Mísia: "Vivemos uma época de grande banalização do fado"

<em>Animal Sentimental</em> é o novo disco, que também é um livro, de Mísia. Sem dar grande importância aos trinta anos de carreira, revisita-a e fala nas dificuldades de ser diferente e de pensar por si.
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Tem um novo trabalho Animal Sentimental que não é só um disco, mas também um livro. Como o define?
Até para mim é difícil ter uma definição do que é, isto porque o livro e disco foram-se empurrando um ao outro, e não fiz nenhum plano, foi tudo ao fio da consciência.

Mas qual começou primeiro, o disco ou o livro?
Já estava para escrever este livro há cinco anos, quando me aconteceu uma coisa grave, de saúde. E quando me safei decidi escrever o livro, só que, entretanto, passaram cinco anos... mas talvez tenha começado pelo livro primeiro. A ideia do disco foi sempre de olhar para trás. Não é um disco de piruetas, com grandes sinais, com fogo-de-artifício, é sim um disco que é como um lago, calmo à superfície, mas com a sua profundidade, com todos os seus segredos e mistérios. Mas estão, livro e disco, interligados. Os capítulos dos livros estão indexados às músicas do disco. Escolhi poemas, alguns que já tinha cantado, mas que agora têm novas músicas e arranjos, e que representavam o que estava a escrever. E começa com o meu nascimento. Uma das frases que corresponde a esse capítulo é de um poema do Fernando Pessoa que diz "ficção num palco sem tábuas", porque existiu logo uma encenação no meu primeiro dia de vida. A minha mãe abriu um pão, meteu dentro uma moeda de ouro de trinta pesos mexicanos entalou-o debaixo do meu braço e apresentou-me assim ao meu pai, na maternidade. É uma coisa espanhola que indica que quando se tem um filho o destino providencia que tenhamos dinheiro. E logo no primeiro dia já estava ali a fazer encenação em ver de ser um bebé homeopático, limpinho. Mas, voltando a este trabalho, quando me perguntam para o definir não sei o que é.

Escreveu um livro a acompanhar o disco, ou vice-versa, não teve a tentação de escrever letras para as músicas?
Não. De vez em quando escrevo para alguns discos meus, mas quando se canta Lobo Antunes, Saramago ou Agustina Bessa-Luís... Para este disco queria palavras importantes que tivessem a ver com o meu passado. No disco há quatro poemas inéditos, três do Tiago Torres da Silva e outro da Lídia Jorge, o resto são temas que revisito com outro olhar. E também há uma música inédita, não é um fado, escrita pelo Rodrigo Leão para este projeto que é excelente para o equilíbrio do trabalho.

Disse que é um disco com músicas calmas à superfície mas muito denso e com muita força por baixo...
Pensei que não era assim tão evidente, mas quem o tem ouvido diz que é um disco maduro. Se compararmos com o Pura Vida, o disco anterior, que tinha guitarra elétrica e guitarra portuguesa, e era como um vulcão, com energia transbordante. E este é como um lago, está tudo por debaixo. Há um critico francês que me segue desde o início que diz que já não canto fado, mas que tenho períodos como os pintores, e que agora diz que estou numa fase de esqueleto, ossos, carne, coisas orgânicas.

Citaçãocitacao"Na adolescência tinha um grande dilema porque achava que tinha de escolher entre Portugal e Espanha, mas depois pensei que devia ficar com tudo".

São 30 anos de carreira, foi por isso que lançou este trabalho agora?
Trinta de carreira discográfica, porque antes já tinha feito muitas coisas. O primeiro foi em 1991 e este foi gravado em dezembro de 2021. Mas não pensei na data, fui fazendo e fi-lo ao contrário do que fiz sempre. Sou uma pessoa muito cerebral, mas não quer dizer que o cérebro não sinta e o coração não pense, e desta vez fui fazendo o disco e fui-me deixando levar sem a necessidade de provar nada. Até há dois temas que são quase falados. O Eduardo Prado Coelho dizia que eu ao mesmo tempo que cantava, dizia. Que sou uma diseuse.

E esse facto de dizer e de cantar e em várias línguas, como francês ou napolitano, etc. É nessa mistura que se sente bem?
Sim, sou uma mistura, está no meu ADN, sou filha de mãe espanhola. Na adolescência tinha um grande dilema porque achava que tinha de escolher entre Portugal e Espanha, mas depois pensei que devia ficar com tudo. É mais complicado para os outros, para me classificarem, e isso sempre foi um grande problema cá em Portugal. A imagem não era de fadista, o discurso não era de fadista, mas depois ouviam, diziam que era fado, mas que não podia ser fadista. Se canto o fado é para falar com o mundo, não é para estar, com todo o respeito, numa casa de fados. A linguagem emocional do fado comunica com japoneses, por exemplo, e com outros povos. Mas no início para mim foi tão importante ser reconhecida como fadista... aqui diziam-me que era a fadista japonesa, em Espanha diziam que era metade deles..., amputei muitas coisas em mim para ser aceite...porque antes de cantar fiz dança, mimo, uma série de coisas. Mas amputei, fiquei aquela figura quase icónica, de preto, não falava nos concertos..., agora é diferente. Os meus concertos parecem stand up [risos]. Mas lembro-me de ter um medo incrível de não ser considerada fadista.

E quando foi que perdeu esse medo?
Já foi há muitos anos. Percebi que nem que me matasse toda - adoro esta frase [risos]-, aqueles que gostam, gostam, quem não gosta, não gosta. E dadas as minhas escolhas éticas, estéticas e poéticas até acho que tenho muito público, mais do que seria previsível.

E acha que o reconhecimento nacional só veio depois do internacional?
Mas o reconhecimento nacional já veio? Não o sinto.

Não sente reconhecimento em Portugal pela sua carreira?
Não. Sei que há uma grande minoria que me respeita e enche os concertos, mas não sou uma pessoa popular. Não tenho muitos concertos nem vendo muitos discos. E quando apareci, em 1991, era um ovni. Na altura não havia Internet nem tantos canais na televisão. Fiz três turnés nos Estados Unidos nos grandes auditórios e ninguém soube. Hoje em dia quando uma fadista espirra em Manhattan, sabemos minutos depois.

E , no entanto, no estrangeiro...
Lá fora não sabiam o que se passava aqui. Tinha uma falência aqui e um êxito enorme lá fora. Fui das primeiras pessoas a ir aos sítios onde a Amália tinha estado vinte anos antes. Passei pelos grandes palcos internacionais. Mas cá era terrível, durante vinte anos os meus discos não estiveram à venda em Portugal. Não tinha um agente português que quisesse trabalhar comigo. Não fazia concertos por cá, aliás as pessoas achavam que eu morava em Paris.

Mas passou-se o mesmo com outros músicos. Se recordarmos o êxito internacional dos Madredeus e depois o sucesso que tinham, ou não, em Portugal...
Sim, não estou a dizer que tenha sido algo pessoal. E não se pode comparar o fenómeno Madredeus a nível internacional com aquilo que se passava em Portugal. O problema é que tinha de existir num sítio especial para mim, porque não podia estar no fado clássico... era um sacrilégio.

Acha que foi de certa forma pioneira e abriu caminho para as novas gerações de fadistas menos clássicos?
Sim, foi prescritivo para um público do futuro. Essa satisfação ninguém me tira. Mas atenção, não me sinto vítima, fiz sempre o que queria, sabia como fazer coisas de outra maneira. O Nuno Galopim disse-me uma vez que não era bom ter razão antes de tempo, e sendo, entre aspas, pioneira, não fui eu que recolhi os méritos.

Citaçãocitacao"Passei pelos grandes palcos internacionais. Mas cá era terrível, durante vinte anos os meus discos não estiveram à venda em Portugal. Não tinha um agente português que quisesse trabalhar comigo. Não fazia concertos por cá, aliás as pessoas achavam que eu morava em Paris."

E como geria isso?
Chorei muito, durante anos. No intervalo dos concertos no estrangeiro, quando vinha a Portugal, escondia-me em casa, sentia que não gostavam de mim. Vim para Portugal e deixei uma carreira na televisão em Espanha não por uma razão profissional ou comercial, mas porque precisava de uma pertença, e o fado é o meu instrumento cultural. E por isso sou responsável por ter vivido isto de uma maneira, entre aspas, pouco profissional, ou seja, eu precisava de afeto, achava que me iam pegar ao colo se fizesse o melhor possível, mas não foi nada disso. No início da carreira vivi situações muito violentas. Era uma mulher, sozinha, sem nenhum homem ao lado, nem guitarrista, nem manager, nem apresentador de televisão a apoiar. E disseram coisas incríveis, que era isto e aquilo. Sei que mesmo agora não sou fácil de vender, não estou na televisão, ou em concursos... e não sou uma pessoa fácil de ser vista. Mas depois, com o passar dos anos, percebi que o meu principal problema era ser mal divulgada. As pessoas até sabiam quem era eu, aquela da franjinha, mas não sabiam por exemplo que o único poema de fado da Agustina Bessa Luís foi feito para mim, nem sabiam que fui programada pelo William Christy, uma figura muito importante da música barroca, e não sabiam que eu tinha feito um filme com o John Turturro. E se calhar ainda hoje não sabem. Por isso é que não sei se o reconhecimento já chegou, mas se calhar sou eu.

Teve um concerto no Museu do Oriente, no passado dia 27 de maio, foi especial?
Sim, foi um concerto diferente, foi dirigido por uma pessoa que convidei, o Tiago Torres da Silva para encenar e dirigir o concerto. E ele inspirou-se numa frase que às vezes digo: que sou metade Manoel de Oliveira e metade Almodovar. Ninguém foge à sua biografia... a minha mão espanhola e bailarina, a minha avó era vedeta de burlesque e foi quem me educou...

E ainda falando no fado e do seu papel diferenciador quando surgiu. Como olha hoje as novas gentes do fado?
Acho extraordinário ninguém mencionar nada sobre o meu primeiro disco. Mas acho muito bem que tenha apoio, contudo vivemos uma época de grande banalização do fado. Há uma inflação de vozes femininas, mas que não têm nada a dizer sobre a vida. Ser fadista não é só ter uma voz e cantar, é preciso saber o que é a vida. Hoje há pessoas que trabalham sobretudo na forma externa e nunca o núcleo, os poemas. Eu fiz burlesque, não tenho qualquer problema de mostrar o corpo, e acho que há fadistas que deviam fazer calendários delas próprias nuas, sem problema, mas depois quando cantam Camões não deviam mostrar as cuecas, só isso. Quando estão a cantar os grandes poetas era bom que não banalizassem.

Disse algures que uma das coisas que mais gosta de fazer é pensar. No que pensa?
Sim gosto, penso muito. Gostaria de ter sido uma pensadora. Penso sobre a vida e vejo muitas metáforas da vida no dia-a-dia. À parte de pensar nas coisas que acontecem, como a guerra, mas penso muito na fragilidade humana e como lidamos com a vida. Quando era muito nova, o meu livro de cabeceira era o Mito de Sísifo de Albert Camus. Penso nas mesmas coisas pelas quais canto, na vida e na morte, e canto o que está no meio.

Mas de um ponto de vista filosófico ou religioso?
Sou uma agnóstica não praticante porque acendo velas e faço gestos. Adoraria ter fé. Tenho até alguma inveja, da boa, das pessoas que têm fé. Por isso penso na vida de um ponto de vista existencial.

Citaçãocitacao"Fiz burlesque, não tenho qualquer problema em mostrar o corpo, e acho que há fadistas que deviam fazer calendários delas próprias nuas, sem problema, mas depois quando cantam Camões não deviam mostrar as cuecas".

E nesses pensamentos, reflete no estado da cultura em Portugal?
Não só em Portugal, mas em todo o lado há cada vez menos espaço para a cultura na sociedade, e está contaminada pelo entretenimento, que não tem nada a ver. Não estou a criticar, mas entretenimento é uma coisa e a cultura e a arte é outra. Hoje em dia gravamos um disco, que vai ser ouvido, esquartejado, num telemóvel, já ninguém compra discos. Cada vez a cultura tem menos espaço na comunicação social, é triste. Começam a olhar para as pessoas que pensam e leem como pessoas esquisitas, hoje ser intelectual é quase um insulto. É ser diferente, mas é uma grande solidão, ser diferente. E a diferença assusta as pessoas. Foi o que aconteceu comigo no início da carreira.

Álbum: Animal Sentimental

filipe.gil@dn.pt

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