Memórias de Iva Delgado

A 13 de Fevereiro de 1965, Maria Iva Delgado ficou viúva de Humberto Delgado. Quase meio século passado, em vésperas de completar 102 anos, a mulher do «general sem medo» viajou até aos dias em que Portugal viveu em ditadura. Mulher de memórias vivas, recordou as lutas do homem que amou e que morreu em nome da liberdade, as festas e banquetes diplomáticos no Canadá e nos EUA e o lado «forreta» de António de Oliveira Salazar. Há dois anos num lar de idosos, em Lisboa, Maria Iva Delgado voltou a ser aluna de francês, menina enamorada e dona de casa. Ela é a prova de que o tempo e a mente humana nem sempre apagam a história.<br /><br />
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«Filha, e o meu cabelo? O meu cabelo está bem?», pergunta numa voz expectante. Um timbre que denuncia uma mulher ansiosa e que, ali, com o corpo afundado num sofá vermelho, parece, naqueles curtos segundos, não querer mais nada da vida senão ouvir palavras de conforto. «Está lindo! O teu cabelo hoje parece uma autêntica cascata!», responde uma outra voz. Maria Iva Delgado, quase 102 anos, viúva de Humberto Delgado, sossega. A resposta da filha Iva era o que mais queria ouvir naquele momento. Vale-lhe de muito a crítica. Há muito que os seus olhos deixaram de ser seus fiéis companheiros. Já não a deixam andar sem a ajuda de um andarilho, nem ver televisão ou ler o jornal pela manhã, como fez noutros tempos. De corpo magro, pele sem rugas e lábios pintados com bâton cor-de-rosa suave, Maria Iva Delgado quer ficar bonita na fotografia da revista e, por isso, mais uma vez ajeita os cabelos finos e brancos. Tê-los bem tratados e com boa aparência é uma exigência que faz a si própria, uma herança familiar não assumida. «Sem o cabelo bonito nunca se está capaz…», desabafa.
Maria Iva Delgado, natural de Leiria, sabe bem do que fala. Um dos maiores cuidados do seu falecido marido, que ficou conhecido como o «general sem medo», era o penteado. Humberto Delgado perdeu o cabelo cedo. Dizia-se que devido ao facto de usar os colarinhos altos das fardas. Maria Iva Delgado, com quem viria a casar, tinha em mãos a mais importante das tarefas: preparar um fixador, feito de goma adragante, aplicativo no cabelo. Homem cioso da sua imagem, Humberto Delgado fazia questão de puxar o cabelo para o lado para cobrir a calvície. «Lembro-me que lhe punha aquilo e lhe fazia massagens. Ele era muito peneirento a arranjar o cabelo, era, era. Gostava de levar aquilo tudo muito bem posto», relembra Maria Iva Delgado entregando-se a uma boa gargalhada. «Qual de nós era o mais vaidoso? Talvez fosse ele… Gostava muito de se ver bem arranjado e estava-me sempre a perguntar se estava bem», recorda de sorriso maroto nos lábios.
Menos de um ano de namoro bastou para que Maria Iva Delgado aceitasse o pedido de casamento de Humberto Delgado, que foi assassinado a 13 de Fevereiro de 1965 por fazer frente ao regime de António de Oliveira Salazar. E Maria Iva conheceu-lhe bem a coragem, a audácia que trazia no peito. «Uma vez, ainda o meu marido era só meu namorado, bateu-nos à porta e apareceu carregado de carnes e pão. Nessa altura Lisboa estava muito mal, não se podia comprar nada por causa das revoluções. Foi aí que a minha avó o conheceu. E ela gostou logo muito dele. E não havia ela de gostar se foi ele que lhe trouxe a carninha e tudo de bom!», contou entre risos. E continuou: «Ela não queria que ele fosse lá a casa. Só podíamos falar à janela, mas eu já estava farta de estar à janela. E um dia disse-lhe: “Olhe, isto tem de acabar! Tem de acabar esta ideia de ele não entrar.” Mas a verdade é que quando entrou lá em casa estávamos quase a casar.» Os reencontros com as memórias dos dias passados à janela trazem-lhe felicidade. Por milésimos de segundo, o rosto de Maria Iva Delgado entrega-se a uma timidez genuína, como se o bilhete de identidade lhe tivesse devolvido a oportunidade de ser, mais uma vez, menina enamorada.
A união acontece a 26 de Fevereiro de 1930. «Eu? Casei-me em Fevereiro», precisa com uma rapidez tal que chega quase a atropelar a própria língua e os lábios. Seguem-se sete anos de casamento sem filhos. Até que Humberto Iva, Maria Humberta e Iva Humberto Delgado nascem e dão forma à família.
