Marcelo pressiona Cavaco a encontrar já uma solução

Candidato a Presidente dá a entender ser contra um governo de gestão e avisa o Chefe do Estado de que não deve deve adiar a decisão.
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Marcelo Rebelo de Sousa não quer ficar com a batata quente nas mãos e pressionou ontem Cavaco Silva a tomar uma decisão que assegure a estabilidade e a durabilidade do próximo governo. O candidato a Presidente da República não mencionou uma única vez o nome do atual inquilino do Palácio de Belém, mas os recados foram claros - e muito aplaudidos pelas pessoas que assistiam à sessão pública no emblemático salão nobre d"A Voz do Operário, em Lisboa.

"Não há dissoluções do Parlamento anunciadas, isto é, a apreciação a ser feita deve ter lugar no momento em que se coloque a necessidade ou não desse exercício e não meses ou anos antes. No que depender de mim, tudo farei para tentar não onerar o meu sucessor com problemas evitáveis relativamente ao exercício dos poderes do Estado", afirmou o professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, recebendo intensos aplausos das cerca de 300 pessoas presentes, insuficientes para preencherem o espaço habitualmente escolhido por partidos de esquerda para levarem a cabo as suas iniciativas.

Na apresentação da candidatura - depois de já o ter feito em Celorico de Basto e no Porto -, Marcelo não fez qualquer referência explícita à atual conjuntura política, mas perspetivou aquilo que faria perante cenários similares. E sinalizou opor-se a um governo de gestão. "O Presidente da República deve fazer tudo o que está ao seu alcance para obter governos viáveis e duradouros, envolvendo os Orçamentos do Estado", sobretudo quando, acrescentou, este "é vizinho da constituição do governo".

Qualquer semelhança com a realidade atual não era mera coincidência, motivo pelo qual o ex--presidente do PSD adensou o alerta a Cavaco: "Não é bom para um país saído de uma situação de crise ter de viver seis, sete, oito meses sem Orçamento do Estado, o que implica um governo em plenitude de funções."

Num discurso com cerca de 50 minutos, e apenas com um membro do atual governo na plateia - o secretário de Estado da Administração Local, António Leitão Amaro, ao qual deu um forte abraço após deixar o palco -, Marcelo demarcou-se uma e outra vez de Cavaco e falou das afinidades com outros presidentes.

Dizendo que o magistério de influência deve ser exercido "muito antes do ato eleitoral e da formação do governo" - com "discrição" e "muitas conversas" nos bastidores, o professor prometeu "trabalhar desde o primeiro dia no sentido de aplanar os caminhos e de fazer como Jorge Sampaio, de criar pontes e empatias a partir da Presidência" -, o socialista, lembrou, tomou várias diligências antes de aceitar nomear Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro após Durão Barroso ter rumado a Bruxelas, em 2002, e também quando com ele dialogou muitas vezes para viabilizar diplomas governamentais na altura em que Marcelo era líder do PSD e António Guterres estava em São Bento.

O encontro - Marcelo recusou ter promovido um comício, até porque justificou o facto de ter uma sala a meio gás com a ausência de máquina - servia para falar da sua visão do lugar do chefe do Estado e o candidato recusou versões parlamentaristas ou presidencialistas. Dito de outra forma: Marcelo não quer "substituir-se ao governo" por entender que isso seria um "abuso de poder", mas também não tenciona ser um Presidente que "se apague" ou que "lave as mãos das suas funções constitucionais", em particular em "climas de incerteza".

"Prometer um presidente presidencialista é enganar os portugueses", advertiu; "prometer menos" que aquilo que faz seria "limitar o entendimento constitucional do papel" de Belém.

Após uma nova alfinetada a Cavaco, ao considerar inoportuna qualquer revisão constitucional no atual quadro político-partidário, Marcelo voltou a sinalizar que só tenciona cumprir um mandato como primeira figura do Estado: "Um Presidente da República pode ser tentado a pensar o final do seu primeiro mandato em função da sua reeleição, o que já me levou a defender que, não havendo em Portugal um só mandato de seis ou sete anos (como seria o ideal), mas dois mandatos de cinco anos, algum dia um Presidente dará o exemplo de fazer os seus cinco anos sem qualquer reeleição e, por isso, não se autocondicionando."

Tal como tinha feito em Celorico de Basto - onde iniciou a caminhada presidencial - e no Porto, Marcelo insistiu na mensagem de aproximação dos portugueses e recuperação dos consensos. E até citou o slogan ("Ultrapassar o medo com a esperança")do recém-eleito primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau para sublinhar que "o que nos une é muito mais do que o que nos separa". "Não há portugueses inimigos de portugueses" e "temos de ultrapassar a arrogância e a crispação com a esperança" foram outras das mensagens marcantes a que recorreu.

Afirmando-se como "naturalmente próximo das pessoas", o militante n.º 3 do PSD garantiu que não vai "mudar um centímetro" a sua maneira de ser e, apesar de dizer que não vai lidar com "abstrações" mas com "problemas concretos de pessoas de carne e osso", acrescentou o combate à solidão às bandeiras da sua candidatura.

A rematar a longa intervenção, Marcelo deixou uma renovada garantia perante a plateia onde se vislumbravam poucas caras conhecidas - o deputado Telmo Correia e o advogado José Dias Ferreira eram duas das exceções: vai abdicar o estatuto específico para ex-chefes do Estado. Em nome do "espírito de moderação, singeleza e frugalidade", sobretudo em tempos de sofrimento para muitos portugueses."

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