O pai ausente. É a esta ideia que o venezuelano Lorenzo Vigas tem dedicado o seu cinema, desde a curta Los Elefantes Nunca Olvidan (2004). Na longa-metragem seguinte, À Distância, que lhe valeu o Leão de Ouro de Veneza em 2015, esse tema surgia através da relação entre um homossexual de meia-idade (o chileno Alfredo Castro) e um jovem marginal das ruas de Caracas. Agora, a fechar a trilogia, La Caja - A Caixa situa na aridez do norte do México o drama de outro adolescente que, de passagem numa cidade industrial para recolher os restos mortais do pai, se depara com um homem muito semelhante ao que, supostamente, estaria dentro da caixa que o próprio carrega de volta para casa... Um rosto, para ele, só reconhecível pelas fotografias..A crença, ou a vontade de acreditar que houve um engano torna-se tão fervorosa que Hatzín, o rapaz, acaba por se deixar ficar na cidade, abordando e perseguindo o corpulento Mario - que lhe diz sempre não ser o seu pai - até este ceder de alguma maneira e aceitar a companhia do miúdo. Temos então o início não de uma bela amizade, mas de uma enxuta lição de vida que começa quando Hatzín se apercebe das "zonas escuras" do ganha-pão dessa figura paterna, que lucra com o processo de contratação de trabalhadores migrantes para fábricas, usando da simpatia para esconder as duras condições que vão encontrar. Pior: as ambições de Mario, disfarçadas neste quotidiano de recrutamento de "gado" humano, inscrevem-se ainda num regime de imoralidade que vai dando conta de uma violência maior sussurrada pela paisagem deserta..Aí, Vigas já não está tão focado no mistério da paternidade (que, de resto, perde relevância pelo caminho), mas também não entra completamente no registo do filme social. Fica-se pelo olhar opaco do miúdo, que não permite identificar em que ponto os sentimentos de um ser inocente entram em choque com a realidade..Nesse olhar opaco, que faz justiça a algumas cenas, está também representado o intervalo que nos separa de um envolvimento maior com o que se passa em La Caja. Digamos que Lorenzo Vigas prefere a ambiguidade levada ao extremo: não interessa saber porque é que alguém faz o que faz. Ainda assim, não deixamos de sentir (o espectador sente, para além de ver) que uma das ações finais de Hatzín não bate certo com a personagem. O seu perfil e inteligência não sustentam a transformação momentânea sugerida pelo argumento de Vigas e Paula Markovitch, por muito que a experiência vivida procure justificar logicamente os atos. Algo falha aqui no plano dramático. Não porque o argumento seja frágil - sem dúvida que é mais consistente do que o do sobrevalorizado À Distância - mas porque, à mercê de uma ambiguidade demasiado vincada, o espectador fica numa posição fria, sem muita margem para se importar com o dilema de Hatzín. Seguimos-lhe apenas os passos através da realização competente de Vigas, que não deixa escapar o músculo da atmosfera mexicana, mas fica um pouco à deriva na crónica de uma busca de identidade. Lição de vida: o melhor é matar (simbolicamente) o pai..dnot@dn.pt