Foi por amor que Maria Iva Delgado apreendeu a suportar o barulho ensurdecedor dos aviões. Tinha escolhido como companheiro de vida um oficial que viria a ser director-geral da Aeronáutica Civil e que, em Março de 1945 funda a TAP – Transportes Aéreos Portugueses. No céu ou na terra, não havia volta a dar. «Os aviões metiam-me cá uma aflição mas eu nunca lhe dizia nada. Tinha de me sujeitar… Uma vez houve uma história engraçada, foi no meu dia de anos, 13 de Maio. O meu marido quis levar-me a passear de avião até Fátima. Lá subi para o avião, pus os pés lá dentro e, de imediato, fiz um buraco! Lá consegui tirar os pés, fiquei com os saltos altos todos riscados! O avião não tinha janelas nem portas, ficava com a cintura toda cá fora e, veja só o azar que eu nem levei nem lenço nem chapéu para a cabeça! Foi a maior trapalhada mas lá fomos! [risos]. Quando chegámos a Mafra começa o motor a falhar… Tive tanto medo que fiquei agarradinha ao avião… E nem podia falar com ele porque ele não me ouvia. Sabe, os aviões estavam cansados dos estudos da rapaziada!», recorda, reavivando na mente imagens daquele que foi o seu baptismo de voo.

Vida estafante
Os pés passeiam do quarto para a sala de estar. E da sala de estar para a sala de refeições. O corpo diverte-se entre um gole de chá quente e, ainda mais, quando os dentes se encontram com o bife enfiado numa fatia de pão. Na Casa dos Lilases, em Lisboa, onde Maria Iva Delgado vive, cada gesto e cada momento têm, desde há dois anos, uma hora marcada. «O que é que eu faço aqui? Não faça nada, nada, nada! Venho do meu quarto para tomar o café e do café vou para a sala. À tarde lá vem o chá… Olhe, leva-se a vida a comer e a esperar pela outra refeição!», atira, sem rodeios, fazendo rir a filha Iva, que a observa sentada a seu lado. Iva deixou a própria casa, a própria vida por amor à mãe. A voz e o toque são suficientes para que mãe e filha se entendam. São cúmplices e companheiras há anos.
Maria Iva Delgado diz que é pouco dada a conversas. Gosta mais de se deitar cedo. Todavia, em Montreal, onde viveu no final dos anos 1940, quando Salazar nomeou Humberto Delgado para trabalhar no Canadá como representante de Portugal na Organização da Aviação Civil Internacional, Maria Iva nem sempre teve um sono descansado. Os almoços, jantares e banquetes diplomáticos levavam-na até outras missões. «Conheci tanta gente… Foi uma vida estafante. Muitas vezes estava em casa e pensava que ia ficar a descansar, tocava o telefone e lá ia eu almoçar com um embaixador», recorda. «Lá tinha de ir para a mesa com pessoas que falavam línguas do diabo, vindas de países complicados. Coitados, falavam um francês que, muitas vezes, ninguém os percebia.» E de francês percebia Maria Iva muito bem. Não brincou com meninas da sua idade. Frequentou um colégio de freiras francesas onde aprendeu a língua. Depois estudou em casa e só ia fazer os exames finais ao conservatório. «Sei falar sim, ora há coisas que não se esquecem! Agora é que ando por sítios em que não tenho quem fale línguas. Se fosse preciso, lia aqui um livro e já me vinham as palavras», defendeu-se com o brio de quem está a ser submetida a uma avaliação colegial.  
Trinta e sete minutos de conversa passaram. Maria Iva Delgado refresca a boca com uns goles de água. E rapidamente regressa aos dias vividos fora de Portugal. «Para as festas ou os jantares, eu tinha uma coisa preparada… Tinha uma folha de papel na minha carteirinha, era uma lista. Lá escrevia todas as coisas que achava importante visitar em Portugal. Falava-lhes dos monumentos, das cidades e de outras coisas que podiam ver pelo país. Eles tomavam notas e, sabe, muitos dos embaixadores e embaixatrizes foram passear à custa das minhas conversas», relembrou em jeito de quem partilha um segredo.
Foi em 1952 que o casal partiu para os Estados Unidos da América. Em Washington, Humberto Delgado desempenhou funções como adido militar e depois como chefe da missão militar portuguesa, vindo a tomar lugar na comissão de Representantes Militares da Nato, no Pentágono. Por lá ficaram cinco anos.
