O mês de março marca uma nova edição de uma iniciativa que me diz muito. Sou animado pelo caminho feito até aqui, pelo compromisso e pelo empenho inalterado em construir alicerces para que, a médio prazo, iniciativas como o Medalhas de Honra L"Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência se transformem em momentos em que o conhecimento deixe de ser compartimentado por género e não obrigue à distinção, ainda que pela positiva..Se o leitor duvida que, em pleno século XXI, ainda existam diferenças entre géneros na área das ciências, relembro o caso de Ben Barres, um cientista transgénero que dava pelo nome de Barbara Barres. Ora, Barres deu uma conferência na sua área de especialidade, neurobiologia, e os participantes, ao pensarem tratar-se do irmão de Barbara, apressaram-se a afirmar que o trabalho de Ben era superior ao da sua irmã. Na sua biografia póstuma (Barres viria a falecer em 2017, vítima de cancro pancreático), afirma que apenas após a mudança de sexo, aos 40 anos, se apercebeu da forma diferenciada com que era tratado pelos homens cientistas com quem interagia após a transição, confessou num artigo para a revista Nature, em 2006..Por argumentos como estes e outros, como a desigualdade salarial ou a disparidade de género no que toca à conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar, quase duas décadas depois do seu surgimento, o programa Medalhas de Honra L"Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência continua a ser necessário e relevante, e continuará a sê-lo enquanto a igualdade de género for um assunto na agenda nacional e mundial. Celebremos o Dia Internacional da Mulher, o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência e todos os dias que elevem a mulher e a coloquem num patamar de igualdade..O tempo de refletir sobre este tema terminou - é tempo de arregaçar mangas e preparar o futuro que queremos legar às nossas filhas e netas, principalmente quando notícias muito recentes nos dão conta de que a pandemia atrasou o progresso das mulheres na paridade em uma geração (fonte World Economics Forum), passando de 99,5 anos para 135,6 anos. Qualquer iniciativa que louve o papel e a importância das mulheres na sociedade é fundamental. E é por isso que é impossível não sentir uma enorme satisfação ao constatar que, desde 2004, foram já reconhecidas 61 jovens cientistas portuguesas por este programa e que, desde 1998, mais de 3900 cientistas consagradas foram distinguidas, em todo mundo, pela iniciativa For Women in Science - cinco foram, mais tarde, honradas com um Prémio Nobel..A verdade é que muito já foi feito nesta caminhada até à igualdade. Se, a nível europeu, um terço dos investigadores são mulheres (32,8%), em Portugal os valores são mais promissores, com 43% dos investigadores do sexo feminino (fonte She Figures 2021, Comissão Europeia). É por isto que a Medalhas de Honra L"Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência é uma iniciativa tão entusiasmante como o era há 18 anos, por tantos e tão bons motivos. Continuaremos a colocar sob os holofotes jovens mulheres visionárias e inspiradoras, com projetos de pesquisa capazes de transformar positivamente o nosso mundo, com avanços na investigação em áreas tão essenciais como a Saúde e o Ambiente..Prosseguiremos esta jornada, lado a lado com estas jovens mulheres brilhantes, relembrando-lhes, e às que as sucederão, que o percurso até à equidade pode ser longo, mas que os primeiros passos já foram dados há muito..Por um futuro em que cada um seja livre de escolher o que quer ser, singre pela sua competência e que se aceite, finalmente, que talento é talento. E nada mais resta se não abraçá-lo.. Country Coordinator da L"Oréal Portugal