Muito mais do que 99 anos de Turquia

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A história dos povos não se mede em anos, nem sequer em décadas. Que o digam os chineses, os persas ou os gregos, que podem reivindicar milénios como a mesma civilização, ainda que a língua evolua, a religião mude, a forma de governo se transforme e o território se altere.

Ontem, a República da Turquia celebrou 99 anos e os ambiciosos discursos oficiais, a começar pelo do presidente Recep Erdogan, já pensam nas comemorações do centenário. Mas o 29 de outubro de 1923 foi o momento da refundação da nação turca por Mustafa Kemal Ataturk, não a data do seu nascimento. Esse é muito mais antigo, nas estepes da Ásia Central, bem antes até desse ano de 1071, em que os primeiros turcos, já islamizados e longe do berço, começaram a chegar à Anatólia e, aliados aos persas, enfrentaram os bizantinos, oficialmente o que restava do Império Romano, na realidade um Estado grego. Mas centremos a atenção em 1299, ano da fundação do Império Otomano, sobre cujas cinzas se ergueu a moderna Turquia.

Durante seis séculos, o Império Otomano foi um colosso que se estendeu por três continentes. Argel chegou a fazer parte, assim como Budapeste ou Jerusalém. No auge, nesse século XVI de Solimão, O Magnífico, os sultões governavam a partir da atual Istambul, antiga Constantinopla, dezenas de povos, muitos deles cristãos, com os gregos sobretudo a fornecerem muitas das elites. Era um império multinacional sem dúvida, mas a matriz turca é indesmentível. N"Os Lusíadas, Camões por várias vezes lança a sua verve crítica sobre a potência que tenta desafiar no Índico os recém-chegados portugueses e refere-se aos turcos.

Claro que os turcos de hoje, tal como já os de 1923, não são meros descendentes dos cavaleiros vindos das estepes. A miscigenação foi muita ao longo dos séculos, como se comprova quando se comparam os rostos com os dos seus primos cazaques. Ataturk, nascido Mustafa Kemal, quando obrigou todos os cidadãos a adotar um nome de família escolheu para si aquele que muitas vezes é traduzido por "pai dos turcos" e, porém, significa "turco como os antepassados".

Grande modernizador, escolhendo o Ocidente como modelo, Ataturk, herói ao serviço dos Exércitos otomanos na Primeira Guerra Mundial, liderou a chamada Guerra da Independência para evitar que os turcos desaparecem da história e tivessem um Estado. O que restava do Império Otomano estava a ser retalhado ao serviço das grandes potências e seus protegidos, e sobretudo foi terrível o confronto dos turcos com gregos e arménios, que reivindicavam também como suas partes da Anatólia, invocando o argumento da antiguidade. Ataturk venceu e isso foi um dos acontecimentos marcantes daquele pós-Primeira Guerra Mundial, em que os nacionalismos se impuseram aos impérios derrotados e aos povos neles antes dominantes. Por exemplo, no Império Austro-húngaro, derrotado tal como o otomano, os austríacos ficaram reduzidos a um pequeno país, depois de rejeitado o seu pedido para integração na Alemanha, e os húngaros perderam dois terços do que consideravam o seu reino e viram milhões dos seus ficar sob governação estrangeira.

É fácil identificar diferenças entre Ataturk e Erdogan, a começar pelo laicismo que o primeiro privilegiou em contraste com o Islão, que o segundo acarinha sem preconceitos. Mas não haja ilusões: ambos são patriotas turcos, nacionalistas no sentido de ambicionar fazer o seu país mais forte. Ataturk inspirou-se no Ocidente, mas nunca deixou de procurar boas relações com a União Soviética. Erdogan já insistiu muito na União Europeia, praticou também uma diplomacia neo-otomana, e lidera um país da NATO, mas não deixa de procurar o melhor entendimento possível com a Rússia.

O projeto de uma nova Constituição anunciado agora pelo presidente promete debate e polémica entre os turcos. Tal como há um século, a via escolhida para afirmação da nação nem sempre beneficia de um apoio consensual. Ataturk, porém, tornou-se incontestável e morreu no poder. Já Erdogan, que governa há duas décadas (primeiro como chefe do governo, desde 2014 como presidente) terá, em junho, de enfrentar eleições. E nelas disputará o direito a presidir às comemorações dos cem anos da república. Não esquecer: cem anos da república, não cem anos da nação, como o próprio Erdogan, em competição não-declarada com Ataturk por um lugar na história, fez questão de realçar, ao falar não só de 2023, como de 2053 e de 2071, respetivamente datas dos 600 anos da tomada de Constantinopla e dos mil anos da batalha de Malazgirt, vitória dos chamados turcos seljúcidas já na Anatólia.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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