Não é com vinagre que se apanham moscas

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Na sua infinita e secular sabedoria popular - e não populista - o povo costuma dizer que "não é com vinagre que se apanham moscas". Não bastas vezes, estes "adágios populares" mais não são do que a simplificação de pensamentos mais complexos ou, de alguma forma, uma certa "moral" para uma história feita de verdades já empiricamente verificadas e transmitidas, pela oralidade, mas que representam em si uma espécie de lei científica: para premissas iguais não é de esperar resultado diferente.

Não que as elites liguem muito ao que diz, sente e pensa o "povo". Mas faz bem, nem que seja de vez em quando, simplificar. Se não é com vinagre que se apanham moscas seja, então, com MEL.

O congresso das direitas, entre hoje e amanhã, vai ter Rui Rio como orador. O líder do PSD, que foi convidado e recusou nas duas últimas edições, decidiu que neste ano deveria participar. A esquerda e uma parte da direita foram unânimes e violentas: Rio não deveria falar no evento, porque na "aula magna da direita" também estará André Ventura. Logo, ao coabitar no mesmo espaço, Rio está a caucionar, aprovar, validar e, até, a cooperar com Ventura.

Nada mais errado.

Ventura não precisa desse palco específico para dizer o que diz; aliás, para dizer o que sempre tem dito, não se esperando qualquer novidade, inflexão ou mudança de discurso. Com o novo mundo global/digital, a mediação desapareceu e as mensagens seguem diretas do emissor para o recetor. A rede, as métricas e a velocidade encarregam-se do resto.

Deixar Ventura a falar sozinho não é, portanto, a melhor opção. Combater os extremismos - de esquerda ou de direita - e os radicalismos - de esquerda ou de direita - não pode ser tentar ignorar as mensagens, fazer de conta que não existem, isolar num cordão sanitário quem as emite ou evitar discuti-las.

Pelo contrário.

A melhor forma de combater extremismos e radicalismos é no confronto de ideias, no apontar de caminhos diferentes, na desmistificação do discurso populista, vazio, fácil e frágil, na desmontagem, um por um, de falsos pressupostos, generalizações abusivas e conclusões precipitadas.

Rio, se entende que deve ir falar ao MEL, pois que vá. Que diga o que pensa, que mostre alternativas, que reflita sobre o estado das coisas, que esteja disponível para o confronto, para as perguntas, para a discórdia e para o contraditório.

O mesmo para outros oradores, como Sérgio Sousa Pinto e Álvaro Beleza. Não me parece que nenhum destes dois, nem Rio, estejam no fórum do Movimento Europa e Liberdade para caucionar o que quer seja ou quem quer que seja. Quem aceita discutir, quem decide enfrentar plateias, moderadores e público, quem arrisca o confronto e acredita nos valores da democracia e da liberdade jamais deve temer o debate, seja quem for o adversário.

Claro que apoucar Rio por aceitar falar num encontro onde estará Ventura é uma estratégia política e, sobretudo, partidária. Mas não parece ser nem a melhor nem a mais inteligente. Ao questionar a participação do líder do PSD por causa de uma outra figura, o relevo está a ser dado à figura e não ao líder convidado. A discussão prévia - e aposto que póstuma - está a ser feita por causa da lista de convidados e não pelas ideias que serão discutidas. Mas, mais importante do que tudo isto, os atores políticos ou, como diria Cavaco Silva, os "agentes" políticos deveriam ter em conta algo muito mais valioso: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que estás a dizer, mas defenderei até à morte o direito a poderes dizê-las."

Jornalista

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