Martin Scorsese apresenta

Importante compreender a força de Martin Scorsese como produtor, sobretudo nos últimos anos. Têm sido muitos os filmes independentes que não dispensam colocar no póster a frase: "<em>Martin Scorsese presents</em>"...
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A par de ser um cineasta que é um ativista da memória e da História do cinema, Martin Scorsese é também um pensador do cinema contemporâneo. Alguém que é mestre em usar o seu nome para viabilizar projetos de outros cineastas em que acredita, entre amigos e novas esperanças. São cada vez mais os títulos que nos seus créditos têm o seu nome na lista de produtores, mesmo não sendo um produtor na verdadeira aceção da palavra. Quando um filme recebe Scorsese na ficha técnica é uma forma de bênção, um ato de apoio. De alguma forma, um apoio simbólico que ajuda a angariar financiadores e dá ao cinéfilo um sinal forte de interesse. E, verdade seja dita, não é agora comum o seu nome estar nos créditos de objetos menores. Scorsese, que tem produzido igualmente os seus filmes, tem um faro raro par encontrar talento. Não é à toa que o seu nome está ao lado do de Steven Spielberg na ficha que se lê no ecrã de Maestro, de Bradley Cooper, o vibrante filme sobre Leonard Bernstein que chegará aos nossos cinemas para o mês que vem. Spielberg e Scorsese juntos neste projeto da Netflix é um recado a Hollywood para reforçar a importância de reconhecer o valor de Cooper como cineasta. São esse tipo de gestos que confirmam a excelência da visão de Scorsese.

Do vasto rol de apostas de Scorsese há uma recente que é insólita mas não menos certeira: The Eternal Daughter, de Joanna Hogg, conto de fantasmas com uma Tilda Swinton em versão dupla. Uma parceria com uma cineasta cinéfila inglesa que já dura. A má notícia é que ainda não tem data para a estreia em Portugal... Dos tais parceiros que não deixa cair está o inevitável Paul Schrader, cineasta que só conseguiu fazer o irrepreensível The Card Counter - O Jogador devido ao empenho de Scorsese. Nunca é de mais lembrar que Schrader é o autor do argumento de obras como Taxi Driver, A Última Tentação de Cristo ou Por um Fio. Curiosamente, o seu mais recente, O Mestre Jardineiro, já não tem o seu nome, por sinal, francamente menor em comparação com The Card Counter... E, como gerador de projetos, é também uma figura que toma riscos: deu o seu nome para Pet Shop Days, de Olmo Schnabel, a primeira obra do filho de Julian Schnabel, obra que atraiu um elenco onde pontificam Willem Dafoe e Jordi Mollà mas que saiu do Festival de Veneza sem grande apoio da imprensa e do mercado. Risco também em apoiar um dos "filhos" de Sundance, John Carney, realizador maldito nos festivais europeus. Depois de Flora e Filho, atualmente na Apple+, Fascinating Rythm terá a bênção de Scorsese.

O bom gosto de Scorsese a aliar-se aos projetos de quem acredita comprova-se em títulos como o inédito Free Fire, um dos melhores de Ben Wheatley, Anatomia do Golpe, de Stephen Frears, Podes Contar Comigo, de Kenneth Lonergan, Pieces of a Woman, de Kornél Mundruczó, Diamante Bruto, dos Safdie, ou Passadores, de Spike Lee. Impressionante a lista, mas também fora dos EUA, veja-se a sua precisão em Itália: Feliz como Lázaro, de Alice Rohrwacher, e A Ciambra, de Jonas Carpignano, este ao lado do brasileiro Rodrigo Teixeira, produtor que o terá sabido chamar.

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