"Medida de emergência" da Ajuda contra trotinetas obrigou câmara a negociar lugares de estacionamento

O caos nos passeios e passividade das autoridades levou a Junta da Freguesia da Ajuda a levar as trotinetas abandonadas para o depósito de Higiene Urbana. Uma medida que obrigou a maior fiscalização da Polícia Municipal e fez com que a autarquia ouvisse a proposta da junta.
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"Se não vai com conversa, irá com outras medidas." Foi com este espírito que Jorge Marques, presidente da Junta de Freguesia da Ajuda, decidiu começar a recolher as trotinetas que se amontoavam nos passeios da Ajuda, depois de tentar, sem sucesso, que Câmara de Lisboa, Polícia Municipal e PSP tomassem medidas para resolver a situação.

Tratou-se de uma solução de emergência da qual resultou a melhoria da circulação pedonal dos moradores, mas também fez com que polícia e as empresas concessionárias destes veículos passassem a ser mais ativas. Permitiu ainda que junta de freguesia e autarquia estejam agora a negociar a colocação de dezenas de espaços legais para o estacionamento das trotinetas.

"Até este ano, não tínhamos este problema na Ajuda não era um problema. Sabíamos que no centro da cidade era muito intenso, mas aqui era pontual e vivíamos bem com isso. Em junho ou julho surgiram um conjunto de circunstâncias que espoletaram uma situação que se tornou completamente impossível de gerir, nomeadamente o verão, o aumento de turistas na cidade e a abertura do Museu do Tesouro Real. Passou a haver uma procura muito maior de trotinetas na freguesia, tornou-se impossível percorrer algumas das artérias da freguesia. Tínhamos pessoas que caíam constantemente, tinham de ir para a estrada porque havia um amontoado de quatro, cinco ou seis trotinetas", conta Jorge Marques ao DN.

O presidente da Junta de Freguesia da Ajuda diz ter falado, na altura, com Ângelo Pereira, vereador da Câmara de Lisboa para a Mobilidade, com Carlos Moedas, presidente da autarquia, com a Polícia Municipal e até com a PSP para tentar resolver a situação. "Não via maneira de resolver o problema, as pessoas continuavam a ter dificuldades em usar o espaço público e era até um risco para quem o usava. No fundo, eram objetos que ocupavam indevidamente os passeios. Por isso, começámos a tratá-los como tratamos qualquer outro equipamento", contou Jorge Marques, revelando a solução encontrada: "Quando encontramos um televisor no passeio, levamo-lo para o depósito municipal de Higiene Urbana. Foi isso que fizemos com as trotinetas durante umas semanas e pelos vistos surtiu efeito."

A partir desse momento "a Polícia Municipal passou a aparecer mais vezes, os operadores também começaram a ter mais cuidado com os sítios onde deixavam as trotinetas mal paradas". "Hoje a relação com as trotinetas é um pouco mais pacífica, não é a melhor, pois ainda se veem trotinetas espalhadas nos passeios, mas já diferente do que tivemos nos meses de julho e agosto", sublinhou.

No entanto, Jorge Marques garante que se a situação voltar a piorar não hesitará em recorrer à mesma solução. "Temos a competência e a obrigação de manter as ruas limpas, desocupadas e seguras, como tal faremos isso com trotinetas ou com qualquer outro equipamento que coloque isto em causa", assumiu.

Esta "medida de emergência", como lhe chama Jorge Marques, teve também o mérito de a junta e a câmara iniciarem uma negociação relativamente à localização de sítios adequados para estacionar as trotinetas. "Fizemos uma proposta de mais de 30 locais que nos pareceram adequados para os utilizadores poderem deixar as trotinetas. A câmara, entretanto, respondeu-nos e estamos em negociações sobre as várias soluções", referiu, revelando que está a ser preparada, em conjunto com a autarquia, "uma solução" legal para o estacionamento em determinadas zonas. Jorge Marques indica que, atualmente, existem cerca 15 locais na freguesia.

Quanto às datas para que os novos espaços entrem em funcionamento, o presidente da Junta de Freguesia da Ajuda diz que depende da Câmara de Lisboa. "Estamos a negociar lugar a lugar, até porque alguns deles conflituam com o espaço público e com a perda de estacionamento automóvel", revela, lembrando que é preciso acautelar todas as situações.

A decisão de recolher as trotinetas das ruas da Ajuda, levando-as para o depósito de Higiene Urbana, suscitou a mais variadas reações. "Alguns não concordaram porque associavam isto a um ataque às bicicletas e às trotinetas, bem como aos seus utilizadores. Nada disso, quem nos dera até ter as bicicletas GIRA na Ajuda. Não as temos, mas já fizemos o pedido", justifica Jorge Marques.

O presidente da junta não sabe quando serão instaladas as estações GIRA na sua freguesia, mas diz ter a promessa do presidente Carlos Moedas e do vereador Ângelo Pereira. "Não é só importante para a população que cá reside, mas também para uma população flutuante do nosso polo universitário no Alto da Ajuda com o ISCSP, a Arquitetura. Temos ainda, ao lado, o Instituto de Agronomia, a Veterinária. São mais de nove mil alunos diariamente, para quem era fundamental a estação e a rede de bicicletas GIRA", refere Jorge Marques, lembrando que "estas novas bicicletas elétricas resolvem o problema das inclinações" típicas da freguesia da Ajuda.

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