Governo vai decretar dia de luto nacional pela morte de Jacques Delors

Presidente da Comissão Europeia entre 1985 e 1995, político francês foi também ministro da Economia e das Finanças no seu país. Tinha 98 anos.
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Jacques Delors, que morreu esta quarta-feira aos 98 anos, foi o "grande mentor da evolução das Comunidades para uma União Europeia" e encarna "a própria construção europeia", reagiu Marcelo Rebelo de Sousa. "É um Homem com letra grande que nos deixou hoje", acrescenta, numa nota divulgada na página da Presidência da República. Já o Governo anunciou, ao início desta noite, que vai decretar "um dia de luto nacional" pela morte de Delors. "A data será fixada oportunamente, por coordenação europeia ou no dia do funeral", acrescenta nota do gabinete do primeiro-ministro.

O antigo Presidente da Comissão Europeia (entre 1985 e 1995) morreu esta quarta-feira "na sua casa, enquanto dormia", anunciou a filha Martine Aubry, presidente socialista da câmara de Lille. Jacques Delors tinha 98 anos.

Filiado no Partido Socialista francês, foi também ministro da Economia e das Finanças no seu país entre 1981 e 1984. Antes, havia sido deputado no Parlamento Europeu entre 1979 e 1981.

Nome incontornável da esquerda francesa, Jacques Delors frustrou as esperanças desta ala partidária ao recusar apresentar-se às eleições presidenciais de 1995 em França. Na altura, era favorito nas sondagens. "Não me arrependo", afirmou à revista Le Point em 2021.

"Estava demasiado preocupado com a independência e sentia-me diferente dos que me rodeavam. A minha forma de fazer política não era a mesma", referiu na mesma ocasião.

Foi durante o seu mandato como Presidente da Comissão Europeia que entrou em vigor o Tratado de Maastricht, que visou a criação da União Europeia (UE), e que foi proposta a criação do Euro em substituição das moedas nacionais de cada Estado-membro.

A assinatura dos acordos de Schengen, o lançamento do programa de intercâmbio de estudantes Erasmus, a reforma da Política Agrícola Comum e o lançamento da União Económica e Monetária que conduziu à criação do euro são outros dos momentos do projeto europeu que estão associados a Delors.

"Foi protagonista na transformação da Comunidade Europeia em União Europeia (UE), encaminhando as nações da Comunidade para a moeda única e para uma maior cooperação ao nível da defesa", refere a página online do Centro de informação europeia Jacques Delors.

Em março de 2020, apelou aos chefes de Estado e de Governo da UE para que demonstrassem maior solidariedade, numa altura em que se debatiam para conseguir uma resposta comum à pandemia de covid-19.

Com os seus grupos de reflexão, o "Club témoin" e o "Notre Europe" (que mais tarde se tornou o "Institut Jacques-Delors" e tem escritórios em Paris, Bruxelas e Berlim), o político, nascido em Paris em 1925, defendeu até ao fim o reforço do federalismo europeu e apelou a uma maior "audácia" quando ocorreu o 'Brexit' (saída do Reino Unido da UE) e perante os ataques de "populistas de todos os tipos".

Após uma carreira no Banco de França, de 1945 a 1962, tornou-se membro do Conselho Económico e Social e chefe de serviço dos Assuntos Sociais no Comissariado Geral do Planeamento até 1969, onde foi nomeado secretário-geral para a formação permanente e para a promoção social.

Foi membro do gabinete do primeiro-ministro Jacques Chaban-Delmas, de 1969 a 1972, encarregado dos assuntos sociais e culturais, bem como das questões económicas, financeiras e sociais.

Foi professor associado da Universidade de Paris-Dauphine, de 1974 a 1979, e dirigiu o Centro de Pesquisa Trabalho e Sociedade. Foi membro do Conselho Geral da banca francesa, de 1973 a 1979. Ensinou também na Escola Nacional de Administração.

Enquanto membro do Partido Socialista francês, em 1974, e do seu comité diretor, em 1979, foi eleito parlamentar europeu em 1979 e presidiu à Comissão Económica e Monetária até maio de 1981.

De maio de 1981 a julho de 1984, Jacques Delors foi ministro da Economia e das Finanças e foi também eleito presidente da Câmara de Clichy, de 1983 a 1984.

Entre o período 1992-1996, presidiu a Comissão Internacional sobre a educação para o século XXI na UNESCO.

Durante a década de 2000, foi também Presidente do Conselho de Emprego, de Receitas e da Coesão Social (CERC).

Recebeu o título de Doutor Honoris Causa de mais de duas dezenas de universidades, bem como diversos prémios e distinções: prémio Jean Monnet (1998); prémio Louis Weiss (1989); prémio Prince des Asturies (1989); prémio Charlemagne (1992); prémio Carlos V (1995); prémio Erasme (1997); prémio da economia mundial (2006); medalha Nijmegen da paz (2010).

