Mulheres entram mas são poucas as que ficam

Cavaleiras têm aparecido algumas, mas só quatro receberam a alternativa. Sónia Matias foi a primeira profissional. Mesmo assim, havia quem recusasse partilhar o cartel.
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Sónia Matias festeja 15 anos de alternativa neste ano. Por uma diferença de 20 dias da companheira de lides Ana Batista, fica na história como a primeira mulher a profissionalizar-se no toureio a cavalo em Portugal. Sem apelido tauromáquico, ainda por cima uma menina de Lisboa, desbravou caminho num mundo de marialvas, houve até quem se tivesse recusado a partilhar cartel com elas. Muitas outras cavaleiras tentaram, embora apenas quatro tenham conseguido a alternativa. Mara Pimenta é agora a revelação, numa mão-cheia de aspirantes à profissão.

"Inicialmente, senti machismo da própria festa brava, quase ninguém acreditou que ia vingar. Era mulher e não pertencia ao meio, foi uma aprendizagem do princípio ao fim", lembra Sónia, hoje com 36 anos. Desde logo dois pecadilhos: ser mulher e outsider do mundo das dinastias de cavaleiros. Mas vingar na arena sem apelido parece ser característica das mulheres: Ana Batista (36 anos), Ana Rita (26) e Joana Andrade (27) são as outras profissionais que também não vêm de famílias com nome no toureio. O mesmo se aplica à mais jovem praticante, Mara Pimenta (19).

Os aficionados olhavam para a vontade de Sónia em seguir carreira como um capricho de adolescente, o mesmo pensaram de início os pais. Até porque a experiência que a filha tinha com cavalos resumia-se aos que "se alugavam na Costa de Caparica". Foi aí que começou a montar aos 6 anos, aos 10 já dizia que queria ser toureira. Aos 12 entrou em festivais.

A família mudou-se para Alcochete e instalaram em Samora Correia as boxes para os cavalos, o tentadero (miniarena) e os apetrechos essenciais. De um cavalo passou para dois, depois para três e assim sucessivamente até chegar aos atuais 11, dos quais oito são de raça lusitana. Sónia foi uma das profissionais que se formaram na escola da Torrinha - a herdade dos Ribeiro Telles. As instalações de Samora Correia não têm a grandiosidade de gerações de tauromaquia nem o brilho de grandes fortunas familiares. Parecem mais modestas no inverno, mas "há aqui muito trabalho", comenta a toureira. Naquela quinta já há cavalos de outros praticantes, pois dão aulas de equitação, e também alguns cães, a segunda paixão de Sónia.

A cavaleira começou a ser mais respeitada quando tirou a prova de praticante, em 1997. "Havia colegas que se recusavam a tourear comigo", conta. Sabe o nome de todos. "Era miúda e nessas idades as coisas parecem-nos muito mal. Chorava muito." Anos depois eram os empresários a defender a inclusão do seu nome. Os colegas entravam com ela ou não atuavam. Sónia fez 43 atuações em 2014, o que lhe deu o terceiro lugar no pódio dos que mais atuaram no país, depois de Luís Rouxinol e Joaquim Bastinhas.

Ana Maria Lourenço, agora com 63 anos, sabe bem do que fala Sónia Matias. Aspirante a novilheira, começou aos 17 anos e teve de ter uma autorização do então Ministério das Corporações para "tourear em pontas". Toureou até aos 37 em novilhadas e não chegou a receber a alternativa. "Era muito difícil uma mulher singrar, ainda hoje não é fácil.

Cavaleiras sempre apareceram, matadoras ou novilheiras é que não. Era um mundo muito machista", conta. Hoje, conhecida no meio por Ana Maria d"Azambuja, é assistente operacional no centro de saúde local. Sónia Matias reconhece que as coisas estão mais fáceis. "A modalidade está muito mais aberta. Pode haver alguma diferença, mas sinto isso mais como uma proteção. Por mim, nunca pedi facilidades, os toiros sempre foram sorteados", argumenta.

Mara Pimenta fez no ano passado a prova de praticante e precisa de, pelo menos, mais dez atuações para receber a alternativa. E defende que ser mulher nem é o principal problema na profissão. "Tive algumas dificuldades em entrar, mas por não pertencer ao meio. É preciso saber quem são as pessoas certas, mas até acabei por ter sorte."

Começou com aulas de equitação aos 10 anos e fez a primeira novilhada aos 12. Conheceu Luís Rouxinol, com quem esteve dois anos a aprender, até que encontrou Diego Ventura, o cavaleiro português que vive em Espanha. "É o melhor e uma pessoa excecional", diz Mara. Neste momento, encontra-se em estágio na Herdade de Ventura, em Sevilha, de onde só regressará para a primeira corrida desta época, a 22 de março em Santarém. No ano passado fez 23 espetáculos, mas assegura que poderiam ter sido mais. "O importante não é fazer um grande número de corridas, mas tourear em boas praças".

Mara também vivia num apartamento, em Alcochete, mas o pai, construtor, não poupou esforços nem euros para realizar o sonho da filha. Montou uma quinta em Almeirim onde há tudo para a sua formação e treino. Equipamentos e acessórios do mais moderno que existe e um picadeiro onde Mara treina ao som dos Gipsy King.

Sónia Matias licenciou-se em Gestão do Ambiente , exigência do pai, que considera ser "mais uma muleta para o caso de acontecer um problema, por exemplo uma lesão. Mara Pimenta ficou pelo 12.º ano. "Só é possível fazer uma coisa muito bem", justifica. São parecidas na paixão pela arte e em certificar que vão continuar. E já introduziram inovação na tradição, embora com algumas críticas. Sónia tem duas casacas desenhadas pela estilista Fátima Lopes e Mara prefere usar no traje curto a casaca espanhola, em vez da tradicional portuguesa.

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