«Sofiazinha, quer o seu galão?» No bar da sede do PCP, na Rua Soeiro Pereira Gomes, em Lisboa, a 24 de Novembro de 2008, Sofia Ferreira estava em sua casa – «no partido» – e conciliava estranhamente uma imagem de fragilidade e doçura com o reafirmar das suas convicções de sempre, que a levaram à militância em 1945 e que dela fizeram uma heroína romântica e uma mulher ideologicamente determinada. Esteve presa de 25 de Março de 1949 a 4 de Fevereiro de 1953 e de 28 de Maio de 1959 a 6 de Agosto de 1968: 13 anos no total, um dos mais prolongados períodos de prisão sofridos por uma mulher em Portugal..SOFIA FERREIRA nasceu em 1922, em Alhandra, a 1 de Maio, Dia do Trabalhador, uma data simbólica para quem fez da luta política no PCP um percurso de vida..«Nós éramos filhas de trabalhadores e vivemos desde pequenas aquela situação de dificuldades, de privações, e ficámos a sentir e a compreender que a desigualdade era a regra», disse Sofia Ferreira falando da sua infância e da de suas duas irmãs e também de um irmão, o mais velho da família (ver caixa)..«Não íamos à escola e passávamos privações de toda a ordem.» Sofia Ferreira acabou por se separar do resto da família ao vir para Lisboa, para a casa da madrinha, enquanto as suas irmãs foram trabalhar. «Primeiro, a Mercedes e a Georgete foram para uma fábrica e depois para a costura. Foi aí que começámos a conviver com os trabalhadores e as pessoas que viviam nestas situações complicadas de vida», recordou..A dura realidade acabou por condicionar a sua aproximação ao PCP. «Comecei a ter contactos com o partido em 1944 e em 1946 passei para a clandestinidade, tinha então 24 anos», disse Sofia Ferreira..Os contactos com o partido – designação que todos os militantes mais tradicionais dão ao PCP para vincarem o seu carácter único na história do Portugal recente – deram-se quando estava em Lisboa, mas na linha de uma opção política já tomada pelas suas duas irmãs..OS PRIMEIROS contactos com o PCP surgiram quando vivia em Lisboa, em casa da madrinha Alice, apesar de ter sido em Vila Franca de Xira, onde tinha as irmãs e os amigos, que a ligação ao partido se concretizou..Em Lisboa viveu em São Domingos de Benfica, na Cruz da Pedra, entre os 12 e os 24 anos. «Nessa altura não era a Lisboa de hoje. Eu vivia muito isolada. Era uma vida em casa de pessoas idosas, com preconceitos muito antigos. Mas eram muito simpáticas e amigas da minha família. O meu irmão mais velho, quando trabalhou em Lisboa, ficava lá em casa. Não se pode dizer que eu estivesse a servir. Ajudava nos trabalhos domésticos mas havia uma senhora a dias que ia lá a casa, eu era mais uma companhia.».São recordações boas as que guardou desses dias. «Digo com toda a sinceridade que era tratada com todo o carinho, se iam ao cinema ou ao teatro, eu ia sempre com eles. Tal como acontecia quando iam passear, por exemplo ao Jardim Zoológico. Eu era a filha que eles não tinham.» A dona Alice e o senhor Torres, ele empregado de escritório e ela doméstica, possibilitaram a Sofia um contacto com uma capital que os portugueses conhecem dos filmes de época como A Canção de Lisboa ou O Leão da Estrela, em que o salazarismo imperava e a revista à portuguesa era o escape possível..Ainda assim, Sofia Ferreira reconhecia que Lisboa era bem diferente de Vila Franca, esta mais um dormitório de trabalhadores que labutavam nas lezírias. Mas mesmo Lisboa «era um meio mais pequeno e menos conhecido do que hoje é», assumindo que «o único relacionamento que tinha mais perto de onde vivia era o de uma vizinha do prédio ao lado – que foi quem me ensinou a ler – e das duas irmãs desta. A casa tinha um grande quintal e elas iam lá lanchar. Brincávamos todas com uma prima minha que estudava mas nas férias grandes ia também para lá.» Foi nessa altura que aprendeu a ler, pela cartilha de João de Deus..NESSA ALTURA não era frequente uma mulher ter tanto interesse pela política. Mas Sofia Ferreira lembrava uma influência determinante: «Vivia nessa casa de Lisboa também um tio meu que era um operário da construção civil e que era democrata e antifascista, abertamente contra o regime de Salazar e um grande admirador da União Soviética. Foi um facto que de certo modo me influenciou ainda mais por se estar a viver na altura acontecimentos como a Guerra Civil de Espanha e depois a Segunda Guerra Mundial..Esses acontecimentos eram discutidos e o meu tio conversava muito. Ora o dono da casa, o senhor Torres, que era padrinho de casamento do meu tio, era ideologicamente o contrário deste, ou seja, era anticomunista, salazarista, e eles tinham grandes pegas.» O debate político estava, assim, no meio familiar: «Comecei a assistir a essas conversas com menos de 20 anos e, com essa idade, já tinha de ter consciência das realidades. Depois senti também necessidade de fazer qualquer coisa, de participar para ultrapassar uma situação horrível e alcançarmos outra sociedade.».Sofia Ferreira recordava que «o PCP, na altura, era o único partido organizado na clandestinidade, tinha a sua direcção e imprensa própria e os jovens entusiasmavam-se e motivavam-se para fazer qualquer coisa. Foi isso que me levou