O fim de semana deixou-nos um conjunto de imagens poderosas. Pode ver uma na página 10 [na edição em papel ou a nossa fotogaleria aqui no online], mas as fotos cruzaram todos os sítios de notícias e redes sociais. Marcelo Rebelo de Sousa passou parte da noite de sábado e da madrugada de domingo a fazer voluntariado. Aqui não haveria nada de muito novo, o atual Presidente dedica-se a causas diversas há anos. O que conta, neste caso, é a imagem. O poder do simbólico..Ver a primeira figura do Estado, o Presidente da República, sentada no chão à conversa com um sem-abrigo, a afagar a cabeça de um outro deitado ao frio e escondido em cobertores, ou noutro sítio, de novo sentado no chão e a falar de baixo para cima com um homem sem teto que se aproximou dele, é algo que redesenha o cargo. Não estamos sequer ao nível do Dr. Soares a cavalgar uma tartaruga gigante ou a mandar um GNR sair dali para fora que a caravana queria seguir caminho. Os tempos são outros, bem diferentes. Estamos hoje muito mais ligados uns aos outros, vivemos cada pequena questão ou acontecimento em sobressalto e indignação coletiva nas redes sociais. Paradoxalmente, apesar de ligados, é nessas redes que potenciamos e alimentamos a nossa pequena bolha de convicções, de certezas inabaláveis sobre a vida e o mundo. Procuramos em cada página, em cada post, em cada tweet, uma verdade conveniente. Estamos ligados aos que pensam o mesmo e vivemos cada vez mais por oposição a quem pensa diferente..É este estado de coisas que confere real poder às imagens do Presidente, para lá do simbólico. Num tempo de crise de representação - a democracia portuguesa não escapa a esse vírus global - e de crescimento de extremismos e radicalismos, Marcelo está a ocupar todos os espaços possíveis. Chamemos-lhe "política dos afetos", por falta de termo mais certeiro, mas o que o Presidente tem andado a fazer nos últimos meses vai muito para lá dos afetos e das conversas de ocasião com este ou aquele cidadão. Há em Belém a exata noção de que é, por estes dias, especialmente perigoso deixar espaço político por ocupar. Daí que não haja tema ou situação de vazio deixado por governo ou oposição onde não apareça Marcelo. Habituem-se e não lhe levem a mal. Mais do que válvula de escape do sistema, o Presidente pode tornar-se uma espécie de vacina contra radicalismos e movimentos de protesto desenquadrados. Pode muito bem vir a ser útil.