Em Portugal, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo a 16 de maio de 1986 e com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique a 31 de outubro do ano seguinte.

O chefe de Estado português destacou o papel de Jacques Delors na "evolução das Comunidades para uma União Europeia" e como "mobilizador das grandes reformas dos anos 80 e 90, institucionais e financeiras, do alargamento a Portugal e Espanha".

"Jacques Delors encarna para muitos europeus a própria construção europeia. Mas também o valor do trabalho e de se afirmar pelo seu próprio caminho de autodidata, a promoção da justiça social, do respeito pelos direitos humanos, da importância do outro", refere ainda.

Marcelo Rebelo de Sousa atribui ainda a Delors o "respeito e reafirmação de que a Europa deve ser uma construção dos seus povos e dos seus Estados".

"A Europa será de todos, será solidária ou não será, dos mais necessitados como dos que tiveram melhor sorte, dos do sul como dos do norte, do leste ou do oeste, deles e delas, de todos, todos, todos", sublinha o Presidente da República, parafraseando o Papa Francisco.

Referindo-se ao "catolicismo militantemente progressista" do antigo presidente da Comissão Europeia, Marcelo considera que Delors encontrou sempre a força para "ultrapassar as dificuldades, encontrar soluções, mantendo a Europa unida e alargada, um projeto que sempre foi de paz, de progresso e de bem-estar, de caminho em comum para a resolução dos problemas comuns".

"À sua família, à Comissão Europeia, a todos os seus muitos amigos e admiradores, o Presidente da República apresenta os seus sentimentos e enaltece esta figura que não nos deixará", acrescenta.

O primeiro-ministro, António Costa, lamentou a morte de Jacques Delors, considerando que a Europa perdeu "um dos maiores vultos da sua história contemporânea".

"A Europa perdeu hoje um dos maiores vultos da sua história contemporânea", escreveu o primeiro-ministro demissionário na sua conta oficial na rede social X (antigo Twitter).

António Costa lembrou também que Jacques Delors, "um dos grandes impulsionadores da integração europeia, foi também e sobretudo um grande amigo de Portugal". Foi durante a sua presidência que "Portugal aderiu às então Comunidades, percorrendo um caminho que levou o país a consolidar-se como um país desenvolvido, moderno e democrático", assinalou.

"Numa época em que a União Europeia de novo enfrenta desafios sem precedentes, o legado de Delors inspira-nos a um compromisso renovado com esta Comunidade de prosperidade e de valores partilhados, que torne a Europa mais forte, mais solidária e mais coesa", acrescentou o líder do executivo português.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, enalteceu Jacques Delors como "incansável artífice da Europa" que "lutou pela justiça humana".

"Homem de Estado no destino francês. Incansável artífice da Europa. Na luta pela justiça humana. Jacques Delors é tudo isso", reagiu o Presidente francês pouco depois de a filha de Delors, Martine Aubry, comunicar à agência France Presse (AFP) o seu falecimento.

"O compromisso [de Delors], o seu ideal e a sua retidão sempre nos inspirarão. Saúdo a sua obra e a sua memória e compartilho a dor dos seus familiares", adiantou Macron.

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, lembrou o papel de Jacques Delors na transformação de "uma verdadeira" União Europeia (UE), assente em valores sociais e não apenas económicos.

"Jacques Delors liderou a transformação da Comunidade Económica Europeia numa verdadeira União, fundada em valores humanistas e apoiada por um mercado único e uma moeda única, o euro", reagiu Charles Michel.

Numa publicação na rede social X (antigo Twitter), o político belga recordou Jacques Delors como "um defensor apaixonado e prático da Comunidade até aos seus últimos dias".

"Grande francês e grande europeu, ficará na história como um dos responsáveis pela construção da nossa Europa. Apresento hoje as minhas sinceras condolências à sua família", afirmou ainda Charles Michel.

O antigo presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso considerou que a "Europa perdeu um dos seus mais extraordinários líderes" com a morte de Jacques Delors.

"Com a morte de Jacques Delors, antigo presidente da Comissão Europeia com quem tive a honra e o prazer de colaborar em tantas ocasiões, a Europa perdeu um dos seus mais extraordinários líderes. Alguém que combinava os 'pequenos passos' da integração europeia com o ideal de uma Europa unida", considerou em nota enviada à Lusa Durão Barroso, que liderou a Comissão entre 2004 e 2014.

A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, lamentou hoje a morte do antigo presidente da Comissão Europeia Jacques Delors, recordando-o como um "gigante" pela construção da União Europeia (UE), em prol de "uma Europa unida".

