Tem toda a razão de ser o contentamento de Martim Galamba com o vídeo que Audra McDonald gravou sobre o seu entusiasmo em vir a Portugal para uma cimeira de teatro musical esta semana, uma iniciativa da Music Theater Lisbon (MTL), com o apoio da Embaixada dos Estados Unidos. A estrela da Broadway, de musicais como Porgy and Bess, vencedora recordista de seis Tony Awards, até começa o vídeo a dizer "bom dia" em português..Conheci Martim Galamba quando quis entrevistar Rob McClure, outra figura da Broadway que a sua MTL trouxe a Portugal. E descobri um ator empenhado em construir uma carreira mas também um empresário cultural com uma dinâmica extraordinária. Estou a falar de um lisboeta de 28 anos, formado em Direito pela Nova, mas que deixou qualquer ideia de vir a ser advogado quando se lançou numa aventura na América: "Parti para Nova Iorque, onde estive três anos, para estudar Musical Theatre, na American Musical and Dramatic Academy (AMDA). Desde que me lembro que era apaixonado pelo mundo do espectáculo. Com três anos ia à ópera, ao ballet ou ao teatro com a minha avó e os meus pais. Não sei se eram eles que me puxavam ou se era quase eu que os obrigava a irem comigo. Simplesmente adorava. Em casa, as brincadeiras passavam por criar espectáculos, sobretudo num caixote de madeira feito pela minha mãe e que fazia as vezes de Teatro"..Apesar da paixão precoce pelo espectáculo, houve momentos de dúvida, admite Martim Galamba: "Na adolescência, tentei afastar-me do mundo das artes, pois convenci-me de que a vida artística era demasiado instável. Fui para Direito - o que quer que acontecesse, teria o curso como salvaguarda. Justamente enquanto estava em Direito, no período em que vivi em Itália, em Erasmus, compreendi que não era mais possível estar de costas voltadas para o showbiz. Comecei a frequentar aulas de representação em Lisboa e depois de várias audições que fui fazer a Londres e Nova Iorque, rumei ao meu local de eleição - a AMDA"..Da experiência em Nova Iorque, nasceu o objetivo de um dia trazer a Portugal "a forma de Teatro Musical que considero ser a mais aprimorada e elevada, o Teatro Musical norte-americano, de resto, o país que deu ao mundo este género de arte". Aqui recordo, para dar toda a razão a Martim Galamba, o título da tal entrevista no DN a Rob McClure, estrela de Chaplin e Mrs. Doubtfire: "Musicais são uma forma de arte americana. O teatro musical começou nos Estados Unidos"..Quando pergunto ao fundador da MTL qual o musical preferido, percebo a dificuldade em escolher um, sobretudo para quem tanto sabe. "Sou apaixonado por Sondheim - o Shakespeare de Teatro Musical - e dele elejo dois espectáculos, Company e Follies. Cabaret é outro dos meus musicais favoritos. E para quem nunca viu um musical, aconselho o Lion King - um verdadeiro statement de como um musical pode transportar-nos para um mundo mágico e avassalador, alicerçado num minucioso trabalho de criação multicultural, com etnografia asiática e africana"..Foi em junho que a MTL celebrou o primeiro aniversário. "Era minha convicção permanecer nos EUA por muitos anos, e um dia poder vir dar algum tipo de contributo ao meu país, mas tudo acabou por acontecer de forma diferente. Num verão em Portugal, os trabalhos como ator começaram a surgir (que ainda mantenho, por exemplo, dando vida a várias personagens históricas como o rei D. Luís, no Palácio da Ajuda), trabalhos que poderiam vir a ser benéficos para o visto artístico nos EUA. Começou a ocorrer-me que talvez o melhor momento de trazer o Teatro Musical para Portugal, como o havia vivido em Nova Iorque, fosse mesmo o tempo presente e não num futuro distante". Assim nasceu o sonho da MTL, que em junho de 2022 já era real, com o primeiro convidado da Broadway a pisar solo português, conta o ator-empresário, sublinhando que este é um projeto a três.."Juntamente com os atores Sissi Martins, que havia sido minha professora, e Rúben Madureira fundámos a MTL, com a missão de criar uma indústria de Teatro Musical em Portugal", explica..Com este sonho de trazer a Broadway para Portugal, a equipa da MTL pôs mãos à obra, consciente de que está a partir quase do zero e portanto a formação é vital. "A MTL está a trazer como formadores alguns dos maiores nomes das artes performativas, vindos da Broadway, para qualificar artistas portugueses (e também já participantes vindos de outras partes da Europa). A lista inclui vencedores e nomeados para prémios Tonys, como Rob McClure ou Audra McDonald - a única pessoa até hoje a vencer seis "óscares do teatro" e a única atriz a vencer em todas as quatro categorias de atuação, além de um Emmy e dois Grammys - até professores e coaches de celebridades como Matt Farnsworth ou Elaine Petricoff", conta Martim Galamba, que conseguiu apoios importantes, caso da embaixada americana mas também da Junta de Freguesia do Lumiar, em cujo auditório de Telheiras decorre o essencial das atividades. Esta semana, a MTL organiza o primeiro Summit de Teatro Musical em Portugal, contando com o apoio da Câmara de Lisboa.."Este summit é composto por um programa que inclui workshops intensivos e masterclasses dados por atores da Broadway, uma conversa intimista com Audra McDonald no dia 12, e ainda um showcase de encerramento, com os Jardins do Museu Nacional do Teatro e da Dança como pano de fundo, no dia 16. Atores de toda a Europa rumam a Lisboa para participarem nestes cinco dias de celebração artística", diz Martim Galamba, que pensa já nos próximos passos da MTL, que deverão ser espectáculos. "Mantendo e robustecendo a ponte construída com a Broadway, aproveitando e estimulando o talento nacional formado, o objetivo é chegar ao grande público português, com criações originais de jovens talentos nacionais e também com adaptações, dando assim um novo contributo para o tecido cultural e artístico nacional, e fazendo com que Lisboa passe a ser sinónimo de Teatro Musical de referência"..O fundador da MTL não tem problema em assumir-se artista e empresário. Até considera haver vantagens nessa dupla condição: "um empresário que só saiba fazer dinheiro estará esgotado a médio prazo, um artista que não tenha uma visão empresarial terá recursos limitadíssimos, por mais genial que seja a sua criação"..Recordo-me de há uns meses ver Martim Galamba à conversa com Rob McClure no Auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, e também com os jovens portugueses que estavam ali para aprender mas que revelavam já grande talento, como Bárbara Dias, de 20 anos, Maria Prata, de 23 anos, e Manuel Encarnação, de apenas 15 anos, surpreendente a interpretar Proud of you Boy, de Alladin. E deu para perceber que se depender da MTL, Portugal pode mesmo vir a ser um país do teatro musical de grande qualidade. É esse o compromisso de Martim Galamba: "Aquilo que quero mesmo que as pessoas possam compreender em Portugal é que é possível encher salas de espectáculos com criações de qualidade e que o teatro pode mesmo dar um novo ímpeto a toda uma comunidade, com inúmeros efeitos multiplicadores nos mais diversos sectores em cadeia. Não pretendemos ser uma cópia da Broadway, isso não é possível. O que pode ser interessante é criar uma Lisboa musical - isso ainda não existe".