"NATO é hoje mais importante do que era antes do brexit"

Entrevista a Carlos Gaspar, autor de <em>A Balança da Europa </em>(Alêtheia).
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Doutorado em Ciências Políticas -Relações Internacionais e investigador do IPRI da Universidade Nova de Lisboa, Carlos Gaspar acaba de lançar A Balança da Europa. O impacto do brexit foi o mote desta entrevista.

O título do seu livro é A Balança da Europa. Trata-se do equilíbrio de forças, que com a saída da Grã-Bretanha se perde?

Estou a falar do equilíbrio entre as três principais potências, a Grã-Bretanha, a Alemanha e a França, que defendem a ordem política europeia, designadamente a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa deixa de ser o centro do sistema internacional, e fica reduzida ao estatuto que ainda hoje tem, de espaço continental, aquilo que Paul Valéry tinha antecipado quando dizia que a Europa ia voltar a ser um pequeno cabo da Ásia. Nesse pequeno cabo da Ásia, na Europa como um espaço continental, uma região entre outras regiões do sistema internacional, estas potências definem os equilíbrios estratégicos e a ordem europeia é aquela que resulta da capacidade de se articularem.

Mas a Grã-Bretanha nem sequer esteve no início da CEE em 1957...

Mas esteve no início da reconstrução europeia. A reconstrução da Europa, a seguir à Segunda Guerra Mundial, tem origem sobretudo na Inglaterra. É a Inglaterra que tem a iniciativa do Tratado de Dunquerque, que tem a iniciativa do Tratado de Bruxelas, que tem a iniciativa do Tratado de Washington, que cria a NATO em 1949. A Inglaterra está com a França no Plano Marshall e no início do processo de integração europeia. A Grã-Bretanha é um dos reconstrutores da Europa do pós-guerra, neste sentido em que as instituições de segurança são pelo menos tão importantes como as instituições que vão realizar a integração económica. A NATO é tão importante como as comunidades europeias e, de certa maneira, sem a NATO as comunidades europeias não existem.

E, quando finalmente entra na CEE em 1973, entra convictamente?

Entra pressionada pelos Estados Unidos desde logo. Os Estados Unidos que até inicialmente apoiam uma iniciativa separada da França e da República Federal para construir as comunidades europeias e excluem a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha é excluída, mais do que se autoexclui. É excluída pela França e pela Alemanha. Mais tarde, depois do fracasso da EFTA e perante o sucesso do mercado comum desde os primeiros anos, há uma pressão fortíssima dos Estados Unidos, e designadamente no tempo do presidente Kennedy, que quer fazer uma parceria transatlântica. E para dar uma dimensão económica à Aliança Atlântica, à comunidade transatlântica, pressiona MacMillan para entrar nas comunidades europeias. E a Grã-Bretanha só não entra ainda nos anos 1960 porque De Gaulle veta.

Mas, do ponto de vista dos britânicos, acha que se sentiram alguma vez confortáveis dentro da CEE, depois UE?

Com certeza, e estiveram os anos seguintes no centro da construção europeia, o mercado único europeu e a política comum de segurança e defesa, para citar apenas dois casos, duas iniciativas...

Mas também podemos olhar para depois ficar de fora do euro e Schengen.

Com certeza, mas a Europa é, na fórmula que eu uso neste livro, o equilíbrio de desequilíbrios. Nem a Alemanha nem a França têm as mesmas políticas, nem a França e a Grã-Bretanha têm, nem a Grã--Bretanha e a Alemanha têm, mas conseguem articular-se e regular as divergências dos interesses neste quadro multilateral único, que distingue o espaço europeu dos outros espaços internacionais, que inclui tanto a Aliança Atlântica como a União Europeia.

O brexit não era uma inevitabilidade?

O brexit não era uma inevitabilidade e a iniciativa do primeiro-ministro conservador não era no sentido de retirar da Europa, era no sentido de resolver as divisões no Partido Conservador. Cameron acabou por criar ainda mais divisões antes de se demitir. Agora o que se trata é de evitar que o brexit seja uma rutura entre estas três potências. Temos de definir novos quadros, designadamente nos domínios da segurança e da defesa, suplementares à NATO que permitam uma reconstituição das relações postas em causa pelo brexit.

Portanto, imagina a possibilidade de uma parceria entre essas três potências, mesmo com o Reino Unido formalmente fora da União Europeia?

Para Portugal é indispensável que isso aconteça. Não queremos, e não podemos, escolher entre uma Europa atlântica e uma Europa continental. A França tem a visão necessária para se opor a uma rutura com a Grã-Bretanha. De certa maneira, a França pode recuperar depois do brexit a sua posição de pivô, porque a Grã-Bretanha é o seu parceiro indispensável no domínio da segurança e da defesa, até para lá do perímetro da Europa; e naturalmente a Alemanha precisa da França para desenvolver as políticas comuns dentro da União Europeia. Tanto Londres como Berlim precisam de Paris de uma maneira mais relevante do que no passado. Se Macron conseguir tirar partido dessa situação, ele pode reconstruir esse equilíbrio.

E concorda que é essencial para a nova União Europeia a 27 na relação com os Estados Unidos ter aqui o Reino Unido como parceiro também? Ou seja, não imagina uma relação da UE com os Estados Unidos, com Trump ou sem Trump, não tendo lá, de alguma forma, a cooperação britânica?

No domínio económico e comercial, sim, no domínio estratégico e de defesa, não. Aí a Inglaterra tem uma relação especial com os Estados Unidos.

Mesmo que estejam assim mais frouxos estes laços na Europa e de certa forma também entre a Europa e os Estados Unidos, a NATO garante que a cooperação estratégica continua?

A NATO é mais importante hoje do que era antes do brexit. Até porque passa a ser o fórum onde britânicos, franceses e alemães se podem concertar. E também há acordos bilaterais entre a Inglaterra e a França, e a Inglaterra e a Alemanha no domínio da segurança e da defesa. Na minha opinião, era preciso ir mais longe, inventar um conselho de segurança regional. É uma velha ideia de Churchill. Em Ialta, ele achava que sim, que devia haver um Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas também devia haver conselhos de segurança regionais. E esses conselhos regionais são tanto mais relevantes quanto os europeus têm de assumir maiores responsabilidades da defesa e da segurança. Isso é impossível sem os britânicos, que são o melhor exército europeu, a única potência nuclear europeia cujas armas estão atribuídas ao arsenal da NATO. E também numa altura em que os Estados Unidos recentraram as suas políticas na frente asiática e, de certa maneira, estão a atravessar um período de retraimento relativamente prolongado que obriga os europeus a responderem a uma situação de instabilidade crescente nas suas fronteiras, desde a Ucrânia à Síria ou à Líbia, de uma forma concertada.

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