Lula late ou não late?

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Há menos de duas semanas, Lula da Silva chamou Jair Bolsonaro de "aquela coisa" e de "facínora".

"Em todos os estados da federação que eu vou pergunto se alguém se lembra de alguma obra que aquela coisa inaugurou", questionou, em visita ao estado do Espírito Santo. "Ele não inaugurou nenhuma obra, mas inaugurou o ódio entre filhos e pais, há famílias que não conversam mais por causa de um facínora que durante quatro anos pregou o ódio neste país e mentiu."

"E ao mentir", continuou o presidente da República, "utilizou a boa-fé do povo evangélico, dizendo que nós íamos fechar igrejas, que nós íamos fazer banheiros unisex, isto e aquilo". Lula lembrou ainda que "faltavam dois meses para tomar posse" e o Governo eleito "não tinha sequer orçamento aprovado para 2023". "Tivemos de colocar em discussão uma Proposta de Emenda Constitucional para pagar as contas dele, de um cidadão que não merece nenhum respeito."

Antes, em junho, Lula classificara os quatro anos de Bolsonaro no poder de "período muito obscuro". E em agosto disse entender que haja quem não goste dele - "dizem: "Eu não gosto do Lula, não gosto do PT"; tudo bem" -, mas então que gostem de uma terceira via - "há outras pessoas para vocês gostarem, não precisam gostar de um negacionista, de um fascista, de um genocida".

Em outubro, chamou Bolsonaro de mentiroso e golpista. "Ele contava mentiras por segundo, depois, como a quantidade de utilização da máquina pública para tentar evitar perder as eleições foi de tamanha magnitude, entrou em parafuso", começou. "Trancou-se em casa, ficou chorando, lamentava, há gente que diz que tinha dias em que ele falava, tinha dias em que ele não falava, mas, na verdade, ele estava era preparando um golpe", concluiu.

Já em novembro, Lula afirmou que, com ele, "o país voltou a ser governado por alguém que tem vergonha na cara e trata os diferentes como iguais" e chamou o antecessor de "furacão do mal" e "gente ruim".

Ao longo do ano, o presidente apelidou ainda Michel Temer, antecessor de Bolsonaro, de "golpista", ACM Neto, candidato de direita ao governo da Bahia, pela alcunha "grampinho", e, via Partido dos Trabalhadores, o presidente do Banco Central de "lacaio". E, em março, reconheceu que, na prisão, a força que o movia era "conseguir foder o [Sergio] Moro".

O mesmo Lula, porém, garantiu, na noite de 24 para 25 de dezembro, com as barbas quase tão brancas como as do Pai Natal e um sorriso quase tão angelical como o do Menino Jesus, que só deseja "a paz e a união no Brasil".

"Que no ano que vem sigamos unidos, caminhando juntos: o meu desejo neste fim de ano é que o Brasil abrace o Brasil. Somos um mesmo povo e um só país", prosseguiu, 12 dias depois de chamar o rival de "facínora".

Contraditório? Talvez. Mas ninguém pode acusar Lula de negar ter duas faces: ao longo da carreira já se autodefiniu como "Lulinha paz e amor", numa época, e como "cobra venenosa", noutra. "No fundo, sou uma metamorfose ambulante", disse um dia, citando Raul Seixas, o rei brasileiro do rock psicadélico.

Um detalhe, descoberto em reportagem do site Poder360, resume-o. Em agosto, num momento de paz e amor disse que "quando cachorro late para a gente, a gente não late de volta, deve aprender a viver democraticamente". Mas, em evento partidário em dezembro, sentindo-se cobra venenosa, reformulou o dito popular: "Quando um cachorro late para a gente, a gente não baixa a cabeça, a gente late também."

Jornalista, correspondente em São Paulo

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