Tudo começou com uma guitarra que o pai de Mafalda Veiga lhe ofereceu no início da adolescência. Influenciada por um tio, Pedro da Veiga, reconhecido guitarrista de fado, começou logo a compor, encontrando no instrumento terreno fértil para fazer crescer toda a sua criatividade. "Receber essa guitarra foi o momento mais revolucionário que me aconteceu na vida, não só porque depressa se transformou num instrumento de trabalho, mas especialmente de imaginação e liberdade", recorda a cantora ao DN, em vésperas de subir ao palco do Campo Pequeno, em Lisboa, para comemorar "30 anos de canções"..O concerto devia ter-se realizado inicialmente em outubro, mas acabou por ser cancelado devido à tempestade Leslie e reagendado para 26 de janeiro. "Ainda vai a tempo, porque o que se pretende comemorar é a música e não a data. Na verdade nem me apercebo que faço música assim há já tanto tempo, é de facto um privilégio", confessa a artista, que nesses tempos longínquos da adolescência, quando tocava sozinha no quarto, se imaginava "no Coliseu", onde tantas vezes já atuou. "Mal sabia eu", diz com humor, confessando que ainda se comove, sempre que ouve o público cantar em coro as suas canções. "As canções são um ato de comunicação e entretenimento e é muito comovente ouvir as pessoas cantarem algo que fiz sozinha em casa, à guitarra e que a partir de determinado momento é também delas", explica..Neste concerto, a cantora e autora vai contar com a presença de alguns convidados, como Ana Bacalhau, Rui Reininho e Tiago Bettencourt - ou "antes amigos", como os apresenta. "O critério para os convites foi apenas o de reviver alguns momentos e tentar repeti-los em palco com as mesmas pessoas com quem os vivi. No fundo é isso, este concerto, uma comemoração de momentos bonitos.".Não se pense no entanto que o concerto vai ser um mero desfilar de êxitos antigos. Mafalda Veiga garante assim que o alinhamento "vai ter algumas canções novas", como aliás sempre faz nos seus concertos. Até porque, defende, na música "o passado significa apenas a conquista do futuro" e portanto "é preciso persistir e continuar sempre a trabalhar". E até já está a preparar um novo disco, que, revela, poderá sair ainda neste ano. "Estou a compor temas novos, num trabalho em parceria com o João Gil, dos Diabo na Cruz, que foi também o produtor musical deste espetáculo..Enquanto isso não acontece, os fãs podem entreter-se com a reedição do último disco de originais, Praia, um trabalho editado em 2016 com produção de Fred Ferreira (Orelha Negra, Banda do Mar ou Buraka Som Sistema) e que marcou uma viragem na sonoridade de Mafalda Veiga, em direção a ambientes mais eletrónicos mas também mais pop e urbanos.."Já o tinha tentado fazer antes, também com o Fred, no Zoom, quando recriei também sob esse prisma alguns temas mais antigos. Gosto de me desafiar e ir ao encontro da emoção das canções, e esse integrar de alguma eletrónica na minha música permite-me fazer isso", conta..Nesta nova versão, o álbum traz ainda três duetos inéditos. Um com Miguel Araújo, com quem interpreta uma nova versão de Planície, o primeiro single do álbum de estreia Pássaros do Sul; outro com Jorge Palma, em Imortais, uma canção originalmente editada em 2008; E, por fim, uma releitura de Praia, o tema que dá nome ao último disco, feita a meias com Rui Reininho e cujo resultado pode ser também apreciado ao vivo já neste sábado, no Campo Pequeno, quando o vocalista dos GNR subir ao palco.