No próximo dia 8 de setembro realizar-se-ão eleições legislativas, municipais e regionais em Marrocos. De um universo de cerca de 36 milhões de súbditos, há perto de 18 milhões de eleitores registados, dos quais 46% são mulheres. Não votarão naturalmente todos/as, sendo que a taxa de abstenção é sempre apresentada em países que escrevem da direita para a esquerda também ao contrário. Ou seja, esta percentagem é sempre apresentada enquanto "taxa de participação". Neste capitulo, a tendência dos últimos anos indica um aumento crescente da abstenção, pelo que dos 18 milhões apenas cerca de 40% irão às urnas. Outro detalhe muito particular deste outro mundo magrebino e árabe (o árabe a partir da fronteira líbio-egípcia) é o facto de polícias e militares estarem inibidos de votar! Porquê? Porque o indivíduo quando adere a estas forças deixa de existir enquanto tal, passando a fazer parte integrante do Estado, do poder, e este, na tentativa de demonstrar independência perante o cidadão, decidiu não querer capitalizar estes votos nem dar azo a ideias alternativas aos seus, quando se encontram no segredo, para lá da cortina fechada da mesa de voto. Quanto aos cidadãos, confirmei com surpresa que concordam com esta medida, já que temem ser agarrados pelo braço e obrigados por um ou dois fardados a votarem neste ou naquele partido ou candidato. Este detalhe deu-me a perspectiva de como um/a marroquino/a ou outro/a magrebino/a qualquer encaram as forças de segurança. Como ameaça e não como protecção. No fundo, eles são a lei e a grei!.O que está em jogo nestas eleições de 8 de setembro?.Relativamente a Marrocos, enquanto monarquia, é preciso ter presente que o governo não governa, mas segue as "altas instruções de sua majestade", como se ouve nas rádios e televisões, e a este responde directamente. O súbdito marroquino está bem ciente disso dando assim ao monarca crédito total pelas melhorias de condições de vida atingidas e ultimamente pela gestão da pandemia. Outra característica marroquina, que reforça o poder do Palácio, é o sistema eleitoral e o modelo matemático do método de Hondt utilizado nunca permitirem ao partido vencedor uma maioria clara, obrigando sempre a coligações entre três ou quatro partidos, muitas vezes nos antípodas uns dos outros, para a formação do governo..Neste ano procedeu-se a uma revisão da lei eleitoral, que reforça o poder de eleição nos pequenos círculos em detrimento dos grandes círculos. O objectivo é, claramente, provocar um reviralho que faça que os islamistas do PJD percam as eleições no seu próprio terreno. Os círculos mais pequenos são sobretudo rurais, onde se encontra o eleitorado islamista, mas o legislador também sabe que os marroquinos votam mais em pessoas do que em partidos e o jogo disputa-se entre os dois maiores parceiros governamentais, o Partido Justiça e Desenvolvimento e o RNI, Rassemblement National des Indépendants que, pelo número de candidatos totais apresentados, 25 491, em muito superam os 8681 do PJD. O RNI aposta sobretudo em notáveis das diferentes comunidades de Tânger a Lagouira, para derrotar os islamistas e permitir também uma maior sintonia entre Executivo e Palácio. Por outro lado, esta derrota, a acontecer, poderá também servir de bandeira para uma próxima tendência magrebina e por extensão árabe, a de remeter os partidos islamistas para aquilo que fazem melhor, oposição e não acção!.Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt. Escreve de acordo com a antiga ortografia