos empresários mais ricos do mundo da revista Forbes, mas isso «vale tanto para ele como se fosse o número um», diz o português. «A ambição conhecida do senhor Berggruen é resolver problemas onde os governos a maior parte das vezes não actuam.»

SÃO AS ESTRATÉGIAS pouco heterodoxas  que lhe têm possibilitado levar adiante o seu projecto pessoal. As suas subtilezas passam por chamar à sua estratégia de negócio «valores em investimento» em vez de «valores investidos». Os «valores em investimento» incluem, além dos já referidos arrozais no Camboja, moinhos de vento na Turquia, campos de milho na Austrália, complexos residenciais em Israel, agricultura biológica no estado norte-americano do Oregon ou a construção de novos arranha-céus em todo o mundo. A título de exemplo, no «modesto» projecto imobiliário de Yalikavak e Gümüslük, em Bodrum, na Turquia, colaborou com o americano Richard Meier, um dos gigantes da arquitectura contemporânea, distinguido com o prémio Pritzker.

A fortuna de Nicolas aumentou bastante com a venda da empresa financeira Alpha Investment Management ao Safra Bank, por uma quantia que nunca foi revelada, em 2004, embora a empresa valesse 1,4 mil milhões de dólares (mais de mil milhões de euros). Comprou a FGX, fabricante dos óculos Foster Grant que tem como clientes Woody Allen ou O.J. Simpson.

Embora diga que o dinheiro não é o seu único fito, no último ano o património de Berggruen cresceu 22 por cento e supõe-se que todos os dias fique oitocentos mil euros mais rico. Nas palavras ao Tribune de Martin Franklin, presidente e conselheiro-delegado do gigante de bens de consumo Jarden – e sócio de Berggruen –, Nicolas «é um comprador muito disciplinado. É um daqueles tipos que mesmo só tendo limões fazem limonadas».

O novo museu Berggruen, em Berlim, é uma das suas obras mais recentes e mais emblemáticas: estará lá a sua colecção de arte contemporânea que inclui Andy Warhol, Damien Hirst e Jeff Koons. Na concretização deste projecto, o bilionário nómada terá comentado que agora já tinha como ver os seus quadros expostos, uma vez que até aqui não dispunha de paredes onde colocá-los, estavam guardados em armazéns ou em casa de amigos.

NUMA DAS SUAS raras declarações públicas, Nicolas disse-se apostado em continuar o legado do pai, o judeu alemão Heinz Berggruen, fugido ao nazismo para os EUA, em 1936, e um dos negociantes de arte mais bem sucedidos do século XX. No regresso à Europa depois da Segunda Guerra Mundial, Heinz Berggruen (falecido em 2007, aos 93 anos) privou com Picasso (conheceu-o em 1949, por intermédio do amigo poeta Tristan Tzara), de quem viria a tornar-se íntimo e o principal coleccionador da sua obra. Cinquenta anos depois, em 1996, o patriarca Berggruen regressaria à Alemanha, a Berlim, para doar a sua colecção de arte (avaliada em 750 milhões de euros, e incluindo obras importantes de Picasso, Klee, Giacometti ou Matisse) à Fundação para a Herança Cultural Prussiana, uma iniciativa classificada então pelo The New York Times como «um poderoso gesto de reconciliação».

O herdeiro, Nicolas Berggruen, sempre viveu neste mundo das artes. Nasceu em Paris, a 10 de Agosto de 1961, filho da segunda mulher do pai, a actriz Bettina Moissi, e viveu entre a França e a Suíça. Queria ser escritor mas desistiu, trocando as letras pelos negócios e a alta finança, depois de se formar em Finanças e Comércio Internacional na Universidade de Nova Iorque, em 1981. Os primeiros investimentos – em títulos e nas primeiras formas de fundos de risco (private equities) – fê-los ainda nos anos da faculdade, à custa de dinheiro ganho em part-time.

Não tardou a comprar empresas inteiras e a notabilizar-se pela tenacidade, perspicácia e assertividade. Antes de fundar a Alpha Investment Management e a Berggruen Holdings, trabalhou como consultor imobiliário no negócio da família Bass Brothers Enterprises, e como associado na Jacobson and Co., bem como no grupo de investimentos Bass Brothers Real Estate, uma experiência breve até se lançar por conta própria, aos 25 anos.

Dos três filhos de Heinz, só Nicolas optou pela vida financeira – John Berggruen é proprietário da galeria homónima em São Francisco e Olivier Berggruen é conservador no museu Kunsthalle, em Frankfurt. No entanto, Nicolas também ficou marcado pela arte e pelo humanismo: a maioria dos seus negócios tem uma forte componente social e cultural, e preocupações artísticas e arquitectónicas. Tem assento nos boards do Museum Berggruen, em Berlim, no Los Angeles County Museum of Art, e é ainda membro do International Council da Tate Museum de Londres.

FOI EM NOVA IORQUE, quando a cidade ainda era a sua casa, que Nicolas conheceu Miguel Pais do Amaral, trabalhava este no banco Goldman Sachs.

A ligação empresarial de Nicolas Berggruen a Portugal teve o seu ponto alto em 1997, com a entrada no capital social da TVI do grupo Media Capital, por 6 648 490 euros – que viria a ser vendida à Prisa, em 2006, por 150 milhões de euros. Berggruen e Pais do Amaral aproveitaram o momento particularmente sensível na saúde financeira do canal da Igreja Católica para avançar, negócio que o empresário português veio ao considerar dos três mais importantes da sua vida. Na operação esteve ainda envolvido o Grupo colombiano Bavaria (que até então usava a designação de Santo Domingo), um dos maiores grupos económicos da América Latina e dos primeiros investidores estrangeiros a concorrer à primeira grande privatização portuguesa, a da Central de Cervejas.

