Margarida Vila-Nova: "Coloco muitas vezes em causa esta profissão"

Crítica, directa, frontal e determinada. Em entrevista, Margarida Vila-Nova recorda a infância, conta como foi passar a adolescência a trabalhar, critica a forma como se trabalha em televisão, esclarece a relação com a imprensa e ainda fala da experiência como mãe de Martim.
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Pode dizer-se que tem 20 anos de carreira? Seis anos não é muito cedo para se começar?
Nunca considerei a idade com que pela primeira vez experimentei representar. Aos seis anos não temos consciência daquilo que estamos a fazer, até podemos gostar, fazer com convicção, com disciplina. Mas aos seis anos ninguém sabe o que quer da vida, ainda hoje aos 26 anos não sei o que quero...

Mas já sabe mais do que aos seis...
Sim (risos). A data que eu estipulei foram os 17 anos, quando me estreei com as Confissões de Adolescentes. E na altura estava a fazer a novela Fúria de Viver, o primeiro trabalho que fiz com mais visibilidade, com mais responsabilidade, ao lado da Rita Loureiro, do João Perry, Maria João Luís. O início do meu percurso profissional começou aqui, embora todas as minhas experiências anteriores fizessem de mim o que sou hoje. Levaram-me a tomar esta decisão de ser actriz. Quer dizer, quis ser caixa de supermercado, educadora de infância, mas sempre quis ser actriz. 

E no cinema, com que idade experimentou a representação?
A primeira vez foi aos 14 ou 15 anos com A Falha do João Mário Grilo.

Com 26 anos já tem dificuldade em recordar--se das datas em que se estreou…
Sim (risos), mas eu sou péssima em datas... de projectos, de aniversários… mas espero bem que continue assim, para não ter de enfrentar a dura realidade dos anos a passar…

Essa forma de ver as coisas, de não decorar as datas, a sua impulsividade, de fazer várias coisas ao mesmo tempo… tem a ver com o seu signo, Gémeos?
Nunca pensei se era Gémeos, Marte ou Vénus que fazia de mim como sou. Sempre me conheci assim, considero-me uma eterna miúda. Não penso que vou calçar uns ténis ou vestir uns jeans para contrariar a idade que tenho. Sou assim naturalmente. Não paro para pensar na idade que tenho, sempre fui uma mulher impulsiva, determinada, de causas, de vontades, de acreditar que tudo era possível, que tínhamos a responsabilidade de fazermos mais por nós, pelos outros, que tínhamos um papel importantíssimo enquanto cidadãos de uma cidade ou de um país, de agir e intervir como cidadãos que somos. E isso fez com que eu montasse uma produtora de teatro, fizesse os projectos que acreditava, fez com que eu aceitasse ser mandatária da juventude pelo António Costa...

Mas não acredita nos astros, já percebi…
Não sei se acredito ou não, sou naturalmente curiosa, gosto de ler, gosto de saber, conheço os signos, os ascendentes, sei onde é que está a Lua, onde é que está o Sol… Não condiciono a minha vida pelos astros, porque não fico à espera que os astros se mexam lá em cima para a minha vida melhorar cá em baixo. Sou eu que tenho de fazer por mim. Acredito no que sou, no que quero fazer e nas pessoas que me rodeiam.

Isso tem sido sempre assim? Foi uma infância/adolescência a trabalhar?
Sim. Fui sempre estudante, essa era a minha primeira obrigação e responsabilidade. À parte disso fiz pequenas participações. Cedo me escrevi em agências de castings de corpo, de voz de teatro. Lembro-me de as tardes livres do liceu não as passar no café à conversa com as minhas amigas. Ia para os estúdios da Teresa Guilherme gravar os Jornalistas ou ia para a NBP gravar o Bairro da Fonte, passei o Verão a filmar A Falha, a fazer o flasback da Alexandra Lencastre. Habituei-me a que fosse assim, e gostava. Tive uma infância e uma adolescência muito felizes.