A postura à mesa, o domínio das línguas, as jóias, as vestes e a simpatia. Nada podia falhar perante os olhos de altas figuras internacionais. Mas Humberto Delgado tinha uma outra «regra de ouro», bem mais preciosa: em circunstância alguma Maria Iva Delgado podia falar de crianças, criadas e doenças. «Mãe, o que é que o pai te dizia que nunca podias falar?», questiona Iva Delgado aproximando a sua boca do ouvido de sua mãe. «Ah, sim, sim! Ele dizia que falar de crianças, criadas e doenças não era conversa para festas! [gargalhadas] E eu cá, claro, não falava. E como eu cá tinha a lista na minha carteirinha, já tinha conversa para todos e para uma hora!», recordou rindo-se com ar de menina traquina.
Sem regras e mais felizes eram os momentos de dança levados a dois: «Ele era um homem muito forte, muito alto e puxava-me… Era muito bom. Ele dançava muito bem… enfim… foram bons tempo.»

Salazar era forreta
«Eu? Sentir medo? Porquê? Eu não era de medos. Não tinha razões para isso», atira Maria Iva Delgado. A segurança e firmeza que coloca nas palavras seriam suficientes para acreditar que nunca viveu, ao lado do falecido marido, dias de tormento, tensão e até no limiar do perigo. Engano. A determinação de Maria Iva é, na verdade, o rosto daquela que é a sua primeira falha de memória ao longo da conversa com a nm.
«Isso do “Obviamente demito-o”, o que é filha? Já não me lembro bem…», questiona intrigada à filha mais nova, Iva Delgado. «Então, mãe, foi a frase que o pai disse ao jornalista na conferência de imprensa no café Chave de Ouro, em Lisboa», clarifica-lhe Iva. «Mas quem era a pessoa que ele demitia?», prossegue de sobrolho encolhido. «Era o Salazar, mãe!», devolve-lhe. Ouvir o nome Salazar fá-la novamente regressar a si. «Ah, sim, claro, o Salazar!» [gargalhada]. O Salazar era muito forreta! O meu marido é que lhe disse “Já viu aqueles desgraçados, estão ali a trabalhar sem ganharem nada?”. E o outro virou-se para ele e disse-lhe: “Ouve lá, e eu e tu ganhamos alguma coisa?” Foi a resposta, mas o meu marido lá conseguiu que os funcionários fossem aumentados. O Salazar não dava atenção a ninguém nessas coisas…», relembra Maria Iva num discurso de novo acelerado.  
Após mais de trinta anos de ditadura, o «general sem medo» decide concorrer como candidato presidencial às eleições de 1958, acreditando que aquele era o momento ideal para derrubar o regime salazarista. Maria Iva Delgado aliou-se à luta do marido e quis exercer o seu direito de voto. Porém, apesar de cumprir os requisitos obrigatórios que permitiam às mulheres votar – ser proprietária e ter um curso – foi proibida: «É verdade, sim, não me deixaram… Os chefes daquelas coisinhas que recebiam os votos… Se fiquei zangada? Eu queria era ir para casa, estava muita polícia na rua e as pessoas eram aos montes…»
António de Oliveira Salazar, na altura no poder já há 32 anos, não protegia ou defendia o povo mas, a par da rebeldia e coragem do general que nunca temeu fazer-lhe frente, era, sim, atencioso para com a família de Humberto Delgado. «Quando as pequeninas estavam doentes, o Salazar enviava-nos flores. Se estavam constipadas, lá vinham mais flores. Era simpático… Havia que o saber levar», recorda Maria Iva Delgado.
Gravada na mente e como que soldada na alma está, sim, a memória do dia em que viajou até Espanha para reconhecer o corpo de Humberto Delgado. «Eu cheguei lá mais o meu filho Humberto. Estava num tal estado, estava sempre a tremer. E o juiz espanhol é que me disse: “Esta senhora não vai àquela sala porque não está com saúde que lhe permita entrar.” E foi verdade, não me deixou entrar. O meu filho é que ficou bem feliz com isso, porque também não queria que eu fosse, mas se fosse só o meu filho a dizê-lo, ai eu tinha entrado!», descreveu de olhos embargados de tristeza e saudade. «A gente não é de ferro e, então, naquelas condições em que ele estava. Foi um horror, um horror», completou.
Vítima de uma fraude eleitoral e depois de várias tentativas para derrubar o regime, Humberto Delgado, expectante de uma nova revolta, chega a Badajoz convencido de que vai ao encontro de militares apoiantes da sua causa. Acompanhado de Arajaryr Campos, a secretária brasileira, entra num automóvel do pide Ernesto Lopes Ramos, que o leva até Los Almerines, um local próximo de Olivença, onde acaba por ser dominado e morto pela brigada da PIDE chefiada por Rosa Casaco.
