No estúdio da rádio, no estúdio da vida...

Os encantos da rádio a serem confundidos com a força geracional dos anos 1980. <em>Os Passageiros da Noite</em>, de Mikhael Hers, competição oficial na Berlinale de 2022, é uma assombrosa carta de amor e desencanto a Paris na década onde a cidade convidava os corpos e corações a uma exercício de liberdade na noite.
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Uma récita íntima de um tempo e modo que não voltam. A nostalgia em Les Passagers de La Nuit é, ao mesmo tempo, desesperada e ferozmente suave, como se os eighties fossem uma personificação de um ideal de juventude perdida. É esse o testemunho convulso de um filme que pede referências ao espectador, da música ao cinema, mas sobretudo de uma época que engloba um estado de espírito parisiense a partir do sonho do sistema de Mitterrand.

Charlotte Gainsbourg é uma mãe divorciada nesta saga familiar que começa em 1981 quando percebe que tem de seguir em frente a sua vida com dois adolescentes. Uma mulher que se reinventa e que acaba por ir trabalhar para a rádio num programa noturno chamado Os Passageiros da Noite, conversas noturnas com ouvintes. É lá que ganha um novo fôlego e uma amiga, Talulah, jovem errante que se torna uma musa para o seu filho mais jovem. Os anos passam e as conversas da noite prosseguem, às vezes como caução de uma vivência que a cidade de Paris parece devorar.

Crónica de afetos sobre os encantos de Paris, Os Passageiros da Noite tem a veleidade de cruzar saudosismos melómanos e cinéfilos. Cita Varda e o seu Sem Eira nem Beira mas está sempre perto do poder encantatório de Éric Rohmer, mais propriamente do efeito de Noites de Lua Cheia teve numa geração aquando a sua estreia em 1984. Pelo meio, as canções de uma época e que a cidade tornava suas: de Rattelsnakes, de Lloyd Cole, a See no Evil, dos Television, passando pela celebração dos The Go-Betweens e Kim Wilde numa noite onde os corpos mergulhavam nas pistas de dança ou literalmente no Sena. Trata-se de uma evocação romântica, ambiental e profundamente pura. Mikhael Hers está do lado do saudosismo menos cínico, quase em jeito de fã da atmosfera revivalista do conceito dos "anos 80", mesmo quando as personagens evocam o slogan "bonjour tristesse" - há adolescentes fatalistas, uma protagonista sem peito, uma nómada junkie, etc...

Como se não bastasse, sente-se um murmúrio de uma nostalgia urbana perdida. A Paris dos telhados de uma nova era, dos cinemas com programação diversa (numa sala os Gremlins, noutra Rohmer...) e do ato coletivo de sair à noite, de estar na noite. Enfim, verdadeira nostalgia sentida e que permite confissões e deslumbramentos como uma rapariga a dizer "o cinema é capaz de me fazer sair de mim própria"... Aquela Paris, que é muito de quem lá viveu, torna-se também nossa e espelho de um turbilhão de juventude e renovação.

E é nesse gentil convite à respiração de uma memória de um tempo que Hers ganha o nosso coração. Filmar o período de uma inocente felicidade é também descobrir o pêndulo daquele instante de mudança e confrontar o nosso lugar no passado da juventude. Escolhas, danos e deslizamentos no pódio da memória. A felicidade desta família quebrada e reerguida parece coisa de uma errância cativante, daquelas que pode ser resgatada com o som de Joe Dassin, no sorriso confortante da enorme Charlotte Gainsbourg e na saudade do grande poder da rádio...

dnot@dn.pt

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