É por de mais evidente que o fenómeno Macron é uma construção político-mediática, já que a personagem em questão surgiu do nada: desconhecido aquando da sua entrada no governo, em 2012, como secretário-geral da presidência, dele saiu em 2016, como ministro da Economia, com um grau de popularidade próximo de zero. É a partir daí que Macron começa a ser notícia nos media e nas capas dos tabloides..A pretexto de dissensões com o governo de François Hollande por este não ter ido demasiado longe no carácter neoliberal das reformas, a saída do jovem ministro foi realizada com a cumplicidade do presidente do qual se destinava a ser o sucessor. Desta personagem pouco popular fabricou-se assim uma virgindade política, de homem independente, antissistema, nem de direita nem de esquerda, moderno e... revolucionário..Este retrato do candidato ao Eliseu em nada coincide com Emmanuel Macron, filho querido de Hollande e do hollandismo e escolhido como seu sucessor..Alto funcionário da administração pública antes de se tornar banqueiro, Macron foi, como governante, o principal ator da política económica de François Hollande: política que se situa na linha das reformas estruturais reclamadas pela OCDE, pelo G20, pela Comunidade Europeia, ou seja, o capital na sua tentativa de captar mais rendas..Tal política já se traduziu em gigantescas transferências de valor da esfera pública para a privada; no âmbito laboral, foi dado um passo de gigante do direito do trabalho para o trabalho sem direitos..Assim sendo, se o quinquénio de François Hollande foi mortífero, foi também histórico e, isto, por duas razões..Primeiro, porque pela primeira vez na história da V República um governo de maioria socialista é objeto de uma tão intensa, duradoura e generalizada contestação..O ponto dois é corolário do primeiro: foi durante este quinquénio que os socialistas franceses deixaram cair por completo a máscara. Agora, ficou patente perante todos que os socialistas podiam fazer exatamente como a direita e, até, ir mais longe do que ela, se necessário..Se François Hollande foi o presidente mais impopular da V República, foi também um presidente histórico, ao assinar a sentença de morte do partido socialista..Alguns dirão que a política de Hollande constituiu mais uma traição a adicionar às sucessivas traições do passado. Cremos que se trata, pelo contrário, de um ato de fidelidade. A fidelidade ao que o partido socialista francês se tornou desde a sua renúncia ao socialismo, em 1983, data da sua conversão aos mercados financeiros e à desregulamentação, à política do franco forte e da deflação competitiva. Assim sendo, podemos dizer que o ciclo de abandono do socialismo iniciado por François Mitterrand foi definitivamente fechado por François Hollande, ao dar o golpe de morte ao socialismo tal como estávamos habituados a entendê-lo..O seu sucessor é o macronismo, uma tendência indefinida, nem de direita nem de esquerda, desideologizada, como desideologizado é o neoliberalismo que esconde a ideologia atrás da técnica, para reduzir as opções de vida a uma só, a do there is no alternative de Margaret Thachter e dos seus discípulos..Não há pois diferença de fundo entre a direita de François Fillon e o "nem direita nem esquerda" de Emmanuel Macron. As políticas económicas são idênticas, distinguindo-se apenas pela brutalidade de uma austeridade injetada a dose de cavalo (Fillon) ou de forma gradual (Macron)..Se as sondagens se confirmarem, o candidato que se orgulha de ter sido banqueiro disputará a segunda volta das eleições presidenciais contra Marine Le Pen..Poderá ganhar as eleições graças ao voto útil; se tal acontecer, continuaremos confrontados com este paradoxo: o de uma sociedade que, ao escolher o que julga ser o menor mal para fazer barragem à extrema-direita, elege os preconizadores das políticas neoliberais que, ontem como hoje, a fazem inexoravelmente crescer; políticas que empurram para os braços da extrema-direita a massa cada vez maior dos excluídos que fabricam..Economista e autarca na região parisiense