a seguir a vida de política ligada ao partido.».A primeira tarefa da nova militante foi numa tipografia clandestina situada na Figueira da Foz, em Lavos. «O partido abriu aí uma casa que era uma tipografia clandestina onde se fazia O Militante e folhetos, designadamente um muito conhecido, Se Fores Preso Camarada. Estive lá de 1946 a 1948 e nesse trabalho desenvolvi a minha capacidade e consciência pois não fazia só o trabalho doméstico. Colaborava com outros camaradas em todo o trabalho de tipografia, compunha e imprimia. Para mim foi uma escola, pois até o facto de estar a compor os textos foi uma grande experiência no trabalho político e partidário.».E a vida do dia-a-dia numa casa clandestina do PCP? «Viver numa casa do partido na clandestinidade tinha grandes dificuldades até pelo isolamento que era necessário por razões de segurança. Não podíamos contactar nem conviver com a família, nem sequer escrever cartas. Existiam regras conspirativas muito rigorosas para a defesa da casa. As notícias da família eram obtidas através da própria organização, o que era muito demorado, e o camarada incumbido de o fazer era muitas vezes obrigado a destruir a informação ou pura e simplesmente era preso. Havia muitos períodos em que não tive notícias nem dos pais nem das minhas irmãs, que tinham entrado na clandestinidade um ano antes de mim..Encontrámo-nos uma vez, em 1948, em casa de uns amigos, quando vim a Lisboa para ser operada, e elas também saíram da casa onde estavam por estar a ser vigiada. Foi uma alegria muito grande pois desde 1945 não nos víamos.».A clandestinidade era dura: «Eu soube do falecimento do meu pai através de uma notícia de jornal.» No entanto, dizia, nunca sentiu «aquele mal-estar de isolamento pois estava sempre ocupada. Mas o isolamento era real, não se podia ir a um mercado ou a um cinema. Na clandestinidade havia também muitas coisas boas, muita solidariedade, muito carinho. Éramos uma família em que se incentivava a honestidade, onde cada um não pensava só em si mas também na felicidade dos outros.».Depois da imprensa clandestina, Sofia Ferreira desempenhou tarefas junto do Secretariado do Comité Central e mais tarde integrou a Organização Local do Porto, onde foi responsável pela organização partidária em empresas têxteis e em serviços da função pública. Foi eleita para o Comité Central do PCP no V Congresso, em 1957, onde se manteve até 1988..À despedida, lá voltou Sofia Ferreira a cirandar pela Soeiro Pereira Gomes, a sua última «casa» do PCP. «Sou feliz pela confiança no partido e pelas grandes amizades por todo o país. E ainda tenho uma cabecinha para pensar e umas perninhas para andar, e vou até onde puder. Mas isto acaba um dia, a idade vai avançando e tenho consciência disso.» Morreu a 21 de Abril de 2010. No 1.º de Maio faria 88 anos..As três Ferreiras e o irmão esquecido.Foram as duas irmãs de Sofia Ferreira, Mercedes e Georgete, que a levaram para o PCP antes de ingressarem na clandestinidade, corria a década de quarenta e Portugal, apesar de neutral no conflito, sofria as dificuldades decorrentes da Segunda Guerra Mundial. Numa altura em que o Estado Novo tinha proibido os partidos políticos, o facto de as três irmãs se interessarem pela política era caso raro. Num determinado período de 1949, as três chegaram mesmo a estar ao mesmo tempo presas pela PIDE..Mas também havia um irmão mais velho, um pouco esquecido nesta história familiar. «O meu irmão nunca teve actividades políticas. Era democrata, concordava com as nossas ideias e era uma pessoa progressista mas nunca teve tendência para fazer como nós, que dedicámos a nossa vida como militantes do partido», lembrava Sofia Ferreira..Presa com Cunhal.«Nos fins de 1948, fui para uma casa do Secretariado, no Luso, instalar-me com o nosso camarada Álvaro Cunhal e com Militão Ribeiro, onde fui presa em 25 de Março de 1949» – a evocação é da própria Sofia Ferreira. Militão Ribeiro acabou por morrer em consequência de uma greve de fome, na Cadeia Penitenciária de Lisboa (hoje Estabelecimento Prisional de Lisboa), em 2 de Janeiro de 1950..Segundo o PCP, a casa foi assaltada por uma brigada da PIDE comandada pelo chefe de brigada Jaime Gomes da Silva e integrada pelos agentes Mortágua, Rego, Guerra e Pais, acompanhados pela GNR. Os três presos foram levados para a delegação da polícia política no Porto. Mal ali entrou, Sofia ouviu os gritos de Luísa Rodrigues, companheira de Militão Ribeiro, presa desde 7 de Fevereiro..Sofia Ferreira disse ter aí começado para ela a tortura, pois viu-se impossibilitada de prestar socorro à sua camarada. A janela da cela onde se encontrava foi logo entaipada..Contou Sofia que «uma das formas de tortura da PIDE era justamente fazer ouvir gritos e gemidos de outros presos, para quebrar a moral e criar tensão psicológica e nervosa aos presos recém-chegados.».Décadas depois, Sofia Ferreira ainda lamentava não ter chegado a quatro meses o tempo que esteve com Álvaro Cunhal: «Aprendi muito pois ele procurava ensinar e explicar, e estava sempre disposto a estimular o nosso estudo. Ajudou a preparar-me como quadro do partido e a enfrentar as dificuldades.»