Ainda antes de ser eleito, Emmanuel Macron já garantia que se vencesse as presidenciais não teria direito a estado de graça. E um dia depois da vitória sobre Marine Le Pen teve direito foi a protestos nas ruas e recados de Bruxelas. Hoje é dia de passagem de poder: François Hollande deixa o Eliseu e Macron toma posse como o mais jovem presidente de França. Mas o trabalho não para e se os candidatos do République en Marche! já andam em campanha para umas legislativas de junho em que o presidente precisa de garantir uma maioria de governo, o próprio Macron vai amanhã a Berlim, onde, apesar de a chanceler Angela Merkel ter dito ontem desejar mais cooperação, os media não poupam críticas às suas ideias para reformar a zona euro..Com uma imagem do novo presidente francês na capa, a revista Der Spiegel titula "O caro amigo. Emmanuel Macron salva a Europa e a Alemanha tem de pagar". Em causa estão as propostas deste de maior cooperação na zona euro, com a criação de um conselho de ministros e um ministro das Finanças próprios. Com a economia a crescer 0,6% no primeiro trimestre e o desemprego abaixo de 4%, segundo dados do instituto Destatis, Berlim espera excedentes orçamentais de 54,1 mil milhões até 2021. Dinheiro cujo destino deverá estar no centro da campanha para as legislativas de 24 de setembro na Alemanha (ver pág. 52)..Em França o cenário é muito diferente. Depois de cinco anos de mandato de Hollande é um país com 9,7% de desemprego, os níveis de pobreza (população a menos de 60% do nível médio de vida) mantém-se nos 14,3%, o défice caiu para 3,4% do PIB em 2016, mas a dívida pública subiu de 1868 mil milhões de euros para 2147 mil milhões, ou de 89,5% do PIB em 2012 para 96% no ano passado..[artigo:7584571].É esta a França que Macron herda hoje. Às 10.00 o presidente eleito é recebido no Eliseu pelo presidente cessante. Os dois terão depois um encontro de meia hora no primeiro andar do palácio, altura em que o novo inquilino recebe os códigos nucleares. Às 10.30, Hollande deixa o Eliseu. "Preparei-me. É mais fácil para mim passar os poderes a um antigo conselheiro, a um antigo ministro do que a um adversário político. Não há a sensação de estar a ser privado de algo. E não fui candidato. Não fui derrotado. Isso muda tudo", explicou Hollande ao Le Monde. Antes disso, o presidente cessante confessava lamentar a sua atitude para com o antecessor, Nicolas Sarkozy, que não acompanhou ao carro em 2012..Às 10.35 o general Benoît Puga entrega ao novo presidente as insígnias da grã-cruz da Legião de Honra na Sala dos Embaixadores. O presidente do Conselho Constitucional, Laurent Fabius, lê os resultados oficiais e Macron deve fazer uma breve intervenção. Às 11.30, já nos jardins do Eliseu, toca a Marselhesa, antes de uma salva de 21 tiros de canhão nos Invalides. O presidente segue depois para o Arco do Triunfo, onde presta homenagem ao soldado desconhecido, terminando o dia com uma cerimónia na Câmara de Paris, onde vai discursar..Macron deixou claro que quer uma cerimónia "simples e privada", com a presença da mulher, Brigitte (que não deve contudo entrar com ele no Eliseu por uma questão de equilíbrio protocolar: Hollande não tem primeira dama) e os filhos dela, dos prémios Nobel franceses, dos representantes dos sindicatos e de alguns políticos próximos..A cabeça do presidente está já na campanha para as legislativas. Enquanto parte da sua equipa prepara a posse, outra reuniu este fim de semana os candidatos da République en Marche! às legislativas, para preparar a estratégia. "Os vossos rostos, o que representam, nunca existiu no nosso país", terá dito Macron aos 500 candidatos e militantes reunidos no Museu do Quai Branly..Todos os candidatos foram convidados a tirar uma fotografia de família com o presidente eleito, antes de passarem à discussão sobre as técnicas a usar na campanha. Centrada nas questões técnicas e financeiras, a discussão foi ainda mais necessária uma vez que mais de metade dos candidatos do République En Marche! nunca disputaram umas eleições e têm uma experiência política muito limitada.."Estamos condenados a conseguir. É a nossa responsabilidade", terá apelado Macron, segundo Le Figaro. O presidente eleito garantiu ainda aos seus candidatos que eles são "portadores do fim do velho sistema". Depois de alguma tensão com os apoiantes do MoDem, do centrista François Bayrou, em torno das candidaturas às legislativas de 11 e 18 de junho, ontem os ânimos tinham serenado. E os 428 nomes anunciados na quinta-feira (em 577 circunscrições que vão a votos dentro de menos de um mês), mantinham-se na sua larga maioria na lista, que tem ainda de ser formalmente validada..Quem também já está em campanha é Jean-Luc Mélenchon. O candidato da França Insubmissa, quarto na primeira volta das presidenciais com quase 20% dos votos, reuniu 1500 pessoas, entre candidatos, suplentes e diretores de campanha, para definir a estratégia para as legislativas. Após o fracasso das negociações com o Partido Comunista, a reunião começou com um gesto de boa vontade, com a França Insubmissa a não apresentar candidatos nas circunscrições onde os candidatos do PC apoiaram Mélenchon.