Em Abril de 1998, é a vez de a Sonae, de Belmiro de Azevedo, conseguir uma posição na TVI, ao associar-se à Lusomundo e a Stanley Ho. A gestão da televisão é então tomada pelos grupos Sonae, Cisneros e Lusomundo em Junho do mesmo ano. É aliás Belmiro de Azevedo quem coloca José Eduardo Moniz aos comandos da estação. Depois do avanço no aumento de capital da Sonae, a Media Capital exerce o seu direito de preferência e adquire as posições das três empresas, passando a holding de Pais do Amaral a deter mais de noventa por cento do capital da TVI.

A par da compra da TVI, Pais do Amaral realça no seu historial de negócios (sempre com o conselho avisado do amigo americano) a aquisição da produtora NBP e a operação com a Prisa. «A compra da TVI foi o que permitiu à Media Capital transformar-se de um pequeno/médio grupo em um grande líder», declarou na altura ao DN Pais do Amaral, e acrescentou para esta enumeração o turn around (recuperação financeira) conseguido na estação de Queluz. Pais do Amaral justificou ainda a compra da NBP como «uma operação estratégica de crescimento», tendo esta aquisição permitido à TVI a conquista da liderança do mercado televisivo português.

Foi também pela mão do empresário e engenheiro que a Media Capital passou a ser cotada na Bolsa e que a Prisa entrou no capital da empresa. Prisa que, de resto, ficaria detentora da maioria do capital numa operação classificada por Pais do Amaral como «choruda».

Agora, os caminhos de Nicolas Berggruen voltaram a cruzar os do gigante da comunicação luso-ibero-americano, após a entrada da capital de risco americana Liberty Acquisition Holding, da qual é conselheiro-delegado, na estrutura accionista da Prisa, com a compra de quarenta por cento contra um cheque de 660 milhões de euros. Esta entrada do sócio de Pais do Amaral na Prisa está a causar algum – justificado – sururu no mundo dos media em Portugal. Depois das confusões com a compra da TVI pela PT, cujo rosário ainda não foi todo desfiado e é agora alvo da Comissão de Inquérito, é preciso não esquecer que a empresa espanhola está ainda vendedora da Media Capital e que há uma OPA a decorrer, da Ongoing, sobre trinta por cento da empresa.

Nuno Vasconcellos, dono da Ongoing, já disse, na Assembleia da República, que não gostava de «mudanças nas regras com o jogo a meio», indiciando que podia deixar de estar interessado na TVI depois da entrada do fundo. A Liberty, por seu lado, já negou que a situação tivesse mudado. Mas é pouco certo que a participação da Liberty não altere as coisas, sobretudo na questão da administração: Vasconcellos exigiu a gestão do canal, mesmo com apenas trinta por cento do capital. Ficará o ex-dono de braços cruzados? Até fim de Março a questão vai resolver-se: nessa altura termina a OPA da Ongoing. Fonte contactada pela NS’ garante que, por agora, o engenheiro Pais do Amaral está apenas a seguir com interesse as operações de Nicolas Berggruen. Descodificando, não descarta a possibilidade de avançar. E tem uma «cunha» forte: ele o seu sócio americano conhecem como ninguém o canal.

O amigo americano está neste momento no Rio de Janeiro, a ser ciceronado por Mário Bernardo Garnero, herdeiro do grupo Brasilinvest, à procura de empresas de energia e infra-estrutura para investir e de ONG «confiáveis para fazer doações», segundo noticiou a imprensa local. Nos últimos anos, a Berggruen Holdings e as suas associadas fizeram mais de cem investimentos directos. A fortuna de Nicolas Berggruen foi construída sobretudo pelo seu envolvimento em fundos de capital privado de ultra-risco. Se dão certo, geram milhões. E no seu caso têm dado.

A festa anual

As aparições públicas de Nicolas Berggruen são escassas, mas é emblemática a festa anual no Chateau Marmont, em Hollywood, onde junta desde ilustres da alta finança a manequins, intelectuais e uma plêiade de who’s who. Para se entender a importância do evento, a histórica colunista da Page Six do The New York Times, Paula Froelich, lamentava recentemente no blogue de celebridades SUNfiltered (escreve ainda no Huffington Post) ter perdido o maior acontecimento do ano depois dos Óscares.

De Nicolas, Froelich não dirá nem uma palavra (o único link disponível remete para o negócio da Prisa), referindo-se apenas ao cardápio de bebidas da festa e à pujança do álcool da Califórnia, comparado com as «lavandas» de Utah. Num amontoado de retratos de celebridades e inteligentes anónimos, Nicolas Berggruen aparecerá um escasso par de vezes sempre de fato assertoado, camisa num desalinho cozy, olhos azuis penetrantes e um sorriso esfíngico à Robert Redford.

NOTA BIOGRÁFICA*

Peso: 2,2 mil milhões de dólares (1,6 mil milhões de euros)
Lugar na lista dos mais ricos do mundo: 437.º
Fortuna: herdada e a crescer
Fontes: Investimentos
Idade: 48
Cidadania: americana
Formação académica: New York University
Estado civil: solteiro

*(segundo a revista Forbes)

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