Moscovo e Pyongyang confirmam cooperação e alinham-se contra o Ocidente

Relações de geometria variável aproximam também Pequim destas capitais, bem como Teerão, no que é conhecido em Washington como os CRINKS. Ucrânia vai receber mísseis e munições de forma indireta graças ao Japão.
Publicado a
Atualizado a

A Coreia do Norte testou o míssil balístico intercontinental Hwasong-18, que terá capacidade para atingir os Estados Unidos. No mesmo dia, a China, através do chefe da diplomacia, Wang Yi, assegurou manter um "firme apoio" a Pyongyang, quando antes não teve pejo em condenar os testes nucleares da dinastia Kim. O mesmo acontecia até 2017 por parte de Moscovo, mas agora o chefe do Estado-Maior russo, Valery Gerasimov, confirmou que o seu país passou a ter um nível de relacionamento mais profundo com aquele estado pária, ao dizer que há uma "cooperação abrangente" em matéria de Defesa.

Estes desenvolvimentos têm consequências quer na região Ásia-Pacífico quer na guerra da Ucrânia. Em Washington há quem junte os Irão aos países referidos e fale dos CRINKS como um alinhamento de países autocráticos e ditatoriais.

A Coreia do Norte volta a mostrar os dentes. Depois do 27.º teste de armamento do regime de Kim Jong-un neste ano, o próprio líder norte-coreano advertiu que não hesitará em usar armas nucleares se for "provocado" com o mesmo tipo de armamento. Uma variação relativa à doutrina nuclear adotada no ano passado, e segundo a qual o regime totalitário se arroga no direito de realizar ataques nucleares preventivos. Horas depois da ameaça de Kim, a Agência Internacional de Energia Atómica deu conta de que um reator nuclear norte-coreano terá entrado em funcionamento.

DestaquedestaqueSegundo as estimativas mais recentes da Federação dos Cientistas Americanos, Moscovo tem 5889 ogivas nucleares e Pyongyang à volta de 30, num total de 12500 no mundo.

Estas notícias surgem em paralelo à confirmação de que "foi estabelecida uma cooperação ativa e abrangente" da Rússia com aCoreia do Norte, confirmou Gerasimov num discurso dirigido aos adidos militares estrangeiros. Em coro com a Rússia, Pyongyang fez saber através da agência noticiosa KNCA que considera o grupo de países mais ricos, G7, de "clube de ladrões" por estar a analisar a hipótese de realocar os 300 mil milhões de dólares congelados de contas russas para apoiar a Ucrânia. Na véspera, o ministro russo Sergei Lavrov chamara ao governo alemão de "bando de ladrões" pelo mesmo motivo. Um tema que Moscovo voltou a abordar, desta vez pela voz do vice-MNE, Sergei Ryabkov, ao ameaçar cortar relações com os EUA caso o dinheiro seja canalizado para Kiev.

A aproximação entre a Coreia do Norte e a Rússia é vista como um casamento de conveniência: Pyongyang tem munições e artilharia de sobra e Moscovo pode fornecer combustível, cereais e tecnologia. A embaixadora dos EUA na NATO, Julianne Smith, afirmou na quinta-feira que mais de mil contentores com munições e armamento chegaram à Rússia com origem na península coreana, depois de, em julho, o ministro da Defesa russo Sergei Shoigu ter feito uma rara visita a Pyongyang, e, em setembro, Kim ter visitado o extremo-oriente russo, onde tomou contacto com as capacidades aeroespaciais e militares russas e se reuniu com o homólogo Vladimir Putin.

O Japão vai passar a produzir mísseis de longo alcance, até três mil quilómetros, quando até agora dispõe de projéteis com alcance até mil quilómetros. A decisão foi tomada para poder executar "contra-ataques" em território inimigo, foi revelado pelo governo japonês quando anunciou uma despesa recorde na Defesa para 2024, de mais de 49 mil milhões de euros. Também está orçamentada a construção de dois navios para as forças de autodefesa, equipados com um novo sistema de mísseis de tecnologia norte-americana Aegis.

A verba, que ainda irá passar pelo controlo parlamentar, representa um aumento de 13% em relação ao ano fiscal corrente, que por sua vez já subira 26,3% em comparação a 2022, e aproxima o gasto militar para um patamar próximo do objetivo de 2% do P IB.

Na sequência da derrota na Segunda Guerra Mundial, o Japão adotou uma Constituição pacifista. Embora na prática Tóquio tenha acabado por constituir umas forças armadas em tudo menos no nome, há restrições em vigor como a da exportação de armas e munições, embora a total proibição tenha sido revogada em 2014. Face às dificuldades da Ucrânia em obter assistência militar, o governo nipónico alterou as regras. Como a proibição de exportar armamento para países em guerra continua em vigor, a limitação é contornada com a transferência para os países detentores das licenças originais de armas e munições.

Até agora, Tóquio autorizava apenas o envio de componentes de equipamento para o país de origem da licença de fabrico, contudo, já é possível enviar produtos na sua totalidade. Os EUA irão receber mísseis para o sistema de defesa aéreo Patriot, e com isso municiarem Kiev com semelhante projétil fabricado no próprio país; e semelhante arranjo deverá suceder com o Reino Unido e as munições de calibre 155 mm.

Os militares ucranianos já reconheceram publicamente que, face à penúria de armas e munições - além de dificuldades em recrutar soldados em número suficiente -, as operações militares iriam ser reduzidas e em consequência iriam adotar uma postura sobretudo defensiva.

Outra notícia recebida com agrado na Ucrânia foi a revelação do primeiro-ministro cessante dos Países Baixos, Mark Rutte, de que serão enviados os primeiros caças F-16 assim que haja licença de exportação e estejam a postos infraestruturas e pessoal relacionado com a operação aeronáutica. Rutte disse que o primeiro lote será constituído por 18 aviões do total de 42 que Haia vai ceder. Além dos Países Baixos, a Dinamarca comprometeu-se a contribuir com 19 F-16; já a Noruega e a Bélgica não informaram qual o número de aeronaves a fornecer.

cesar.avo@dn.pt

Diário de Notícias
www.dn.pt