Pode falar-se em perder ou em ganhar?
Perdemos e ganhamos sempre muitas coisas na vida. Na altura, qualquer escolha que tenha feito foi a mais certa. Se calhar podia ter feito outra opção e se calhar faria mais sentido, mas hoje eu não seria a mesma pessoa. Os erros, as falhas, os obstáculos servem para crescermos, amadurecermos e percebermos mais tarde o que é que não queremos. A minha infância e adolescência, embora tenham sido diferentes, foram muito felizes. Tenho boas memórias e não me lembro de não ter ido de fim-de-semana, de férias…

Começou a ganhar dinheiro cedo?
Foi o menos importante durante esse meu crescimento. Se calhar ao final do mês podia comprar a revista, os ténis, o CD dos Green Day. Mas o dinheiro nunca foi importante nessa altura.

Mas fez um pé-de-meia?
Sim, mas na altura eu ficava era fascinada com tudo o que se passava à minha volta. E queria ser grande. Não me deslumbrei com a fama porque na época em que comecei a trabalhar o conceito de fama, popularidade, autógrafos não existia, era muito diferente. E hoje em dia continuo sem saber muito bem lidar com a fama. Porque faço parte de outra geração e quando comecei a trabalhar não existia este mercado.

O que é que a fascinava?
Ver a Teresa Roby ou a Alexandra Lencastre a representar. E eu pensava "quando for grande quero representar assim".

Sonhava ser como alguém?
Quando somos crianças queremos sempre ser como alguém e temos ídolos. A Alexandra foi um deles, a Paula Guedes, a Teresa Roby. Aprendi a representar a ver os outros representar. Via as actrizes a serem maquilhadas, a prepararem os cabelos… foi a minha escola. Eu sempre acreditei que a vida era maravilhosa. Sempre achei que tudo era possível na vida, que com amor tudo era possível, que podíamos acreditar em nós e nos outros. E ainda hoje acredito.

Há alguma coisa que a tenha desiludido?
Não. Há muitas coisas de que eu não gosto, que em certas alturas me magoaram.

Quer dar um exemplo?
É uma profissão muito dura, de risco, de exposição e muito delicada. Diariamente mexemos com egos, com sensibilidade, com emoções, com colegas com quem nos identificamos mais, outros menos. E há sempre experiências que às vezes podem ser difíceis ou dolorosas, mas essas mesmas são aquelas que nos dão uma força e uma garra para os anos que se seguem. É muito duro uma pessoa criar muitas expectativas em relação a um casting e não ser escolhida. Já me aconteceu várias vezes e eu não deixo de ir...

Qual o pior 'não' que já ouviu?
Lá está… não me consigo lembrar porque essas experiências esqueço-as na minha vida. Foi em cinema talvez, mas em televisão também. Muitas vezes nem sabemos para que é que estamos a fazer o casting. Mais do que o filme ou a peça de teatro para a qual não fui escolhida, é sempre difícil ouvir um não. Porque nos põe em causa e nos questionamos. Não consigo não me questionar, e não me perguntar o que é que fiz mal, onde é que eu errei, o que é que posso melhorar, quais são as minhas fragilidades, se eu tenho o estofo ou a capacidade de viver uma vida inteira a ser posta à prova e a ser qualificada ou avaliada.

Isso faz-lhe pôr a profissão em causa?
Coloco muitas vezes em causa esta profissão e muitas vezes tenho vontade de desistir, como depois me arrependo redondamente de me ter passado tal ideia pela cabeça. Obrigo-me a pôr em questão para que as ideias sejam mais claras na minha cabeça. É muito fácil acomodarmo-nos, sobretudo em televisão, porque é um meio muito facilitado e cada vez está a ser mais facilitado. É um trabalho bem remunerado, com x horas por dia de trabalho, x dias por semana, numa lógica que muitas vezes não exige ao actor uma dedicação, uma entrega total e profunda.

Esta industrialização da ficção pode ter a ver com isso?
Sim, cada vez mais. Há produtos onde está a ser investida alguma qualidade, posso falar do Equador, dos vampiros, embora não acompanhe porque não vejo televisão no meu dia-a-dia, mas já vi imagens. Não nos podemos esquecer deste grau de qualidade que se está a procurar. Mas isso são séries e investimentos pontuais.

