Líder destacado nas sondagens, mas sob o fogo dos rivais por recusar participar nos debates que antecedem as presidenciais de 10 e 24 de abril, Emmanuel Macron realizou ontem a sua primeira ação de campanha. E foram quase três horas de uma conferência de imprensa em que apresentou um programa eleitoral que afirmou ter-se alimentado das crises que marcaram os cinco anos do seu primeiro mandato. Pensões, impostos, trabalho, educação, saúde, segurança, energia e cultura, não houve área que Macron não abordasse em Aubervilliers, nos subúrbios de Paris.."Podemos ser a primeira grande nação a sair da dependência do gás e do petróleo", garantiu Macron, que espera até ao último dia para confirmar a sua candidatura e lamentou na altura não poder fazer uma campanha "como gostaria" devido ao contexto global que inclui a guerra na Ucrânia. .Sob o lema "Avec Vous" (Convosco), o agora candidato-presidente tem na energia um dos pontos fulcrais da sua estratégia que globalmente visa construir a independência da França face ao exterior, com o compromisso de até 2050 construir seis novos reatores nucleares e estudar a construção de outros oito, multiplicar por 10 a energia solar no país assim, como 50 parques eólicos marítimos..Também na Defesa o objetivos é mais autonomia, com a promessa de mais investimento nas tecnologias de ponta, além de um plano de mobilização civil, de forma a preparar a sociedade francesa para momentos de crise..Perante um leque de 11 rivais em que os três melhor classificados nas sondagens são de direita ou extrema-direita, o reforço das fronteiras e regras mais duras para a imigração não podiam faltar. O presidente anunciou que caso continue no Eliseu, a recusa de asilo vai levar à expulsão do território e que os vistos plurianuais serão concedidos sob condições mais restritas e principalmente a quem está integrado através do trabalho..Avaliando os custos do seu programa em 50 mil milhões de euros e prometendo uma baixa dos impostos de 15 mil milhões de euros por ano - metade beneficiando as famílias e metade as empresas -, Macron sublinhou ainda que "temos de trabalhar mais". O objetivo, garantiu, é o regresso ao pleno emprego, com os beneficiários do subsídio a passarem a ter de dedicar 15 a 20 horas semanais a atividades que facilitem a inserção profissional, e a reforma do sistema de pensões, com o adiamento da idade da reforma dos atuais 62 anos para os 65. .Uma reforma que promete não ser pacífica é a proposta de Macron para centralizar num único sistema todos os benefícios sociais - emprego, habitação ou infância. .Com a guerra na Ucrânia a dominar as notícias, Macron tem, por inerência do cargo, uma vantagem clara sobre os adversários em termos de tempo mediático que ocupa. Além disso, a oposição tem acusado o presidente de negligenciar a campanha para as presidenciais. "O presidente quer ser re-eleito sem sequer ter sido candidato, sem fazer campanha, sem participar num debate, sem competir com as suas ideias", denunciou Gerard Larcher, o presidente do Senado, membro do partido de direita Les Républicains. .Ora depois de uma entrada fulgurante na campanha após vencer as primárias da direita tradicional, a candidata de Les Républicains, Valérie Pécresse, tem vindo a cair nas sondagens. Se Macron lidera destacado - a sondagem diária do Le Parisien dava-lhe 31% das intenções de voto -, Pécresse passou do segundo lugar para o quarto ou mesmo quinto. Na referida sondagem, a ex-ministra e atual presidente da região Île-de-France, onde fica Paris surge com 11%, atrás de Macron mas também de Marine Le Pen (a candidata do Rassemblement Nacional, atual nome da ex-Frente Nacional, de extrema-direita, consegue 15,5%), de Eric Zemmour (o ex-jornalista também de extrema-direita aparece com 12%) e de Jean-Luc Mélenchon (o candidato da France Insoumise, de extrema-esquerda, está empatado com Zemmour com 12% das intenções de voto). .As reações à apresentação de Macron não se fizeram esperar. Pécresse foi uma das primeiras a atacar o presidente: "Emmanuel Macron continua em negação acerca da autoridade, do poder de compra e da dívida. Quanto ao resto: muitas falsificações! Mas quem é que pode acreditar que o Macron candidato terá a coragem de fazer o contrário do que o Macron presidente? O seu legado é o seu peso.".Também Marine Le Pen denunciou: "Macron já tinha prometido dar nova vida à democracia, não cumpriu nenhuma promessa nessa área". À esquerda, o candidato comunista Fabien Roussel atacou as propostas de reforma do trabalho que "não respeitam as pessoas"..helena.r.tecedeiro@dn.pt