Mudar de vida por um bom negócio

Histórias de mulheres com muitas ideias para projetos que têm em comum participar no Connect to Success, ideia da embaixatriz norte-americana para formar empresas em que 50% do investimento é do sexo feminino. E estas empresárias têm mudado
Publicado a
Atualizado a

O curso de Design aguçou-lhe a criatividade e começou a fazer as suas joias. Com papel de jornal. Mas o medo de não conseguir pagar as contas ao fim do mês levou-a a procurar um emprego. Foi professora e adorou, só que veio a crise, as turmas cresceram e ela ficou sem alunos. Desempregada, Sílvia Rodrigues, a designer, pegou nos rolinhos de jornal e nos prémios que ganhou e decidiu montar o seu negócio. Teve a sorte, diz, de ser aceite no programa Connect to Success, o que lhe permitiu trabalhar com alunos de mestrado para criar a sua marca, a Sigues.

Candidatou-se ao MBA Master Consulting, um dos instrumentos do Connect to Success, iniciativa da embaixatriz dos EUA Kim Sawyer (ver entrevista). "Estava com muito trabalho, sem tempo para piscar os olhos. Inscrevi-me no último dia e os papéis levaram mais tempo a preencher do que esperava, acabei por submeter a inscrição às 23.59." Hoje tem uma empresa sustentável e que, quando as encomendas apertam, dá trabalho a mais duas pessoas.

O papel de jornal sempre a seduziu e não apenas para leitura. As letras pretas sobre o papel em branco, as manchas de cor que pintam as páginas, agora cada vez mais frequentes. E começou a fazer joias com estas páginas em 2006 ainda como hobby, conta Sílvia Rodrigues, de Loulé. "Sempre achei o papel de jornal bonito, tem que ver com o contraste entre as letras pretas e o fundo branco, as manchas coloridas, essa mistura toda. Por outro lado, formei-me em design e queria fazer algo que me distinguisse dos outros, diferente."

Sílvia Rodrigues tem 35 anos e é de Loulé, faz questão de tirar a foto na aldeia onde nasceu, Crença. Licenciou-se há 13 em Design e Comunicação. Nos dois anos seguintes trabalhou em empresas de design, até que começou a dar aulas. Profissionalizou-se no ensino, chegando a exercer essa atividade na Escola Secundária de Loulé, onde foi aluna. As medidas restritivas na educação fizeram que ficasse sem alunos e teve de procurar alternativas. Em 2014.

"Tinha esta atividade nos tempos livres, fazia as joias e quem estava à minha volta adorava e encomendava as peças, depois o amigo passa ao amigo e as encomendas foram crescendo." Ganhou prémios pelo meio: Inovação em 2009, com um conjunto de colar, pregadeira e brincos e Nacional de Artesanato em 2011, com um candeeiro a que chamou Vida de Papel.

Aprendeu a fazer um plano de negócio, a vender o produto e a gerir uma empresa com quatro alunos de Economia do ISCTE. "Foi muito importante. Sou das artes e há muitas áreas em que o empreendedor precisa de ter conhecimentos que eu não tinha, nomeadamente da parte financeira. Tinha uma marca mas que até ali era um hobby . Ajudaram-me a selecionar o mais importante das minhas ideias, acrescentaram outras; a ver o presente e a projetar o futuro, os alunos eram muito minuciosos. A perceber a relação entre o custo da mão-de-obra e o preço final, quais eram as peças em que devia apostar. Fizeram-me um plano de negócio para dois anos, para que florescesse e se tornasse sustentável."

No programa MBA Masters Consulting, as empreendedoras trabalham com os estudantes de MBA ou de mestrado das áreas de Economia e Gestão durante um semestre, o que funciona como mais uma disciplina do curso. Está a decorrer a 4.ª edição e já envolveram 150 alunos e 45 mulheres.

Com essa "almofada", Sílvia Rodrigues acreditou que poderia viver da transformação do papel de jornal em bijutaria, a que dá um banho com uma técnica que inventou para o impermeabilizar, resistentes até à máquina de lavar, contou-lhe uma cliente. E são coloridas, embora feitas com letra de imprensa. "As minhas peças são muito coloridas - cor de rosa, verde, laranja - e as pessoas perguntam se é papel de revista, mas não, não tem nada a ver. A verdade é que os jornais têm cada vez mais cor, agora o mais difícil é encontrar páginas só a preto e branco."

