A sua primeira longa-metragem, Occident, é sobre a mesma ideia que perpassa O Exame: deixar o país. Por que razão regressa a ela?.Essa relação é determinante. Na altura em que fiz o Occident, pensei na imigração como um problema que estava a surgir com a queda do comunismo, e que seria temporário, dentro de 10 anos ou mais as pessoas voltariam para uma sociedade já algo mudada, e ficariam. Quando estava a começar a fazer O Exame, há dois anos, reparei que isto nunca se resolveu... Se foi fácil pensar no problema quando era mais jovem, agora não é, porque diz respeito aos nossos filhos..Essa inversão sente-se no tom dos filmes, o primeiro é uma comédia, este é um drama..Lá está. Ao longo destes 15 anos, acho que perdemos 10% da população, e isto é um sinal de que a nossa sociedade ainda não está madura. As pessoas estão desiludidas, apesar dos progressos que fizemos - historicamente foram grandes, mas não se vive a uma escala histórica, antes humana. Nessa escala há muitas coisas que ainda não estão bem. É por isso que O Exame fala, ao mesmo tempo, de corrupção social, mas também de escolhas pessoais e compromisso..Parece que hoje em dia é quase impossível escapar a esse tipo de corrupção. As pessoas são-lhe muito vulneráveis, não é?.Sim, é impossível. Repare-se, o compromisso é um mecanismo social, uma forma de resolver situações práticas do dia-a-dia, numa sociedade que ainda não está firme nos seus princípios. Se sais de casa todos os dias com a ideia de que vais resolver as coisas, nem chegas ao escritório... Há uma avalanche de situações a consumirem-nos as energias. Eu filmo essas situações. Não procuro interpretar a realidade, mas sim trazê-la para o grande ecrã, onde pode significar mais. Essa é a força do cinema. Tenho muito respeito pela realidade, e é por isso que não faço cortes nas cenas: podes cortar um momento da tua vida, mesmo que seja embaraçante? Infelizmente não, tens de viver todos os miseráveis minutos desse momento..E por isso as personagens espelham no rosto uma tristeza permanente. Depressão social?.Respondo-lhe com uma pergunta: como estão as pessoas aqui?.Também não estão muito felizes... .É o que sinto, há uma frustração que se transformou numa espécie de depressão generalizada. Mas sim, na Roménia as pessoas têm uma expressão de desapontamento mais vincada no rosto, e se lhes perguntar porquê, não sabem. Diria que vivemos mais com as nossas aspirações do que com a realidade em mente. Às vezes, ainda faço anúncios publicitários, e quando ouço falar-se de aspirações, pergunto-me "que palavra é esta?" É como se, de modo perverso, insistir em pronunciá-la indicasse que nunca a vamos alcançar..Foi jornalista até cair o comunismo. Como se refletiu a liberdade na expressão cinematográfica?.Comecei por trabalhar na imprensa porque não podia ir para a escola de cinema, não era acessível a pessoas da classe média. Então, estudei literatura e comecei como jornalista, na ideia de que era o mais próximo do que queria fazer no futuro, contar histórias, e fazia artigos muito criativos. Antes da revolução era uma espécie de dolce far niente, tínhamos talvez oito assuntos diferentes por ano, e muito tempo para escrever. De repente, passámos a ser uma publicação semanal e, meses mais tarde, um diário. Deu-se um boom estranho, porque as pessoas davam opiniões sem informação. Artisticamente, não foi muito bom. Os filmes feitos até dez anos depois da queda do comunismo relevam a inadaptação a esta liberdade, e por isso são objetos um pouco vulgares, muito diretos, no mau sentido, as personagens fazem o próprio comentário da sociedade... Isto não é realista. O cinema que a minha geração faz para contrariar este outro.