E nas novelas?
De uma maneira geral, cada vez há menos dinheiro a ser investido na televisão, consequência da publicidade estar em queda, da crise que estamos a viver, o que obriga muitas vezes a descer a qualidade na cenografia, nos figurinos, na equipa técnica, nos guiões e isto depois reflecte-se num produto final. Tenho consciência do momento que estamos a viver actualmente. Quando me dou conta de que há cinco anos trabalhávamos com uma maior entrega, um maior brio, procurávamos ser melhores... Hoje em dia não encontro essa luta diária nos estúdios de gravação. E às vezes lamento, fico triste, aborrece-me. Mas eu também tenho de olhar para o lado e perceber que estamos a passar por uma crise mundial financeira, que as televisões não têm dinheiro, que os produtores não podem fazer mais, e que isso se reflecte no produto final.

Foi por isso que alguns actores se queixaram das suas personagens em Sentimentos, por exemplo?
(Silêncio) Sim, acho que sim. Se houvesse um investimento maior se calhar havia mais pessoas a escrever, pessoas qualificadas, podia haver uma aposta, e essas pessoas irem fazer estágios lá fora. Não sei qual é a solução, nem me cabe a mim encontrá-la. Para mim o desafio de trabalhar em televisão neste momento é trabalhar na dificuldade e no limite e no risco. Embora possa estar a ser feito com menos seriedade ou (pausa) com menos brio do que estava a ser feito há uns anos, eu encaro um projecto de televisão com tanta seriedade como um de teatro ou cinema. Não consigo ir trabalhar contrariada com aquilo que estou a fazer ou em desacordo. Dizer mal é o mais fácil. Há quem não concorde, mas também não tome uma posição e vai deixando estar como está, e recebe o mesmo no final do mês. Prefiro pôr-me em questão.

O facto de criticar e mostrar o desacordo pode ser encarado como mau feitio?
Sim, acho que as pessoas que mais se debatem na vida, que mais contestam, se opõem ou lutam por algum ideal muitas vezes são encaradas como um peso ou uma pedra no sapato. Mas não sei se é essa a imagem que passo ou que tenho. Sei que tenho muito boas relações com as pessoas com quem tenho vindo a trabalhar, ainda que às vezes tenhamos opiniões divergentes. Os actores têm um papel importantíssimo na sociedade porque a televisão chega a um milhão de pessoas diariamente. Acho grave quando os textos não estão correctos e, do ponto de vista médico, por exemplo, podem induzir as pessoas em erro. As séries infanto-juvenis podem transmitir uma leviandade aos colégios que acho errada, tem de haver cuidado.

O caso dos Morangos com Açúcar…
Por exemplo.

O Mundo Meu, onde fez de Rita, foi o seu grande passo. Nunca mais parou?
Foi (risos). Às vezes até gostava de fazer os chamados actores suporte. Há personagens secundárias que às vezes são muito mais interessantes do que os protagonistas, porque estes não saem do mesmo problema durante muitos episódios.

Mas houve duas que a marcaram...
Sim, a Maria Laurinda (Tempo de Viver) e a Rita. Aliás, desde aí não voltei a ter uma personagem tão desafiante e que me desse tanto gosto fazer.

Não fica só pela representação, faz mais do que uma coisa ao mesmo tempo. É uma forma de contornar a crise?
Foi uma forma de procurar o meu caminho. Pensei que não podia ficar à espera de que alguém reparasse em mim se eu não fizesse por isso. Não fiz o conservatório e hoje arrependo-me. Montei a minha própria produtora, não sei se foi para ultrapassar a crise porque investi muito dinheiro...

O contrato de exclusividade com a TVI dá-lhe alguma segurança…
Sim.

Nunca foi aliciada por outros canais?
Sim, já fui aliciada pela concorrência. Para mim fazia e faz sentido estar na TVI porque foi lá que fui fazendo o meu percurso nos últimos anos. Atrás da TVI estava um grande homem com quem negociei todas as minhas novelas, o José Eduardo Moniz. E não faria sentido saltar para a concorrência. As pessoas têm direito de escolha e devem ir atrás de melhores condições de vida, de melhores propostas, melhores personagens. Tenho mais dois anos de contrato.

Já mostrou várias partes do corpo em televisão. Era capaz de posar para uma revista masculina?
Já tive vários convites, mas não é uma situação com a qual me sinta confortável. E penso, mas para quê ia eu posar semivestida? Se me apetecer muito ter um ensaio fotográfico arrojado faço-o para mim e não para os outros. Não encontrei até agora nenhuma razão forte para o fazer.