A Sigues - junção das duas primeiras letras do nome com as últimas do apelido - foi a marca vencedora do Lisbon MBA Programa em 2014. Vende-se em lojas e em feiras, agora o passo seguinte será o digital e a internacionalização, já está em França. Está a desenvolver uma loja online e para a qual conta com o apoio de um segundo instrumento do Connect to Success: o Corporate Mentoring, com a duração de um ano e que envolve uma equipa de mentores de grandes empresas. Sílvia entrou na 2.ª edição e trabalha desde janeiro com a Shanton Chase Portugal. Há 25 empresas a apoiar 31 empreendedoras. Têm uma reunião mensal em que é discutido o negócio e de onde o empreendedor vem com trabalhos para casa. "É uma preparação para a reunião seguinte, ver os pontos fortes e fracos da minha empresa, a concorrência. Orientam-me para a marca melhorar."

Com tudo o que tem passado e a formação que fez, também através de workshops, a joalheira está confiante em relação ao futuro e que dentro de dois anos a marca será conhecida a nível nacional. "As minhas peças vendem-se muito bem. São únicas, feitas à mão e que marcam pela diferença. E têm uma componente ecológica - o ambiente é preservado com a reutilização do papel de jornal - e, hoje, as pessoas estão muito sensibilizadas para a proteção do ambiente."

Acrescenta que os preços são acessíveis. O colar premiado, a que a autora chamou Amor Perfeito, custa 35 euros, a pregadeira "joia da coroa, 15, e os brincos, oito euros.

Serviços online

Emília Simões licenciou-se em Engenharia das Telecomunicações, o bilhete de entrada para uma multinacional onde trabalhou dez anos. Saiu e resolveu tirar um MBA em Gestão na Porto Business School, o embrião da Last 2 Ticket, uma plataforma de venda de bilhetes e serviços online. Descobriu, depois, que havia espaço no mercado para o seu negócio. "Vender bilhetes é uma das componentes da empresa mas o que fazemos é a desmaterialização dos processos ligados aos bilhetes e que engloba muita coisa. Além do público, trabalhamos com organizadores de eventos, desde universidades, parques temáticos, empresas, entretenimento." Uma espécie de parceiros online que promovem eventos e iniciativas, o que inclui a gestão de convidados, a divulgação, etc. E fornecem ferramentas digitais para, nos casos em que existe pagamentos, fazer um controlo num smarthphone, por exemplo, como acontece com o check-in. Os promotores do Portugal Fashion são um dos utilizadores da plataforma.

Calhou a Emília apresentar num dia o seu projeto num encontro onde estavam a embaixatriz Kim Sawyer, para explicar o Connect to Success. Sentiu-se desafiada a tentar e candidatou-se ao Corporate Mentoring. Durante um ano teve o aconselhamento da Delloite, cooperação iniciada nos finais de 2014 e que permaneceu além do programa. "Há regras, as reuniões são mensais, mas depois esse apoio acabou por acontecer de uma forma natural e menos formal. Ainda hoje, é muito natural pedir ajuda e eles também me dão conhecimento sempre que surge algo que me pode interessar."

Uma parceria que a ajudou a construir o seu plano de negócios. Diz ter sentido que não estava só, que podia contar "com alguém com experiência, que viveu as mesmas dificuldades, que sabe como chegar ao mercado". E, sobretudo, foi muito importante para estabelecer uma rede de contactos.

Mas, atenção, o mentoring "não faz milagres", alerta Emília Simões. Viu muitas mulheres que acabaram por não concretizar as ideias, mas "entrar nestes programas é uma componente importante". E quando lhe perguntamos onde estaria sem o mentoring não hesita em afirmar: "Estaria num ponto próximo. Tenho consciência de que teria continuado, mas a empresa está mais estável, somos mais fortes e estamos mais bem preparados para saltos mais exigentes."

Acredita que um dos trunfos do programa é o "envolvimento efetivo" da embaixatriz norte-americana, com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o que também se traduz na atitude empresarial que é transmitida nas iniciativas, incluindo os workshops, em que também participou: "Culturalmente, somos muito diferentes dos americanos. Temos medo de experimentar, sempre a pensar no que pode acontecer de errado. Os americanos são completamente ao contrário, vão em frente, arriscam. Se alguma coisa corre mal, serve de exemplo para que não se repita. E, se corre qualquer coisinha bem, valorizam. Esta partilha cultural é muito boa, é uma riqueza."

Guarda como melhor aprendizagem do envolvimento neste programa o encontro sobre empreendedores mulheres e jovens no ano passado no Quénia, promovido pelo presidente Obama. Portugal esteve com três projetos.

A Last 2 Ticket tem vindo a crescer, "é saudável e sustentável", e quer agora atravessar fronteiras. A Ásia pode ser o primeiro continente na internacionalização, até porque estão presentes numa incubadora de empresas. São cinco sócios, mas Emília é maioritária, uma das condições para se candidatar a estes programas.

Quanto a ser ela própria uma mentora, porque não? "O nosso escritório é no Parque de Tecnologia da Universidade Porto, onde estamos com outras empresas e isso acaba por acontecer, também damos o que recebemos. Estes programas são muito saudáveis, espero poder contribuir para essa partilha, para mudar a má imagem dos empresários em Portugal, de que não há um tratamento igual para com os funcionários, mesmo a nível dos rendimentos. E uma previsão: "Quando as minhas filhas foram adultas, já não haverá essa má imagem, mas uma maior partilha."

Ideias com pernas para andar

Joana Azera, 26 anos, é enfermeira e o namorado treinador de alto rendimento, ela exerce a profissão ele nem tanto. Tiveram uma ideia que a partir de 2015 tem vindo a tornar-se mais real. Construir alojamentos e um parque turístico e fazer agroprodução, que tem como princípio a autossustentabilidade e a permacultura, recorrer às técnicas agrícolas mais antigas, sustentáveis. Para verdadeiramente poder afirmar: nada se perde e tudo se transforma. E atrair turistas que queiram viver no campo e se preocupem com a preservação do ambiente.

Joana nasceu em Coimbra mas foi para a ilha Terceira com 2 anos. Aí cresceu e estudou e quer concretizar as suas ideias, sonho que vai preparando nos intervalos da sua atividade de enfermeira. Mesmo depois de sair de um turno em que trabalhou toda a noite, como aconteceu há uma semana, quando participou no encontro de trabalho de dois dias no âmbito do Connect to Success.

Inscreveram-se 35 mulheres na Terceira e 65 em São Miguel. Mulheres na maioria jovens, com empresas sustentáveis, embriões de negócios ou simplesmente ideias. Perceberam quais as respostas a dar na preparação de um plano de negócios, apreenderam técnicas de negociação e de marketing, ficaram informadas das formas de financiamento, incentivos e das redes sociais. Ávidas em encontrar respostas para o seu problema, a sua empresa, o seu negócio, muito participativas.

"Foi muito produtivo, gostei bastante da interação que tivemos com os especialistas que aqui estiveram, estávamos num ambiente informal, deixaram-nos à vontade e essa é uma forma de aprender", diz Joana Azera.

Nem ela nem o namorado têm formação na área em que querem investir nem em gestão. Têm feito recolha de informação e obtido reações positivas ao projeto, o que também lhes dá confiança: "Não somos da área, mas gostamos muito da natureza, de estar envolvidos no meio natural, e isso faz falta aqui. Os Açores têm ar puro e uma paisagem maravilhosa. É natureza e o que vemos são hotéis, o turista tem pouco contacto com a natureza."

A ideia tornou-se negócio quando concorreu a um programa de empreendedorismo regional, que lhe reconheceu valor e deu um pequeno apoio para começar, mas vai precisar de 300 mil euros para que o sonho se concretize, em 2018--2019. Tem o terreno, em São Mateus, onde tem duas casas típicas e a casa principal, onde irão morar, além de um espaço para tendas. E não tem medo das dificuldades próprias de viver numa ilha, dos chamados custos da insularidade. "É uma das grandes dificuldades mas também pode ser uma vantagem, há espaço para surgirem coisas novas, há muito para fazer. E há qualidade de vida."

Sara Vicente, 28 anos, terapeuta da fala, foi uma das primeiras a intervir nos workshops no polo da Universidade dos Açores de Angra do Heroísmo, instituição académica que apoiou localmente os trabalhos. E perguntou: "Porque é que não se pode ter vários mercados?" Percebeu depois a razão: porque têm de se concentrar num objetivo de cada vez.

