Norte-americano castiga filho por fazer bullying. Fez bem ou mal?

Criança de 10 anos obrigada a correr à chuva até à escola. O pai filmou e publicou no Facebook. Castigo divide especialistas
Publicado a
Atualizado a

Uma criança insulta, agride e ridiculariza constantemente outra. Os pais descobrem. Devem castigá-la? Bryan Thornhill obrigou o filho de 10 anos a correr à chuva até à escola, depois de o rapaz ter sido expulso do autocarro escolar por ter feito bullying. Acompanhou-o de carro, enquanto filmava o percurso de cerca de 1,6 quilómetros, que publicou posteriormente no Facebook. O caso ocorreu na Virgínia, nos Estados Unidos, e trouxe o tema para a discussão. De um lado os que aplaudem o castigo, do outro os que criticam a medida. Por cá, o DN falou com vários especialistas para saber como é que os pais devem agir quando descobrem que os filhos praticam bullying. Um pedido de desculpas em público ou passar a proteger a vítima são algumas das sugestões.

"Os pais devem castigar, corrigir, promover qualquer coisa que obrigue a criança ou o jovem a refletir sobre a sua atitude. Um castigo em conformidade", defende Melanie Tavares, psicóloga a desenvolver doutoramento na área do bullying. Para a especialista, pode fazer sentido "um pedido de desculpas perante a turma, ou obrigar a criança a fazer uma pesquisa sobre o que é o bullying e as suas consequências, e perguntar à vítima de bullying como reparar o erro". Mas nunca castigo físico.

Quando há um comportamento desadequado, a psicóloga diz que deve existir um castigo "adequado à idade, ao nível de desenvolvimento e ao comportamento da criança". No entanto, destaca, "um castigo que é uma atitude pedagógica não pode ser transformado em maus-tratos". Se for desadequado ao comportamento que a criança teve, será "uma forma de maus-tratos".

Relativamente ao castigo aplicado por Bryan, que segundo o mesmo melhorou o comportamento do filho, Melanie tem uma posição "ambivalente": "Teve uma atitude corajosa, ao tentar corrigir o comportamento do filho e educá-lo para a cidadania. Mas temos de garantir que o próprio não se transforma numa vítima. A sua imagem deve ser protegida." Contudo, ressalva, é difícil tomar uma posição sem conhecer os pormenores.

Tânia Paias, diretora do Portal Bullying, não gosta de usar a palavra castigo. "A criança deve ser responsabilizada pelas suas atitudes. Os pais têm de agir, trabalhar a empatia com os filhos, a troca de papéis, o respeito pelo outro", defende a psicóloga clínica, mestre em saúde escolar, sublinhando que "o jovem precisa de saber que todos os atos têm consequências". Essas consequências, propõe, devem passar por "fazer exatamente o contrário daquilo que fez". E dá um exemplo: "Na escola, se maltratou um colega, passa a protegê-lo, a ser responsável pela sua segurança."

Não julgar os pais

A atitude mais correta a adotar dependerá, em grande parte, da educação que é dada. "Uma atitude pode parecer-nos estranha, mas se for coerente com a educação que o pai dá ao filho, para a criança não será estranha", afirma a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. Nesta matéria, frisa, "há uma certa liberdade dos pais e é importante não julgar". "Um pai deve ser uma bússola empática, respeitando a idade dos filhos e a sua capacidade de entendimento. Importa que haja coerência nos valores e que a criança não seja posta em risco", argumenta a especialista.

Para Ana Vasconcelos, não é correto dizer que sempre que uma criança pratica bullying deve ser castigada. "O bullying é sempre uma situação de defesa, com comportamentos atacantes. Convém também saber quais são as causas do mal-estar, que fazem que a criança tenha essa atitude com os outros."

Para os pais, é difícil assumir

Segundo as psicólogas ouvidas pelo DN, é difícil para os pais assumirem que os filhos praticam bullying com os outros. "Porque sentem que isso põe em causa a educação deles, questionam onde falharam", explica Melanie Tavares. Há inclusive um sentimento de culpa. "Não devem sentir-se culpados, mas perguntar o que devem fazer, como reparar o problema. É essencial que haja uma boa comunicação", aconselha Tânia Paias.

Para os adultos, é mais difícil identificar um agressor do que uma vítima, mas também é possível. "Percebe-se pela forma hostil como falam dos colegas. Se inventam boatos ou alcunhas, por exemplo. Ou se existem marcas de confrontos físicos", alerta Melanie.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt