Nós, portugueses, somos um povo curioso. Embora tenhamos o bacalhau como a joia da coroa da nossa gastronomia, esta espécie de peixe - tão aclamada e essencial para as receitas tradicionais de Natal - não é pescada, nem produzida, nas nossas águas. Por incrível que pareça (e tanto quanto é do meu conhecimento), somos o único país do mundo incapaz de produzir o seu próprio prato tradicional. Não obstante, e modéstia à parte, é com enorme mestria que o confecionamos..Consoante as regiões e as ocasiões, preparamo-lo de várias formas. No clássico bacalhau à Brás, a essência reside na combinação perfeita de lascas de bacalhau envolvidas com batata palha e ovos mexidos. À Zé do Pipo gratina-se a combinação do bacalhau cozido com cebolada, maionese e puré de batata. No Minho, é à Minhota - frito em azeite. E, na consoada, o rei é o bacalhau cozido com todos (ovos, grão-de-bico e couves). Parece-me, portanto, que o bacalhau sabe o que quer. Mas, e nós, sabemos? Modestamente, parece-me que não..Portugal vive a maior crise institucional da história da democracia, enfrenta problemas profundos a nível da habitação, da saúde, da educação e dos transportes e, apesar da consolidação das contas públicas - em particular, do défice e da dívida pública em percentagem do PIB -, o poder de compra dos portugueses mantém-se o 4.º mais baixo da zona euro. Contudo, aquilo a que temos assistido, que em nada contribui para a resolução das questões suprarreferidas, é uma espécie de troca de galhardetes retroativos. Deste modo, a esquerda ataca a direita com o fantasma de Pedro Passos Coelho, a direita remete para José Sócrates e António Guterres, e a esquerda volta à carga com Aníbal Cavaco Silva..De facto, e voltando atrás no tempo, já no século I a.C., o carismático imperador romano Júlio César notava que "há, nos confins da Ibéria, um povo que nem se governa, nem se deixa governar". Todavia, esta lengalenga sobre o passado em nada abona a nosso favor. É sabido que a população está a envelhecer - a natalidade e o défice demográfico são outras questões relevantes --, no entanto, não podemos ficar reféns de ideias e discursos bafientos..Se, por um lado, o Estado português é secular, por outro, quer-se moderno, inovador, competitivo e, sobretudo, voltado para o futuro. O que lá vai, lá vai. Assim, se queremos alavancar o crescimento económico, promover avanços em setores-chave e trabalhar nas questões existenciais contemporâneas, como o combate às alterações climáticas, a saúde pública ou as migrações, é essencial que não nos desvirtuemos com tricas e baldrocas..Mais, a tentação de insistir numa retórica inflamatória continuará a ser atrativa, principalmente tendo em conta as motivações que levaram à demissão do governo, e a conjuntura atual. Porém, é, por isso, crucial priorizar a moderação, combater a polarização da sociedade e procurar consensos políticos - que serão, certamente, indispensáveis na próxima legislatura. Será a capacidade (ou a falta dela) de alcançar acordos e construir pontes que definirá a eficácia das respostas aos desafios que se impõem..Posto isto, nesta quadra festiva, caracterizada como tempo de reflexão e de esperança, faço votos para que, em 2024, com o aproximar dos atos eleitorais vindouros - eleições legislativas e eleições europeias -, o debate possa ser enriquecido, robusto e diversificado para que diferentes perspetivas, ideias e opiniões possam esclarecer os eleitores e estimular a participação cívica de todos os portugueses..Mestre em Desenvolvimento Internacional e Políticas Públicas Membro Fundador da All4Integrity