Mais dois irmãos levados pelo mar quando andavam à pesca do robalo

Nenhum estaria a usar colete salva-vidas, apenas um corpo foi encontrado
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A tragédia voltou a bater à porta dos homens do mar. "Um já apareceu, pelo menos que o mar devolva também o irmão", desabafa um pescador que, impotente, assiste às buscas. Tal como em Dezembro último, também em Viana do Castelo, a força das águas voltou a levar mais dois irmãos, deixando em choque a comunidade local.

"Isto não estava no plano", atirava, desesperado, Luís Ribeiro, também ele pescador e amigo dos dois irmãos. "Andavam na faina mas, como a coisa estava fraca, quiseram vir para o robalo, que é a pesca mais complicada", acrescentou, ao DN, este homem do mar, enquanto o que restava do Patric era rebocado depois de ter embatido violentamente nas rochas.

"Há uns anos, por esta altura, houve outro do género. O mar levou três cunhados", lembra ainda Luís Ribeiro, já envolto em lágrimas, mas ainda justificando: "Na pesca do robalo, o pessoal arrisca muito e esta zona tem alguns cabeços no mar, perto das rochas. Pode ser a desgraça."

António e João Rui Vale, de 50 e 56 anos, respectivamente, tinham saído para a faina durante a madrugada, mas pouco depois das 09.00 de ontem a bateira em que seguiam foi encontrada na zona do Forte da Vinha, Areosa. Os destroços espalhavam-se pela costa, onde também foi encontrado o corpo de um dos irmãos. "O mar estava com cerca de 3,5 metros, o que para andar perto da costa pode ser perigoso, devido à rebentação. Sabemos que havia nevoeiro e isso pode ter levado os pescadores para demasiado próximo das rochas. Mas não há testemunhas", apontou Vítor dos Santos, comandante da capitania local.

Os dois irmãos, descritos como "muito experientes", não usariam colete salva-vidas no momento do acidente. "O corpo que encontrámos foi resgatado sem colete, o que me leva a presumir que não o estaria a usar", apontou ainda o comandante, acrescentando que "na grande maioria dos acidentes deste género vem-se a constatar que os pescadores não usam os coletes salva-vidas" (ver caixa).

Apesar das patrulhas na costa, dos meios navais e aéreos envolvidos, apenas o mais novo dos irmãos foi resgatado, enquanto o outro, mestre do barco, continua desaparecido, sendo que as buscas deverão ser retomadas esta manhã.

António e João Rui tinham tirado o dia de quinta-feira para a pesca do robalo, até porque "garante algum dinheiro" aos pescadores nesta altura do ano. Em contrapartida, é também a pesca "mais assassina de todas", porque é na zona de rebentação que "mais peixe há". A garantia é dos mais velhos. "Tenho 55 anos e ando nisto desde os 13. Para ver desgraças é nesta pesca", atira António Fernandes, pescador da ribeira de Viana. Logo ao lado, Joaquim Ribeiro, outro pescador, afirma: "O robalo quer o mar a partir, quer o chamado mar de andaço. Onde há mais é na zona de rebentação das ondas." Daí que os pescadores arrisquem e levem a faina até às zonas mais "traiçoeiras e perigosas".

O caso dos irmãos António e João Rui não é inédito nos últimos tempos. Em Castelo de Neiva, também em Viana do Castelo, Amâncio e Gilberto, dois irmãos de 30 e 34 anos, saíram para a faina durante a madrugada de 16 de Dezembro do ano passado. Um golpe de mar terá virado o pequeno barco de seis metros e os dois irmãos, apesar de procurados durante vários dias, nunca mais foram encontrados.

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