O governo parte para um novo estudo que decidirá a localização do futuro aeroporto da região de Lisboa já pressionado pelo lobby dos engenheiros e dos economistas que apontam Alcochete como a melhor solução. As duas Ordens integram o grupo que vai monitorizar a comissão técnica independente incumbida de avaliar não só Alcochete, mas também outras quatro hipóteses: Montijo, Santarém e duas estratégias duais entre aqueles dois concelhos e o atual Aeroporto Humberto Delgado..Para o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando de Almeida Santos, "até agora, Alcochete era a única alternativa", afirmou em declarações ao Dinheiro Vivo. Sobre "esta solução mais recente de Santarém", o bastonário admite "reservas" porque é desconhecida. "A decisão tem de ser de um aeroporto de raiz, estruturante para o país", sublinhou. Da mesma opinião, o bastonário da Ordem dos Economistas, António Mendonça, defende que, "de acordo com os dados disponíveis e os estudos conhecidos, tudo se encaminha para que Alcochete seja a solução que mais se adequa ao objetivo daquilo que deve ser o aeroporto"..A construção de raiz do novo aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete, que substituiria o Humberto Delgado esteve para avançar em 2008, no segundo governo socialista de José Sócrates, depois de o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), que agora vai assumir os encargos da nova comissão técnica independente (ver texto ao lado), ter emitido um parecer a favor dessa localização em detrimento da Ota. O custo andaria à volta dos cinco milhões de euros. Em 2021, o presidente da ANA, José Luís Arnault, apresentou uma fatura mais elevada: 7,6 milhões de euros. A obra nunca chegou a avançar por causa da crise das dívidas soberanas que atingiu Portugal e levou à entrada da troika no país..Em 2011, já com o governo de coligação PSD-CDS de Pedro Passos Coelho no poder, A ANA-Aeroportos de Portugal foi mandatada para estudar opções de complementaridade, que seriam mais baratas, mais rápidas e garantiam que a infraestrutura existente poderia manter-se. Nascia assim a solução dual: Aeroporto Humberto Delgado como principal estrutura e Montijo como complementar..Em janeiro de 2019, foi assinado um memorando de entendimento entre o governo socialista de António Costa e a concessionária, já nas mãos dos franceses Vinci, para avançar com a construção do aeroporto complementar no Montijo. Esta solução, bem mais barata do que Alcochete, envolvia um financiamento de 1,15 milhões de euros que iria ser integralmente assumido pela ANA. Mas o projeto caiu por terra em março de 2021 quando a Autoridade Nacional da Aviação Civil chumbou a construção do novo aeroporto na Base Aérea n.º 6 do Montijo, na sequência do veto das câmaras da Moita, na altura ainda da CDU, e do Seixal, que se manteve comunista após as autárquicas de setembro de 2021..O governo decidiu então retirar o poder vinculativo aos municípios potencialmente afetados. Tentou no ano passado, mas sem maioria absoluta precisaria da mão do PSD para poder passar a proposta na Assembleia da República. O então líder social-democrata, Rui Rio, exigiu mais estudos como condição para aprovar o diploma. Mas tudo ficou sem efeito e o futuro aeroporto internacional de Portugal voltou à estaca zero com o chumbo do Orçamento do Estado para 2022 e a queda do governo..Agora, o Executivo socialista volta a apresentar a mesma lei. O Conselho de Ministros de ontem aprovou uma proposta que retira o poder de veto às autarquias. O ministro da Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, revelou que o diploma tem "o mesmo espírito da proposta aprovada há um ano". Com a aprovação desta proposta, "aos municípios fica reservado o poder de veto para infraestruturas aeroportuárias de cariz local e regional", esclareceu o governante. "Os municípios não deixam de ser ouvidos e de emitir pareceres, mas não são vinculativos", acrescentou. O diploma ainda tem de ter o aval do Parlamento mas, com a maioria absoluta do PS, a aprovação está garantida. Questionado se as inúmeras avaliações já realizadas vão ser desperdiçadas, o ministro assegurou "que todos os estudos que já foram realizados vão ser úteis no trabalho desta comissão, não é trabalho perdido, será aproveitado". Quanto ao envolvimento da concessionária ANA na tomada de decisão sobre a localização do novo aeroporto, Pedro Nuno Santos vincou que "quem decide onde é, é o Estado, é o governo, não é nenhuma empresa que escolhe e decide"..A comissão técnica independente, que será liderada por um coordenador-geral nomeado pelo primeiro-ministro sob proposta do presidente do Conselho Superior de Obras Públicas, do presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e do presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, tem até final de 2023 para apresentar uma avaliação estratégica sobre as cinco ou mais soluções para o futuro aeroporto. Será com base nesse relatório que o governo tomará uma decisão sobre a melhor localização..Jornalistas do Dinheiro Vivo