A mesa de Natal da maioria dos portugueses pode ter os dias contados. E as tão famosas cem formas de fazer o peixe favorito dos portugueses também podem reduzir-se bastante. Isto porque o bacalhau é uma espécie em risco, já hoje, e a acidificação dos mares onde ela vive pode ajudar a piorar as coisas..De acordo com o jornal The Guardian um novo estudo científico publicado pelo Programa de Monitorização e Avaliação do Ártico alerta que o stock de bacalhau proveniente do mar de Barents, no norte da Noruega, pode cair até zero antes do final do século. Isto caso o aquecimento global continue - que é o mais provável..O mar de Barents, no Ártico, é conhecido por ser uma das principais fontes de importação de bacalhau na Europa. É aqui que se pesca a maior parte do bacalhau que chega a Portugal, e há várias fábricas que trabalham apenas para a exportação. Mas o oceano do qual faz parte o mar de Barents é não só aquele que está exposto a níveis mais rápidos de aquecimento, mas também o que regista o maior nível de acidificação do mundo - uma vez que a água fria absorve mais dióxido de carbono, alterando o seu nível de pH..Estima-se que o aumento da temperatura do mar tenha sido de 3,5 ºC, comparativamente com uma média global de 1,1 ºC nos outros oceanos. E, ainda que todos os países que integram o Acordo de Paris - um tratado que prevê medidas de redução de emissão de dióxido de carbono - mantenham as suas promessas, as temperaturas deverão subir mais 3 ºC em todo o mundo. No mar de Barents, contudo, essa subida seria de 6 ºC..Este cenário põe em risco não só a região mais produtiva do mundo para a captura desta espécie - que só desova em água fria -, mas também a sobrevivência de focas e aves marinhas, que encontram no bacalhau polar a mais importante fonte alimentar. Caso as previsões do estudo se confirmem, os investigadores acreditam que a comercialização do bacalhau conhecerá uma queda abrupta..Segundo o estudo, o aquecimento do "mar de Barents foi benéfico para o bacalhau, e responsável pelo facto de as apanhas terem voltado a níveis não vistos desde 1970, quando eram apanhadas 900 mil toneladas por ano. Qualquer aquecimento mais terá efeitos negativos, no entanto.".Este é o estudo mais completo alguma vez feito sobre o impacto das alterações climáticas nesta espécie, ainda que não o primeiro - em novembro do ano passado, um outro estudo alertava para a redução drástica de bacalhau caso a temperatura global aumente. É, no entanto, a primeira vez que investigadores têm em conta a acidificação e o aquecimento dos oceanos na sobrevivência e comercialização do peixe..Os resultados deste estudo foram divulgados durante a conferência Artic Frontiers (Fronteiras do Ártico), na Noruega, na semana passada. Martina Stiasny alertou para o facto de o impacto ser ainda maior do que aquele que conseguiram concluir, uma vez que o esgotamento do oxigénio (outro efeito colateral nas mudanças climáticas) não foi um fator tido em conta.."Estamos a tentar mostrar a magnitude do risco e parece muito significativo", explicou uma das investigadoras, Martina Stiasny. "Este é um dos stocks pesqueiros mais importantes do mundo. E isto será um problema para a segurança alimentar", sublinhou..Em resposta à mais recente descoberta, o ministro do Meio Ambiente norueguês disse que o estudo mostra a necessidade de uma resposta urgente sobre a diminuição das emissões. Ola Elvestuen afirma que "a primeira tarefa é impedir que [este cenário] aconteça" e comece "muito rapidamente"..Segundo o estudo, neste momento são possíveis apanhas de mais de 900 mil toneladas por ano, num valor total de 285 milhões de dólares. "Esta apanha bastante lucrativa vai a par com uma alta empregabilidade da pesca. Mas as apanhas e as receitas terão de diminuir bastante, e serão de zero se o aumento da temperatura for de 6,5 graus", lê-se no estudo..Enquanto o mar se acidifica, o estudo propõe uma pesca de 150 mil toneladas por ano - quase um décimo - o que baixaria os rendimentos para apenas 37 milhões de dólares. E por aqui já se imagina o efeito que isto teria na economia - na norueguesa mas também na portuguesa que dela depende. "Menos empregos e menos receita", garante o estudo. E não fala dos efeitos na cultura gastronómica portuguesa.."Seria um desastre para a gastronomia nacional"."É um cenário quase impensável. Espero que arranjem soluções para minimizar esse impacto, até porque a Noruega tem um rigoroso sistema de controlo de pescas. Mas, se acontecesse, seria um desastre para a gastronomia nacional", atira o chef Hélio Loureiro. Nos últimos 500 anos, recorda, as receitas de bacalhau tornaram-se centrais "na gastronomia e na cultura", pelo que o desaparecimento desta espécie "seria também um desastre económico para nós"..Do ponto de vista gastronómico e histórico, Hélio Loureiro, presidente do concurso "A revolta do bacalhau", considera que "seria talvez a maior machadada de todos os tempos". Por isso, alerta, devemos privilegiar "a sustentabilidade e a proximidade", com vista a diminuir o impacto das alterações climáticas: "Consumir menos proteína animal e mais produtos locais, com uma pegada ecológica menor, em vez de privilegiar produtos que não nos dizem tanto, mas são mais uma modernice"..Para o chef, que se considera "quase o embaixador do bacalhau", esta espécie representa o paradigma da cultura portuguesa. "É a única espécie que, não sendo da nossa costa, faz parte da nossa tradição, o que tem a ver com a nossa tradição de marinheiros e homens do mar", conclui..Fernando Melo, crítico gastronómico, reforça: "É o único caso em que violamos a regra básica da proximidade geográfica. De facto, nós não somos criadores, mas é a proteína mais central da nossa alimentação". Recorda, por exemplo, a tradição de dar bacalhau seco às grávidas, ou a chora de bacalhau, que começou a bordo. "Penso que o que está a acontecer é um alerta forte. É importante ter juízo, porque é capaz de estar a haver pouco"..A confirmarem-se as piores previsões, Fernando Melo considera que isso "seria dramático para o receituário" nacional. "Para ser feliz e desovar como deve ser, o bacalhau tem de viver entre os 4 graus negativos e 5 ou 6 positivos", pelo que uma subida de 6 graus terá um impacto significativo. As famosas lascas, explica, estão relacionadas com o frio e o exercício que o bacalhau tem de fazer quando atravessa o mar de Barents. "É por isso que o bacalhau da Noruega é único".