"Com a morte de Jacques Delors, a UE perdeu um gigante", reagiu Roberta Metsola, numa publicação na rede social X (antigo Twitter).

"Último cidadão honorário da Europa, trabalhou incansavelmente como presidente da Comissão Europeia e membro do Parlamento Europeu em prol de uma Europa unida. Gerações de europeus continuarão a beneficiar do seu legado", adiantou a líder da assembleia europeia.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, recordou a "obra de vida" do antigo presidente do executivo comunitário Jacques Delors, assente numa União Europeia (UE) "dinâmica e próspera" e numa identidade comunitária.

"Todos nós somos herdeiros da obra de vida de Jacques Delors: uma União Europeia dinâmica e próspera. Jacques Delors forjou a sua visão de uma Europa unida e centrada no seu empenho na paz durante as horas sombrias da Segunda Guerra Mundial", reagiu Ursula von der Leyen.

Num comunicado hoje divulgado, a líder do executivo comunitário recorda o seu antigo homólogo como um "defensor incansável da cooperação entre as nações europeias e, posteriormente, do desenvolvimento da identidade europeia", destacando a sua "inteligência notável e uma humanidade sem paralelo".

"Uma ideia que concretizou graças, nomeadamente, à criação do Mercado Único, ao programa Erasmus e às primeiras etapas de uma moeda única, dando assim forma a um bloco europeu próspero e influente", elencou.

Destacando o empenho de Jacques Delors na liberdade, justiça social e solidariedade, Ursula von der Leyen descreveu-o como "um visionário que tornou a Europa mais forte".

"O seu trabalho teve um impacto profundo na vida de gerações de europeus, incluindo a minha. Estamos-lhe profundamente gratos. Honremos o seu legado, renovando e revigorando continuamente a nossa Europa", adiantou a responsável alemã.

O Presidente da República recordou Jacques Delors como "grande mentor da evolução das Comunidades para uma União Europeias" e que encarna "a própria construção europeia".

"Éum Homem com letra grande que nos deixou hoje", refere Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota divulgada na página da Presidência da República.

O chefe de Estado destaca o papel de Jacques Delors na "evolução das Comunidades para uma União Europeia" e como "mobilizador das grandes reformas dos anos 80 e 90, institucionais e financeiras, do alargamento a Portugal e Espanha".

"Jacques Delors encarna para muitos europeus a própria construção europeia. Mas também o valor do trabalho e de se afirmar pelo seu próprio caminho de autodidata, a promoção da justiça social, do respeito pelos direitos humanos, da importância do outro", refere ainda.

Marcelo Rebelo de Sousa atribui ainda a Delors o "respeito e reafirmação de que a Europa deve ser uma construção dos seus povos e dos seus Estados".

"A Europa será de todos, será solidária ou não será, dos mais necessitados como dos que tiveram melhor sorte, dos do sul como dos do norte, do leste ou do oeste, deles e delas, de todos, todos, todos", sublinha o Presidente da República, parafraseando o Papa Francisco.

Referindo-se ao "catolicismo militantemente progressista" do antigo presidente da Comissão Europeia, Marcelo considera que Delors encontrou sempre a força para "ultrapassar as dificuldades, encontrar soluções, mantendo a Europa unida e alargada, um projeto que sempre foi de paz, de progresso e de bem-estar, de caminho em comum para a resolução dos problemas comuns".

"À sua família, à Comissão Europeia, a todos os seus muitos amigos e admiradores, o Presidente da República apresenta os seus sentimentos e enaltece esta figura que não nos deixará", acrescenta.

O presidente da Assembleia da República lembrou o antigo líder da Comissão Europeia como "um dos grandes construtores da Europa".

Numa mensagem divulgada através da sua página na rede social X (antigo Twitter), Augusto Santos Silva escreveu que "Jacques Delors é um dos grandes construtores da Europa".

"A Europa que sonhou e por que se bateu: a Europa social, a Europa da coesão, em que o crescimento económico e a justiça social formam um par. Obrigado!", lê-se na mesma publicação naquela rede social.

O ex-comissário europeu Carlos Moedas lamentou a morte do antigo presidente de Jacques Delors, afirmando que "marcou a história da Europa e a História de Portugal".

"Como antigo comissário europeu e vice-presidente do DelorsInstitute apresento as minhas condolências à família Delors", disse ainda numa curta mensagem divulgada na rede social X (antigo Twitter).

Fazendo uma alusão à citação de Delors em 1985, nos claustros do Jerónimos, de que "ou nos salvaremos juntos ou pereceremos cada um para seu lado, Carlos Moedas defendeu ser esse o "espírito da Europa".

"Precisamos cada vez mais uns dos outros", sublinhou o também presidente da Câmara de Lisboa.

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