Maria Iva Delgado nunca mais tocou piano. «Na altura em que o meu pai faleceu ela fechou-se, perdeu a motivação para viver. E isso durou cerca de três anos. Eu era a única pessoa que entendia a depressão dela… Dizia-lhe pela manhã: “Mãe, hoje está mal?” E ela respondia-me: “Está péssimo!”», relembra Iva.  
O nome António de Oliveira Salazar tornou-se irrepetível. Em conversas, na rua, em casa. «Numa família há assuntos que se tornam tabu, não se fala do que é mais penoso… E não era preciso falar da morte do meu pai. Ou do Salazar. Há assuntos que estão tão enraizados dentro da nossa mente. E a minha mãe é o repositório em pessoa de toda essa experiência. Sinto-a como aquelas mulheres sábias que são confrontadas com uma tragédia e que sabem que não há que repisar o passado, há sim que seguir o caminho, andar em frente», afirmou Iva, presidente da Fundação Humberto Delgado e que hoje faz intervenções em escolas onde conta aos mais novos o legado histórico do seu pai e de outras personalidades que fizeram a diferença durante a ditadura.

Velas para os 110
«Maria Elisa Iva Tavares de Andrade Theriaga Leitão da Silva Delgado. Sim, é um nome grande mas eu nunca assino isto tudo. Corto onde quero, escrevo como quero, como me dá na cabeça!», conta entre risos. Toda a vida se viu do avesso para dar conta do nome, e assim escolheu ser chamada de Maria Iva.
Perto dos 102 anos, até fazer ginástica pela manhã se tornou uma tarefa bem mais fácil. «Como é que faço? Com as pernas, para ficar valente. Só que agora saiu-me aqui uma coisa… Vê-se o osso, tem saído com tanta ginástica», revela Maria Iva Delgado com um sorriso malandro, enquanto, já sentada no sofá da sala de convívio, exemplifica o exercício e ergue a perna direita.
A filha Iva crê que a longevidade da mãe tem duas causas: «Acredito que tudo se resume à existência da Quinta da Cela Velha, no concelho de Alcobaça, que é o lugar onde ela continua a gostar de ir, e à minha existência. [risos]. Eu faço questão de lhe comprar sempre coisas novas. Ela sempre teve a mania de guardar coisas e julgo que o facto de eu continuar a fazê-lo ajuda-lhe a criar horizontes pessoais e temporais. E tenho uma outra teoria que é fazê-la rir um bocadinho todos os dias. Às vezes até invento disparates», completou Iva.
Distante dos dias de conquistas e derrotas políticas do falecido marido, Maria Iva Delgado, mulher sem doutrinas, religiões e para quem «existe apenas a realidade», é hoje totalmente avessa à política. «Acho piada ao Cavaco [Silva] por causa do nome. Mas nunca quis saber dessas coisas. Não me agrada nada. O que é preciso é que os políticos sejam sérios. É uma maçada e há quem fique com a vida estragada por causa da política…»
A vértebra prática que a acompanhou durante toda a vida e que ajudou Humberto Delgado na hora de agir já a fez tomar uma decisão: só volta a soprar uma vela de aniversário quando completar 110 anos. «Os anos 102, o 103 e o 104 não têm piada nenhuma! A graça é festejar-se os números grandes!», brinca.
Os olhos de Iva viram-se mais uma vez para o rosto da mãe e identificam um possível sinal de perigo. «Mãe, estás com o olho um pouco inflamado…», diz-lhe Iva Delgado, agora ela e em vez da mãe, ansiosa por uma resposta. «Foi da laca que me puseram hoje no cabelo!», devolve-lhe. «Pois claro, a laca. Tu até tens mais cabelo do que eu!», diz Iva. «Achas?», questiona, intrigada, a mãe. «Claro! O teu cabelo está tão forte», responde a filha.
Maria Iva, figura matriarca que reúne à sua volta 32 descendentes, não está muito segura de que tenha um cabelo forte e bonito. Pouco importa. Guarda dentro de si a melhor das certezas: «O meu marido, o general, era um homem inteligente, muito franco e muito justo.»
Ano após ano, Maria Iva Delgado celebra o 25 de Abril na Cela Velha. Nunca falta. Já faltam poucos dias para voltar ao lugar onde o povo mandou erigir um monumento de homenagem a Humberto Delgado, ele que foi um precursor da luta dos capitães de Abril.

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