Lúcidos heróis europeus

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Na bonita cidade de Heidelberg brilha um pequeno tesouro. Na clínica da universidade existe um discreto museu contendo uma extraordinária coleção de obras de arte, reunidas por Hans Prinzhorn (1886-1933), um historiador de arte e psiquiatra. Esta coleção tem vindo a ser enriquecida, no inteiro respeito pelo espírito do seu organizador. Para Prinzhorn, não só os doentes mentais eram seres humanos cuja dignidade tinha de ser respeitada como os diferentes "estados de loucura" não são desprovidos de valor cognitivo e de beleza estética. A coleção reúne milhares de trabalhos artísticos de doentes, alguns com uma força expressiva notável. Na altura em que visitei a coleção tocaram-me particularmente duas pinturas. Uma de 1905, Colisão Iminente, de um artista austríaco, Alfred Kubin, e outra de Oskar Herzberg, Declaração sobre o Fim do Mundo (1912). São pinturas catastróficas de choques entre corpos planetários. Na altura lembrei-me que poderiam ser ecos da obra de H. G. Wells A Guerra dos Mundos (1897), a conhecida ficção da invasão da Terra por marcianos. Mas, agora, inclino--me mais para acreditar que tanto Wells como os pintores de Prinzhorn estavam a antecipar - de modo inconsciente, mas movidos pelas misteriosas forças da imaginação criadora - a grande hecatombe que se escondia na então pacífica e civilizada Europa, e que iria desaguar nos quatro anos de selvajaria da I Guerra Mundial. Primeira etapa de muitas outras tragédias que se lhe seguiriam. Se confrontarmos as obras de arte dos doentes mentais de Prinzhorn com a maioria esmagadora dos discursos das pessoas ricas e muito inteligentes que antes da I Guerra Mundial governavam as chancelarias, as universidades e academias europeias ficamos surpreendidos. Só os "loucos" conseguiam conseguir ter o dom profético, só eles vislumbraram o horror de violência a que a estupidez e o egoísmo dos ricos e muito inteligentes estavam em vias de condenar os povos europeus.

A Europa está outra vez doente e governada por gente tão inteligente que é incapaz de separar a realidade das suas fantasias e pequeníssimas ambições. Nos governos nacionais, ou nas instituições europeias, os poderosos estão ocupados a fazer o que costumam: conquistar novas posições ou perpetuar-se nos seus lugares de mando. Ainda há pouco tempo, Juncker, que parece uma metonímia humana do estado deplorável a que a UE chegou, considerava o furacão de grau 5 que se aproxima como um vento estimulante que vai enfunar de novo as velas da Europa! Contudo, fora das "altas esferas", começam a aparecer exemplos, alguns extremos, de cidadãos europeus que nos convidam a acordar antes que seja tarde. No dia 19 de outubro, um homem de 54 anos, de que apenas se conhece o primeiro nome, Piotr, imolou-se pelo fogo (continua agonizante com 60% do corpo atingido por queimaduras horríveis) em frente do Palácio da Cultura e da Ciência, em Varsóvia. Antes tinha distribuído um sereno e rigoroso manifesto contra os ataques aos direitos humanos do governo de ultradireita do partido do radical Kaczyñski. No passado dia 2, partiram de Lisboa dois alemães, pai e filho (ver texto de Patrícia Viegas, DN, 1 de novembro). Carsten Witt, o pai, vai percorrer a pé mais de 5000 quilómetros entre Lisboa e Tallin, em defesa da paz e da unidade europeias. O mesmo fará o filho, mas de bicicleta. Em ambos os casos é gente que não se limita a antecipar o perigo. São europeus com lucidez e coragem, que se transcendem para combater e vencer o perigo, que a todos nos ameaça.

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