Mas não põe de parte?
Até agora pus sempre. Não gosto de ser determinante nas minhas respostas, porque disse que nunca mais voltava a escrever um livro e escrevi o segundo. Não gosto de fechar ciclos ou ideias. Posso garantir que todos os convites que recebi até hoje recusei. É importante para quem? Para a tiragem deles ou para mim? Porque me vão pagar por isso? Não acho que haja dinheiro que justifique porque não tenho nenhum fascínio por revistas masculinas.

As suas relações com a imprensa têm sido um bocadinho turbulentas. Tem a ver com isso, de não gostar de exposição?
Não gosto de me expor, se calhar demorei foi muito tempo a perceber isso. Não é importante na minha vida. Não sou mais feliz por isso e não acho que tenha mais convites profissionais por isso. Em termos de benefício acho que não traz muitos. Qualquer relação tem de estar equilibrada, portanto saudável para ambas as partes. Deu-se um boom da dita imprensa cor-de-rosa e já não se questiona os limites, da privacidade.

Qual a pior coisa que leu sobre si?
Não me lembro porque a dada altura deixei de ler. Não sou mais feliz por aparecer nas revistas, há quem goste mesmo de aparecer, mas cada um tem o direito de escolher o que quer fazer da sua vida. Mesmo as piores coisas que foram escritas sobre mim, apaguei-as. Antes ficava angustiada, ansiosa e depois tentava justificar. Quando isso profissionalmente se justificar para ambas as partes dou entrevistas, não quero que ninguém me faça um favor. É um favor que me fazem se não falarem sobre mim, sobre o meu marido, o meu filho, a minha família, os meus amigos… não quero, isso não acrescenta nada na minha vida.

O episódio à saída da maternidade tem muito a ver com as notícias que tinham saído sobre si na imprensa durante o tempo em que esteve grávida?
Sim. Não me é permitido escolher sobre o que eu posso ou não falar, ainda que eu não fale, que eu não dê uma entrevista, tudo é motivo para ser falado. Se eu não posso ter essa selecção, não tenho nenhuma relação porque depois é incontornável a informação que sai e o percurso que eu quero seguir profissionalmente não se coaduna com o percurso da imprensa cor-de-rosa que está a ser explorado em roda livre. Não sei qual foi o pior episódio nem o que me fez chegar a um limite, mas foram muitos anos de informações, fotos… não quero mais. Posso não saber o que quero, mas sei o que não quero. E não faz sentido para mim partilhar a minha vida com um desconhecido.

Pode falar-se de uma Margarida antes do Martim e outra depois do Martim?
Acho que sou sempre a mesma mulher. Como qualquer mudança na nossa vida, seja amorosa, seja familiar, o nascimento muda a nossa vida no sentido de viver. E as coisas ganham outra importância, ou relativizamos muito mais. E acho que naturalmente como mulher sou a mesma mas os anos fazem com que eu tenha vindo a crescer.

Sempre quis ser mãe cedo?
(silêncio) Não sei responder a essa pergunta (risos). Não penso nisso. Não penso na idade de uma maneira geral. Se há uma idade certa para ser mãe, para casar… acho que a idade é aquela que nós quisermos ter e a que nós quisermos viver.

Regressou ao trabalho só após cumprir integralmente os meses de licença de maternidade. Porquê?
Foi porque quis e porque profissionalmente foi o tempo possível.

Custou-lhe regressar ao trabalho?
Eu gostei muito de fazer este trabalho. Esta novela, os Sentimentos, foi muito saudável, tive um horário reduzido de trabalho, rodeada de bons colegas de trabalho como o Adriano Luz, a Rita Salema, o Diogo Amaral. Não paro para pensar se gostava de ter estado mais tempo em casa ou não. Foi a opção que tive de tomar, mas não penso como teria sido de outra forma.

O Martim ia consigo para os estúdios. Era a mascote?
Sim.

Qual foi a primeira palavra que ele disse?
(silêncio) Não digo. Não quero falar nisso.

Como é que era a Margarida em criança?
Lembro-me de ter sido uma criança muito feliz. Não era desassossegada, tinha muitos amigos imaginários, brincava muito com eles e com uma relação muito próxima da minha família, dos meus avós, dos meus primos.

Era a líder do grupo das suas amigas?
Não. Tenho o mesmo grupo de amigas de quando éramos pequenas. Somos seis e continuamos seis

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