Uma coisa que aprendemos nas aulas de condução é que mais importante do que não ultrapassar a velocidade máxima é saber respeitar a velocidade adequada. Por exemplo, aquela velocidade que nos permite evitar a colisão com o carro da frente, quanto este efetua uma travagem brusca. A velocidade adequada é a que garante a segurança, e depende totalmente do contexto, da estrada, das condições meteorológicas, e, acima de tudo, da relação com os outros condutores. Vem isto a propósito da recente declaração de Rui Rio sobre política europeia. O novo líder do PSD quer "mais Europa, mas mais devagar". Por outras palavras, se Rio quer que a Europa modere o passo da sua integração, isso significa que ele se junta aos oito países da "Nova Liga Hanseática", que consideram estar a UE a ir demasiado depressa..A minha tese, contudo, vai no sentido oposto. A razão pela qual a UE está em processo de desintegração não tem relação com um alegado excesso de velocidade, mas sim com uma longa travagem, e saídas constantes da correta faixa de rodagem, que têm conduzido a sucessivas colisões e despistes. Não é apenas o brexit, ou os países de Visegrado, que cada vez mais são europeus apenas geograficamente, mas também a inversão do rumo estratégico, passando da convergência económica e social entre países e regiões, traduzida nos fundos estruturais e na vigorosa liderança da Comissão Europeia por Jacques Delors, para um processo de crescente divergência, de que o aumento da desigualdade e da pobreza em toda a UE são indicadores categóricos. Hoje a UE causa mais temor - pela incerteza acerca do que poderá suceder depois do seu colapso - do que entusiasmo pelo futuro melhor e mais justo que a sua continuidade poderia significar. Depois do "grande salto em frente" de 1993, com o início do processo da união monetária do euro, a UE tem frustrado todas as esperanças e expectativas que tem suscitado: na coesão, nos direitos sociais, na cidadania, na livre circulação, na segurança das fronteiras externas..O Tratado de Maastricht foi um ato de integração monetária, isolado e temerário. Os países da zona euro abdicaram da sua soberania monetária e cambial numa jogada de póquer, sem garantirem as instituições que compensariam essa perda. O euro foi um telhado que esperou, em vão, por um edifício ao qual pudesse ancorar-se. Esse edifício implicaria a combinação entre uma união política com base constitucional, uma união fiscal, uma autêntica união bancária, e um orçamento europeu que permitisse financiar a convergência e o combate aos choques assimétricos que sempre surgem nos ciclos económicos mais longos. A prova de fogo da crise financeira global de 2008 veio provar a justeza das críticas - feitas desde 1992 e de todos os quadrantes - à fragilidade arquitetónica do euro. A última década tem sido marcada por meros remendos, embrulhados na retórica de reformas vazias de conteúdo sólido, e por rudimentares placebos, disfarçados de remédio. O que ainda mantém a União em pé é a política benigna do BCE, que há muito navega em águas fora do seu estrito campo estatutário. Na próxima crise financeira global a UE continuará com um orçamento correspondente a 1% do seu PIB, ligeiramente menor do que aquele que tinha em 2008. É um orçamento da agonia lenta em que mergulhámos há muito. É para mim um mistério que Rui Rio considere que um corpo com indicadores vitais a aproximarem-se de um estado vegetativo possa ser aconselhado a moderar o passo. Mais devagar do que isto, prenuncia um certificado de óbito.