Sara é uma continental, de Torres Novas que foi parar à Terceira "por amor". Licenciou-se em Setúbal, tirou o mestrado de Supervisão Clínica e Gestão de Recursos em Alcoitão e especializou-se em Lisboa, onde conheceu o marido que veio estudar para o continente. Ele formou-se em Prótese Dentária e não conseguiu trabalho na capital, acabando por voltar à Terceira, de onde é natural e onde o pai tem uma clínica dentária. Pensaram e decidiram que seria melhor ele voltar para os Açores, explica ela.

Além de que o seu trabalho era muito instável, andar de colégios em colégios para poder exercer a profissão e como prestadora de serviços, sempre sujeita a que acabassem com a colaboração. Quando chegou à Terceira, Sara montou logo uma clínica de terapia da fala, a que deu o nome de Falarte: "Todos temos de ter a arte de bem falar." Acompanham entre 40 e 50 crianças, além de alguns adultos e adolescentes, dando trabalho a uma assistente e a dois terapeutas. Não se queixam da falta de clientes, o que é conseguido à custa de muito trabalho, sublinha.

"A minha área é saúde, não tenho conhecimentos de gestão ou de recursos humanos. Essa foi a razão pela qual me inscrevi. Até porque gostaria de expandir a clínica e aumentar o quadro de pessoal", justifica Sara. Deu a sexta-feira e o sábado por bem empregues, assegura que levou conhecimentos para pôr em prática no dia-a-dia. O mais positivo do curso foi a "liberdade para apresentarem dúvidas e aprender com exemplos práticos".

A Falarte tem dois anos e trabalho apresentado mas diz Sara que não tem sido fácil. "Era uma outsider, aqui todas as pessoas se conhecem, não foi fácil no início. Tive de mostrar o meu valor através da prática, e continuo a demonstrar. Aqui a opinião, o boca-a-boca, contam muito."

Uma das vantagens são os financiamentos e incentivos para quem quer abrir uma empresa. É que os Açores estão divididos em nove ilhas e o objetivo é promover o empreendedorismo local.
Vontade de se lançar em projetos não falta a Sónia Pereira, 37 anos, arquiteta de interiores, natural da ilha de São Miguel e que estudou em Lisboa. O último é a criação de malas.

Trabalhou para outros arquitetos, sempre a pensar na área de modelismo, um bichinho que lhe ficou desde os tempos de estudante. "Quando acabei o curso, estive na área da construção civil, depois decidi seguir o meu sonho, que era trabalhar em miniaturas, no modelismo." Atualmente tem ateliê próprio, onde faz maquetas, mas não é apenas neste ramo que quer levar o seu nome além-fronteiras. Quer afirmar a marca Sónia Pereira, que servirá de chapéu para projetos associados à sustentabilidade do ambiente, sem esquecer as raízes dos Açores. Esse será mais um atrativo para as potenciais clientes. Sónia usa a criptoméria, uma árvore local que tem as mesmas características da balsa, a madeira usada para fazer maquetas: leve, maleável e de fácil corte. "Só que a criptoméria dos Açores tem mais personalidade", diz Sónia.

Um dos seus projetos são casas para bonecas de madeira, como as de antigamente que passavam de geração em geração, não como agora, que as crianças rapidamente descartam quando deixam de brincar com elas. Mas o projeto que mais tem dominado o seu pensamento são as malas feitas de madeira de criptoméria. Estão na fase de conceção e de produção de profusão e só podem ser vistas nas mãos de Sónia Pereira. Até porque foi a partir de uma necessidade que surgiu o primeiro modelo.
"Precisava de uma mala para levar a um casamento e não encontrava nada. Até que tive a ideia de fazer uma com a madeira que usava nas maquetas", conta. Depois da primeira vieram todas as outras. E ela sempre a ouvir rasgados elogios. Também nos cursos de formação em São Miguel. "Foi muito importante perceber a reação das pessoas, o que me dá mais força para avançar."

A arquiteta gostaria de apresentar a primeira coleção de malas já no próximo ano, mas também percebeu com os peritos que primeiro tem de consolidar a ideia e analisar o seu público-alvo, o que condicionará tudo o resto, desde logo o preço. Um preço que tem de ser o que as pessoas estão dispostas a pagar por malas com bom material e design, mas de uma marca desconhecida. Sónia gostou da formação nos Açores. "Foi toda uma lição, aprender a ser empresário com pessoas com muita experiência. O meu produto está muito pensado, o resto tem de ser construído. O que ouvi hoje obriga-me a pensar em aspetos que não tinha ponderado. É uma grande lição."

(A jornalista viajou a convite da FLAD)

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt