Mercator e as narrativas falsas sobre África

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O sociólogo guineense Carlos Lopes, antigo alto quadro das Nações Unidas e agora professor numa prestigiada universidade sul-africana, é um dos grandes pensadores atuais sobre África, com a vantagem de que todas as propostas que faz para desenvolver o continente têm por base informação concreta, muitas vezes contrariando as ideias-feitas.

Numa entrevista que lhe fiz já há três anos, durante uma passagem por Lisboa para uma conferência, desmistificou em poucas palavras o fantasma de uma migração maciça dos africanos para a Europa: "A definição de migrante das Nações Unidas inclui todos aqueles que nasceram num país e vivem noutro, independentemente da nacionalidade e dos documentos que tenham. E, segundo essa estatística, agora há cerca de 250 milhões de pessoas no mundo que têm essas características. E, desses 250 milhões, se nós formos a ver a estatística em termos de continentes e não de países, a África é o que tem menos. E, dos africanos que emigram, 80% emigram para outro país africano. Estamos a falar de cerca de 20% dos migrantes africanos que vão para fora de África. O que constitui, em termos de números das Nações Unidas, um lote na migração mundial extracontinental de cerca de 26% dos migrantes mundiais. E a Europa tem 34%. Portanto, a Europa tem mais migrantes do que África". Admito que fiquei surpreendido.

O tema dos migrantes volta a ser abordado por Carlos Lopes no livro Mudança Estrutural em África, de que é coautor com George Kararach. E que é editado pela Tinta da China, tal como outro livro, a solo, que saiu em 2020 com o título África em Transformação.

Vejamos então como, uma vez mais, o académico guineense nos surpreende quando aborda a suposta grande migração africana: "Essencialmente, os países africanos recebem muitos mais migrantes do que aqueles que exportam para o estrangeiro. Efetivamente, a maior parte dos africanos que procuram novas oportunidades fora do seu país vão para outro país africano. Menos de dois milhões procuram anualmente um destino no exterior, o que representa um pequeno número quando comparado com as massas migratórias atuais, em particular na Europa. Em 2015, mais de um milhão de pessoas atravessaram o Mediterrâneo para alcançar a Europa, muitas delas através de Itália. Este número foi muito mais elevado do que nos anos anteriores. Deste número, cerca de 68% vinham da Síria, Afeganistão, Iraque e Paquistão. Das dez nacionalidades mais registadas apenas uma era de um país africano. A Frontex, a agência europeia encarregada da questão, reconhece que o número de migrantes africanos em situação irregular é irrisório perante o das chegadas regulares."

Cuidadosos, nos Agradecimentos, os autores alertam para terem passado três anos entre a edição original em inglês e esta tradução portuguesa, com acontecimentos como a pandemia ou o atual choque entre o Ocidente e a Rússia por causa da Ucrânia a afetarem as estatísticas globais, mesmo no que diz respeito a África que, aliás, está muito mais ligada ao resto do mundo do que se pode pensar. Mas confiam que, no essencial, aquilo que dizem e propõem se mantém, mesmo que, acrescento eu, o otimismo em relação à Etiópia pareça agora um pouco deslocado, dada a guerra entre o governo de Adis Abeba e os rebeldes tigrinos.

Tal como a minha entrevista a Carlos Lopes para o DN não se centrou na migração, também esta não é o tema exclusivo (longe disso) deste Mudança Estrutural em África. Mas a migração serve de excelente exemplo da necessidade de contrariar certas narrativas sobre África, que os autores consideram prejudicá-la, como as da instabilidade e da guerra permanentes, ou as da má governação e da ausência crónica de democracia, que são marcantes na hora de se decidir investimentos ou, muito simplesmente, de escolher um destino de férias.

Carlos Lopes e George Kararach, aliás, iniciam o livro contestando uma das mais persistentes narrativas falsas sobre África, tão perigosa, por ser aparentemente tão inocente: o mapa do mundo usando a projeção de Mercator, que representa a Gronelândia e África com o mesmo tamanho, mesmo que a grande ilha no Ártico seja umas 20 vezes mais pequena do que o continente. Ninguém que olhe para um mapa habitual vai ter a noção de que África é tão grande como a soma dos Estados Unidos, da China, da Índia e da maior parte da Europa. E isso acaba por desvalorizar o papel dos países africanos na cena internacional.

Esta é uma obra complexa, que a dado momento desafia os africanos a não esquecer os danos causados pela colonização mas também a não desprezar as oportunidades que essa trouxe. É uma obra que fala muito do continente em geral, mas não deixa de referir países específicos, uns mais bem-sucedidos do que outros, com o lusófono Cabo Verde, exemplo de democracia, a estar claramente no primeiro grupo, tal como o francófono Ruanda, mesmo que este, embora tendo uma liderança eficaz, não escape a críticas de autoritarismo.

Enfim, para Portugal, cuja geografia faz de África um vizinho, e cuja história de nove séculos só pode ser entendida à luz da intensa relação com o imenso continente a sul do Mediterrâneo, este é um livro cheio de informações e de reflexões a não ignorar. Obrigado Carlos Lopes (e George Kararach) por mais uma grande lição de sabedoria.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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